Força coletiva que alimenta o Espírito Santo

Cooperativas impulsionam a agricultura familiar no estado organizando produção, facilitando a comercialização e garantindo a chegada dos alimentos em escolas, mercados e mesas urbanas

(Foto: Acervo Cafesul)

Felipe Marques e Heitor Robers

A agricultura familiar é responsável não só pelo sustento de famílias do meio rural, mas por movimentar a economia do Espírito Santo. As 80 mil propriedades agrícolas desse segmento presentes no estado são responsáveis por fazer com que 70% dos alimentos produzidos em terras capixabas cheguem à mesa da população. Neste contexto, aparecem as 25 cooperativas do ramo agropecuário, responsáveis por ampliar o acesso da produção familiar aos mercados interno e externo, conectando o campo aos centros urbanos. 

Números das cooperativas do ramo agropecuário no Espírito Santo em 2025 (Créditos: Anuário do Cooperativismo Capixaba 2026)

O processo de constituição de uma cooperativa focada em agricultura familiar é um pouco diferente de uma cooperativa normal, sendo necessário que 50% dos cooperados possuam o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF). Esse documento oficial é fundamental para reconhecer o produtor como agricultor familiar e garantir o acesso a políticas públicas, como linhas de crédito, programas de assistência técnica e iniciativas de comercialização. 

O Anuário do Cooperativismo Capixaba 2026 aponta que as cooperativas do segmento de agricultura familiar do Espírito Santo comercializaram mais de R$ 19 milhões no ano de 2025 em programas de aquisição alimentar governamental, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Isso significa que mais de mil toneladas de alimentos produzidos por essas cooperativas atenderam a 369 escolas públicas, beneficiando diretamente mais de 94 mil alunos no estado.   

(Créditos: Anuário do Cooperativismo Capixaba 2026)

O agricultor de cultura familiar Hélio de Souza, 52 anos, é associado a Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel), que o auxilia na produção de cacau, café e pimenta do reino. Com as adversidades enfrentadas no processo de produção agrícola, como as variações de chuva e de temperatura, em que toda a produção é colocada em risco e pode deixar o produtor em situação de prejuízo, surge a segurança da associação à cooperativa. Hélio aponta a facilitação na compra de insumos agrícolas, além do apoio em armazenamento, comercialização e transporte como os principais benefícios dessa associação. Ouça abaixo:  

A analista de desenvolvimento cooperativista Bianca Otoni atua nas demandas da agricultura familiar na Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) no Espírito Santo e defende que a associação dos agricultores familiares às cooperativas é benéfica aos dois lados. Ela afirma que as cooperativas são um sistema organizado que garante oportunidades de comercialização dos produtos ao longo de todo o ano, além de atuarem como facilitadoras de venda nos mercados público e privado.

Analista de desenvolvimento cooperativista Bianca Otoni (Foto: Arquivo Pessoal)

O líder do grupo de pesquisa e extensão “Observatório da Agricultura Familiar” da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), André Michelato, explica que o cooperativismo mantém uma relação histórica fundamental com a agricultura familiar, sobretudo por possibilitar que pequenos produtores superem limitações individuais, como falta de escala, estrutura e investimento. Ele esclarece que, diferentemente da agricultura empresarial, a agricultura familiar depende da organização coletiva para se tornar viável. 

Líder do grupo “Observatório da Agricultura Familiar” André Michelato (Foto: Arquivo Pessoal)

A economista Danielle Alves afirma que a agricultura familiar tem grande importância no Espírito Santo por ser uma combinação de produção sustentável e garantia de variedade de alimentos. Além disso, Danielle explica que o segmento gera emprego, renda, sustentabilidade e manutenção das tradições. Ela destaca, ainda, que o cooperativismo fortalece os pequenos produtores ao garantir escala, reduzir custos e ampliar o acesso a mercados por meio de programas públicos. 

Apesar dos benefícios proporcionados aos produtores rurais pela atuação das cooperativas, um antigo fenômeno, já conhecido no Brasil, aparece como um obstáculo a ser superado. A partir da década de 1940, o movimento conhecido como Êxodo Rural levou muitos moradores do campo para as cidades em busca de melhores condições de vida. Na atualidade, o fenômeno segue acontecendo e a tentativa de fazer com que jovens permaneçam nas zonas rurais é um desafio estratégico de resistência.  

O relatório “Dinâmica do trabalho agrícola no Brasil entre 2012 e 2023: uma análise a partir dos dados da PNAD contínua” mostra que a queda no número de trabalhadores rurais se concentrou nas dinâmicas de produção familiar. Enquanto empregos formais e informais no setor agrícola se mantiveram relativamente estáveis ao longo da década, as ocupações por conta própria passaram de 4,7 milhões, no primeiro trimestre de 2012, para 3,3 milhões no fim de 2023. Já o número de trabalhadores familiares auxiliares caiu de 1,5 milhão para 672 mil pessoas no mesmo período.  

(Gráficos: Fábio Alves, Tomás De Faria Balbino, Juliane Da Silva Ciríaco, Eduardo Luiz Zen / Dinâmica do trabalho agrícola no Brasil entre 2012 e 2023: uma análise a partir dos dados da PNAD contínua)

Apesar disso, o jovem agricultor Gabriel Dettman, 21 anos, afirma que nunca pensou em trocar a vida no campo pela cidade. Ajudando a família na lavoura desde cedo, ele desenvolveu gosto pelo trabalho na produção agrícola, fator determinante na decisão de permanecer e construir o futuro da mesma forma que os pais. Além de trabalhar com o que gosta, o jovem destaca o sentimento gratificante em dar continuidade ao trabalho e à produção que, desde cedo, o sustenta. Ouça abaixo: 

Já o estudante universitário do curso de matemática aplicada Raul Martinelli, 19 anos, tomou uma decisão diferente quanto ao futuro no meio rural. Trabalhando desde jovem na produção agrícola no interior do Espírito Santo, a mudança veio ao receber uma bolsa de estudos de uma instituição de ensino superior do Rio de Janeiro. Ele afirma que apesar do receio dos pais em vê-lo morando sozinho e em outro estado, foi também deles o incentivo para aproveitar a oportunidade e buscar o conhecimento na área de interesse.  

Estudante universitário Raul Martinelli (Foto: Arquivo Pessoal)

André Michelato explica que o maior desafio enfrentado pela agricultura familiar é o de fazer com que os trabalhadores, principalmente os mais jovens, tenham interesse em permanecer no campo. Na visão dele, o trabalho fisicamente desgastante e a imprevisibilidade de retorno financeiro, afetada pela instabilidade climática, são os principais fatores que influenciam na decisão de deixar o meio rural.  

Nesse sentido, a agricultura familiar é essencial para o agronegócio e é responsável por grande parte dos alimentos que chegam à mesa dos consumidores brasileiros. A depender da forma com que a produção é comercializada, nem sempre os produtores recebem uma parcela justa do valor final. Ao longo do processo de comercialização, os preços variam até chegar ao consumidor e essa variação levanta questionamentos sobre a recompensa econômica que, de fato, volta para as mãos do produtor ao fim do processo.  

Mesmo em menor número em comparação aos grandes complexos agropecuários, a produção familiar auxilia a manutenção da diversidade agrícola e estimula o desenvolvimento econômico das áreas rurais. De acordo com dados do último Censo Agropecuário realizado no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2017, 77% dos estabelecimentos rurais são de pequenos produtores. Além disso, a agricultura familiar é responsável por 23% do valor total da produção agrícola nacional.

(Gráfico: ChatGPT/OpenAI, com dados do Censo Agropecuário 2017 IBGE)

O agricultor Hélio de Souza explica que as cooperativas desempenham um papel fundamental ao oferecer suporte em diferentes etapas da produção. Ele destaca o auxílio no armazenamento, na compra de insumos agrícolas, no transporte e na comercialização como barateadores dos custos do processo. Hélio enfatiza, ainda, a segurança econômica gerada pela garantia da comercialização dos produtos ao longo de todo o ano. 

Bianca Otoni explica que a associação dos agricultores familiares às cooperativas traz estabilidade e segurança aos produtores. Ela aponta o beneficiamento da produção, a facilitação das compras de equipamentos e materiais e as oportunidades de comercialização nos mercados público e privado como as principais contribuições das cooperativas nessa associação. Ela ressalta que o repasse financeiro feito aos produtores é proporcional à produção entregue às cooperativas.  

A economista Danielle Alves afirma que programas públicos de compras do governo, como PAA e Pnae, por exemplo, possuem uma importância econômica fundamental para a agricultura familiar brasileira.  Ela explica que esses programas agem como indutores de renda, estabilidade e desenvolvimento, pois conectam a produção familiar a mercados institucionais e reduzem a dependência de atravessadores. Além disso, eles são os principais meios pelos quais as cooperativas realizam a comercialização das produções oriundas da agricultura familiar.  

André Michelato explica que o sistema de abastecimento atual é marcado pela atuação dos complexos agroindustriais (CAI), que controlam desde o processamento até a chegada dos produtos ao varejo. Nesse percurso, a presença de atravessadores e as exigências dificultam a inserção de pequenas agroindústrias, prejudicando a renda dos produtores e ressaltando a importância da atuação das cooperativas nesse meio.  

Nesse cenário complexo do agronegócio e do cooperativismo, a sucessão rural, então, ganha destaque e vive um momento de transformação, impulsionado por mudanças sociais e novas dinâmicas implementadas. A modernização tecnológica e as mudanças sociais têm tornado a gestão rural mais complexa, revelando desafios como a falta de sucessores e a escassez de ferramentas de gestão, sobretudo na agricultura familiar. Nesse contexto, a garantia da sucessão familiar passa a se destacar pela participação feminina, historicamente marcada por desigualdades e barreiras culturais.   

O estudo Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro: 10 anos de transformação e avanços, divulgado em 2026 pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF), mostra que as mulheres representam 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais considerados decisores no Brasil. 

(Gráfico: ChatGPT/OpenAI, com dados do Estudo Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro 2026 Abag)

O levantamento, realizado com participação da Serasa Experian e com patrocínio do Sistema FAESP/SENAR, aponta avanço na presença feminina nas propriedades e na gestão dos negócios rurais na última década. Entre as entrevistadas, 91% afirmaram ser proprietárias, total ou parcialmente, do empreendimento rural, 10 pontos percentuais acima do registrado há dez anos.

(Gráfico: ChatGPT/OpenAI, com dados do Estudo Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro 2026 Abag)

A estudante universitária Estefany Soares, 20 anos, morou até os 18 anos na região de Boa Esperança, no Espírito Santo, e afirma que a saída do campo esteve relacionada, principalmente, à limitação de cursos oferecidos na região que não faziam parte de seus interesses pessoais. Ela relata que, desde mais jovem, teve experiências no meio rural ajudando os pais e isso logo a fez perceber que essa não era a área que gostaria de seguir. A vivência desde cedo no campo influenciou a saída precoce da região e a mudança para a capital do estado, Vitória.  

Já a jovem agricultora Taissa Braum, 20 anos, explica que, desde a infância, sempre teve o desejo de permanecer no campo. Ela relata que se sente feliz e realizada com as rotinas rurais, pois é algo com que ama trabalhar e com o qual sempre sonhou. Taissa destaca, ainda, o apoio recebido dos pais nessa decisão e esclarece que a permanência no meio rural nunca foi imposta por eles, que a deixaram livre para tomar a decisão. Ouça abaixo:

A Presidenta da União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes), Fátima Torres, afirma que embora a sucessão rural ainda seja majoritariamente masculina, já é possível observar avanços com a maior participação feminina na gestão das propriedades. Fátima explica que o investimento em formação e empoderamento de mulheres vem ampliando esse movimento. Ela destaca, ainda, que fatores como sentimento de pertencimento e transformações nas atividades agrícolas têm incentivado a permanência no campo.

Presidenta da Unicafes Fátima Torres (Foto: Arquivo pessoal)

A zootecnista e analista de Desenvolvimento Cooperativista do Sistema OCB/ES Caroline Zanetti aponta a falta de mão de obra como um dos principais desafios enfrentados pelo agro capixaba. Ela explica a relação direta desse desafio com a dificuldade em garantir a sucessão familiar no campo. Caroline define como fundamental a valorização das mulheres no campo não só como uma questão de justiça social, mas, também, de sustentabilidade do agro, garantindo qualificação e renovação geracional. 

Zootecnista e analista de Desenvolvimento Cooperativista do Sistema OCB/ES Caroline Zanetti (Foto: Sistema OCB/ES)

A Gerente de Programas e Projetos Sustentáveis da Secretaria Estadual de Agricultura (SEAG), Patrícia Ferraz, relata que a Secretaria Estadual de Agricultura desenvolve políticas e programas para promover a participação feminina no campo, como o “Elas no campo e na pesca” e os projetos “Mulheres do Cacau” e “Mulheres do Café”, incentivando a organização produtiva, o acesso a tecnologias, a assistência técnica e a inserção em mercados. Ela afirma que as iniciativas buscam a inserção das mulheres em espaços coletivos, como associações e cooperativas.

Protagonismo feminino no campo

O ambiente do campo, conhecido historicamente pelo trabalho braçal e pela força bruta, é marcado pela presença masculina, principalmente no meio da agricultura familiar, com a presença do chefe de família. Com o passar do tempo, cooperativas agropecuárias buscam romper com esse padrão por meio da criação de núcleos femininos. Esses grupos procuram estimular o protagonismo feminino por meio de ações voltadas para as mulheres do campo.  

Uma comparação entre os dois últimos Censos Agropecuários realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) permite observar uma mudança de paradigma. Em 2006, o número de estabelecimentos rurais liderados por mulheres no Espírito Santo era de 8.590, já em 2017, passou a ser de 14.661, um aumento de 71%. Nesse mesmo período, o aumento da média nacional foi de 44%, já a proporção entre homens e mulheres na gestão das propriedades rurais cresceu 40%.  

(Gráfico: ChatGPT/OpenAI, com dados do Censo Agropecuário 2017 IBGE)

Apesar do aumento do número, a desigualdade de gênero continua sendo enxergada como o maior desafio para as mulheres no campo. A produtora rural Daiana Carrari, 35 anos, associada à Cooperativa dos Cafeicultores do Sul do Estado do Espírito Santo (Cafesul) e integrante do grupo Póde Mulheres, explica que a falta de apoio e de confiança vem, na maior parte dos casos, do próprio companheiro. Associado a isso está a constante necessidade de provar a capacidade para desempenhar os processos agrícolas.

Maria da Penha Machado e Daiana Carrari, cooperadas da Cafesul (Foto: Reprodução/Cafesul)

Daiana, associada à cooperativa há sete anos, defende que as mulheres decidiram não ficar mais para trás em relação aos maridos, mas lado a lado. Para isso, a busca por conhecimento e informações aumentou e a cooperativa tem dado apoio e suporte para que elas se desenvolvam. Como exemplos dessa mudança de paradigma, ela destaca a busca pela autonomia financeira, materializada na administração do próprio talhão, porção menor e uniforme de uma grande área agrícola dentro da propriedade. Ouça abaixo:

A vice-presidente do grupo Póde Mulheres, da Cafesul, Helen Lima, apresenta as principais ações adotadas pela cooperativa a fim de reduzir essa desigualdade. O coletivo incentiva e promove a participação das cooperadas em congressos, cursos, capacitações e workshops das mais variadas áreas do meio rural. Dessa forma, elas passam a participar ativamente das decisões das propriedades, além de atuarem nos conselhos administrativo e fiscal da cooperativa.

Representantes do Póde Mulheres (Foto: Acervo Cafesul)

A Gerente de Programas e Projetos Sustentáveis da SEAG, Patrícia Ferraz, exalta a importância do cooperativismo para a ampliação da participação e do protagonismo feminino das mulheres na agricultura familiar, classificando-o como fundamental. Ela destaca, ainda, o incentivo ao acesso a políticas públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de alimentos (PAA), que garantem a inclusão produtiva, o acesso ao mercado e o fortalecimento da liderança feminina.

Opinião dos autores — Conhecer e escrever sobre a agricultura familiar, sobre as cooperativas Cooabriel e Cafesul e, mais especificamente, sobre o coletivo Póde Mulheres, nos permitiu compreender que a produção de alimentos vai muito além do trabalho realizado nas lavouras. Por trás de cada produto que chega à mesa dos consumidores existem histórias familiares, desafios climáticos, culturais, econômicos e a busca constante por melhores condições de vida. Conhecer as experiências de quem escolhe permanecer na atividade rural e de mulheres que buscam autonomia e participação nas decisões evidenciou a necessidade de romper com desigualdades históricas e ampliar o acesso à formação, à tecnologia e às políticas públicas. Valorizar a agricultura familiar significa, portanto, reconhecer a importância de quem produz os alimentos que abastecem a sociedade e compreender que o futuro do campo depende de condições dignas de trabalho e de fortalecimento coletivo. Nesse cenário, o cooperativismo se apresenta como uma ferramenta fundamental para fortalecer os pequenos produtores, ampliar as oportunidades e garantir que o trabalho realizado no campo tenha reconhecimento e retorno financeiro.


Diagramação: Redação Lacos

Edição Final: Heitor Robers

Imagem do Destaque: Acervo Cafesul

Data da postagem/veiculação: 09/10/2026