Entre a luta e a esperança, um gesto que continua a transformar vidas 

Por trás de cada doação existem histórias de famílias, profissionais e pessoas que, mesmo diante de momentos difíceis, ajudam a mudar a espera por um transplante em novas oportunidades

Imagem criada por inteligência artificial

 Camila Buzzette e Camila Müller

A doação de órgãos acontece em meio à dor da perda, mas é a partir dela que muitas pessoas encontram uma segunda chance na vida. Foi por esse caminho que Luciene Azevedo passou após a morte do marido, de apenas 51 anos. Mesmo em meio à tristeza da doença e do luto, para o casal nunca houve dúvidas: a doação sempre foi uma certeza. A escolha do Vanildo de doar as córneas, fez com que uma pessoa pudesse ver as cores e as belezas do mundo novamente. Uma vida foi eternamente transformada.

Atualmente, o Brasil registra mais de 85 mil pessoas à espera de um recomeço, de uma possibilidade de viver para além da doença ou da rotina hospitalar. De acordo com a Unimed, em 2025, entre os pacientes na fila por transplantes de órgãos ou tecidos, a maioria estava esperando por um transplante de rim (45,4 mil) ou de córnea (36,6 mil).

Além disso, o país alcançou um recorde de mais de 31 mil transplantes realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sendo considerado um dos maiores programas públicos de transplantes do mundo. Apesar dessa conquista, a demanda por transplantes permanece muito superior à oferta de órgãos, evidenciando a importância de conscientizar a população sobre a doação

A espera por um transplante ultrapassa os números de uma lista. Ela envolve dias de incerteza, tratamentos, limitações e a esperança de que uma oportunidade possa chegar. No Brasil, esse cenário revela a dimensão do desafio enfrentado por milhares de pessoas que aguardam um órgão.

Em meio a essas estatísticas, o Hospital Unimed Sul Capixaba criou a Comissão Intra-Hospitalar para Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT). O grupo está ativa desde 2023, e é responsável pelo processo de doação e pelo acompanhamento do preparo e da condução das etapas de captação dos órgãos. Há três anos, a comissão muda trajetórias e ressignifica a morte em um recomeço.

A Unimed Sul Capixaba mantém ações contínuas de preparação das equipes e orientação à comunidade, com o objetivo de incentivar que cada cliente converse com a família e manifeste sua vontade em relação à doação. Afinal, falar sobre essa decisão com antecedência permite que ela seja respeitada e pode fazer de um momento de despedida um alento de esperança para quem aguarda uma nova chance de viver.

Entre a despedida e a esperança: o papel da equipe de doação

A doação de órgãos é um ato que nasce da solidariedade. Em um momento marcado pelo luto e pela despedida, uma decisão pode oferecer uma nova oportunidade a pessoas que aguardam na fila por um transplante. No entanto, para que isso aconteça, existe um processo criterioso, conduzido por profissionais capacitados e baseado em protocolos que garantem segurança tanto para o doador quanto para o receptor.

Promover a vida e gerar qualidade assistencial ao paciente e à família. Esse foi o motivo que levou à criação da CIHDOTT, atualmente chamada de e-DOT (Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes), no Hospital Unimed Sul Capixaba. Mais do que coordenar procedimentos, o trabalho da equipe é oferecer escuta, respeito e acolhimento.

A doação de órgãos começa com um trabalho baseado na confiança e no cuidado. É assim que a enfermeira e integrante da e-DOT Patrícia Barbosa Mendonça atua. Por meio da sensibilidade, da empatia e do respeito, a ela explica às famílias dos pacientes todo o processo pelo qual elas vão passar, desde o diagnóstico até a captação dos órgãos.

Equilibrar o atendimento técnico com o acolhimento emocional é essencial para quem atua nessa área. Para Patrícia, foi por meio de muitos estudos e cursos sobre comunicação de más notícias que ela aprendeu esse equilíbrio. Além disso, há uma virtude que é indispensável: a compaixão.

No momento de fragilidade e se tratando da perda do ente querido, é difícil não se colocar no lugar do outro. Então, mesmo com tanta dor, mostramos a cada família que esse sentimento pode se transformar em esperança, ao ressignificar a vida de quem ela mais amava

Patrícia Barbosa Mendonça

A enfermeira também compartilhou um pouco sobre o caso que mais a impactou. Um de seus pacientes, que era neuropata, faleceu. A neuropatia consiste em uma alteração ou lesão nos nervos que atrapalha a transmissão de mensagens entre o cérebro e o restante do corpo.

Ao receber a notícia sobre o filho, a mãe se sentou no chão e recusou qualquer tipo de conforto, devido a tamanha dor da perda. Foi então que a equipe se solidarizou, sentou ao lado dela e ajudou em todo o processo. Apesar de toda a fragilidade do momento, a mãe optou por dar um novo sentido à vida do filho, permitindo a doação das córneas.

Um único ‘sim’ pode salvar e transformar inúmeras vidas. Por isso, seja um doador de órgãos. Ajude milhares de pessoas que estão na fila à espera de um transplante, para ter a  chance de retomar uma vida com qualidade

Patrícia Barbosa Mendonça

Uma história de luta e fé que é capaz de transformar vidas

Quando uma vida chega ao fim, um gesto de amor pode permitir que outra continue. É assim que a doação de órgãos funciona.

Em 2019, as vidas de Luciene Azevedo e Vanildo Carriço viraram de cabeça para baixo. Após algumas visitas ao médico, veio o tão temido diagnóstico do marido: câncer de intestino. Foram quatro anos de muita batalha e esperança, esperança de que a cura seria possível. Mas essa oportunidade acabou indo ao encontro de outra família, aquela que recebeu a doação de córneas de Vanildo.

Corajoso, resiliente e paciente. Assim Luciene descreve o marido em meio à luta contra o câncer. O que começou no intestino acabou passando para outras partes do corpo, surgindo manchas no pulmão. Após uma cirurgia, ele conseguiu a cura nos dois órgãos. Mas devido à alta quantidade de medicamentos, começaram a surgir problemas nos rins, que foram tratados com a hemodiálise. Foi uma jornada de recaídas, mas a esperança e o amor sempre estiveram lá, mantendo a família de pé.

Após os mais diversos procedimentos, os médicos relataram que não havia mais o que fazer, a não ser fornecer todo o conforto nos últimos momentos de vida de Vanildo. Luciene relembra como o marido recebeu a notícia com serenidade, compreendendo que a própria jornada teria chegado ao fim. Mesmo com  um diagnóstico tão difícil, a primeira coisa que passou na cabeça do marido foi se ainda havia a possibilidade de ser doador.

Quando ele recebeu a notícia, ele não chorou. Não se desesperou. Pelo contrário, ele agradeceu ao médico. Ele o abençoou. E disse: ‘Que o Senhor te abençoe e que o Senhor possa fazer por outras pessoas ainda mais do que fez por mim. Se houver algo em mim que possa ser doado, eu quero doar. Eu sou doador

Luciene Azevedo

Três dias após a notícia, Vanildo veio a óbito. Em meio a tanta dor, a família até esqueceu o desejo de ser doador. Foi só após os médicos os alertarem sobre a possibilidade da doação que eles se atentaram a essa vontade. Luciene ressaltou também a importância de sempre procurar estar ciente dos desejos das pessoas mais próximas.

Era uma coisa que a gente já tinha estabelecido entre nós. Que tanto eu quanto ele somos doadores. Assim, ele ressaltou para mim e para o médico esse desejo

Luciene Azevedo

Mas, mesmo sendo doadora, Luciene também tinha dúvidas sobre o processo. Por estar repleto de células cancerígenas, o casal pensava que a doação não era uma opção, conceito que foi desmistificado pelos médicos, já que o diagnóstico de câncer não é indicativo de uma impossibilidade de doar órgãos. “Se há algo bom em mim, eu sou doador”, destacou o marido.

Outro conceito que a assombrou foi como ficaria o aspecto do rosto do marido após a doação. Não como algo estético ou que impossibilitaria o processo, mas como uma preparação para o velório. Preocupada com os filhos e o resto da família, Luciene não queria que a última visão deles fosse a do pai com o rosto deformado pela cirurgia.

Apesar do falecimento devido ao câncer e da retirada das córneas para a doação, Luciene diz que Vanildo não estava com uma aparência doente nem com cicatrizes aparentes, apenas com o semblante tranquilo de quem enfrentou a batalha com muita força e que, com grande empatia, pôde abençoar a vida de outra família.

Nunca houve o encontro entre essas duas histórias. Com as histórias entrelaçadas por uma doação, Luciene agradece a Deus por poder abençoar outra vida e apenas torce para que a pessoa tenha uma vida longa e saudável.

A doação de órgãos como um ato que vai além da solidariedade

Um só ato de amor pode ajudar até oito pessoas. Vidas são reconstruídas, garantindo a oportunidade de viver, amar, conhecer e reconhecer o mundo, crescer e aprender.

A história de Vanildo é um exemplo de como uma decisão familiar pode resultar em novas possibilidades. Mas, para que isso aconteça, existe todo um processo por trás. 

A doação de órgãos ocorre após o diagnóstico de morte encefálica, no caso de múltiplos órgãos. Já as córneas também podem ser destinadas a transplantes em casos de parada cardiorrespiratória. Todo o processo segue protocolos rigorosos para garantir um procedimento seguro e regulamentado, tanto para a família quanto para o receptor.

O médico e coordenador da Unidade Coronariana e Neurológica (UCON), Rafael Salgado, atua diariamente no tratamento de patologias cardiovasculares e neurológicas graves, e acompanha o impacto da doação na vida das famílias. Ele destaca que doar é um ato voluntário de uma pessoa, viva ou falecida, para ajudar pacientes que têm órgãos comprometidos a recuperar suas funções.

O encontro de potenciais doadores e a doação de órgãos são muito importantes para tentarmos reduzir a fila de transplantes e trazer qualidade de vida para essas pessoas que apresentaram disfunção de órgão

Rafael Salgado

Após o diagnóstico do paciente, os médicos precisam conversar com os familiares para informar sobre a possibilidade da doação. O acolhimento familiar é realizado pela equipe multiprofissional, que orienta sobre todo o processo até o esclarecimento do diagnóstico confirmatório. O coordenador da UCON destaca que uma das maiores barreiras enfrentadas no hospital são os mitos religiosos.

Muitos enfrentam o medo da proibição dos textos sagrados ou dos dogmas em relação à retirada de órgãos após a morte, o receio de que o corpo fique “incompleto” para a eternidade ou para rituais espirituais e o mito de que mexer no corpo após o falecimento poderia atrapalhar a passagem da alma.

As famílias são cruciais no processo de doação, pois são elas que decidem se a a captação dos órgãos poderá ou não ser realizada. Por isso, Rafael destaca a importância de manter a família informada sobre o desejo de ser doador ou não. Esse conhecimento pode facilitar uma decisão tão delicada quanto essa.

Do luto à esperança 

A doação de órgãos também carrega uma escolha silenciosa: a de permitir que, mesmo depois da despedida, algo permaneça. Uma atitude que nasce da empatia e pode mudar o significado da perda para quem fica.

Em 2024, com apenas 64 anos, Everaldo Raasch, pai de José Roberto, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em casa, enquanto fazia as atividades do dia a dia normalmente. Movido pelo pensamento de que ir ao hospital era apenas um pretexto para descobrir doenças, Everaldo não realizava atendimentos prévios para identificar possíveis problemas de saúde ou tratamentos a serem seguidos. Apesar dos rápidos esforços em resgatar o pai, devido à seriedade do acidente, ele teve  morte encefálica, em que o cérebro deixa de funcionar e o corpo passa a sobreviver apenas por meio de aparelhos. 

Após o diagnóstico, os médicos se reuniram com a família de Everaldo para perguntar quais seriam os próximos passos que eles tomariam. José então indagou se haveria a possibilidade de doar os órgãos do pai, questionamento que não foi bem recebido pela mãe e pelas tias. Por serem nascidos e criados no interior do estado, o conceito da doação não era aceito, muito por conta da desinformação e dos estigmas relacionados a esse ato de doar.

Assim, José iniciou um processo de conversa e explicação à família, para que eles pudessem compreender a importância dos transplantes.

Nós sabemos que o meu pai não vai voltar mais, mas a gente sabe o quanto essa doação impacta diretamente na vida de outras pessoas também. Imagina quantas pessoas que estão sofrendo nas filas de espera, poderiam ser beneficiadas

José Roberto

Para o filho, a doação é um dos princípios do cristianismo e até de outras religiões, que ressaltam o dever de ajudar e apoiar o próximo. Em meio à dor da perda, saber que pelo menos partes do pai estariam vivas e ajudando outras pessoas trouxe um sentimento de conforto à família. Após longas discussões, as tias e a mãe puderam enxergar com outros olhos esse ato de caridade.

Dessa forma, resolveram seguir o processo para doação do Everaldo. A decisão foi que não fossem informados quais os órgãos que seriam doados. Para eles, o importante era apenas poder trazer qualidade de vida para as pessoas que precisavam. Para a família, a doação passou a representar uma forma de ressignificar a perda. Mesmo sem saber quem seriam os receptores, ficou a certeza de que aquele ato poderia levar adiante um gesto de solidariedade em um momento marcado pela despedida.

Do outro lado da história: de mãe de um doador a transplantada

Antes de se imaginar precisando de um novo coração, Magda Messias foi obrigada a conhecer a dor e a importância da doação de órgãos. Há 18 anos, ela realizou o sonho de ser mãe. Só não imaginava que, apenas um ano e sete meses depois, perderia o filho e, em meio ao luto, precisaria tomar uma decisão que mudaria a vida de outras dez pessoas: autorizar a doação dos órgãos dele.

Sem conseguir se preparar para aquela despedida, Magda precisou lidar, ao mesmo tempo, com a dor da perda e com a possibilidade de transformar aquele momento em uma oportunidade para outras famílias. 

Naquele momento, eu era simplesmente uma mãe que tinha acabado de perder um filho. Não existia preparação emocional para aquilo. Existia dor, choque, tristeza e uma sensação de vazio enorme. Autorizar a doação não diminuiu a minha dor, mas saber que aquela decisão poderia salvar outras vidas trouxe um sentido diferente para aquele momento tão doloroso 

Magda Messias

17 anos depois, a história de Magda ganhou um capítulo jamais previsto. Ela descobriu uma doença cardíaca e passou a enfrentar a possibilidade de precisar de um transplante. Foi então que percebeu que poderia estar, um dia, do outro lado da mesma decisão que havia tomado como mãe.

Eu pensei: ‘Meu Deus… um dia eu autorizei a doação dos órgãos do meu filho para que outras pessoas tivessem uma oportunidade de viver. E agora talvez eu precise que outra mãe, em meio à pior dor da vida dela, tome uma decisão parecida para que eu possa continuar aqui

Magda Messias

A consciência de que dependia da decisão de outra família mudou a percepção de Magda em relação à doação, o que a fez  compreender ainda mais o gesto de quem, em meio à própria perda, permite que outra pessoa possa ter a oportunidade de viver. 

Após sete anos de espera, em março de 2026, sua vez finalmente chegou. Ela recebeu a notícia de que havia um coração compatível para o transplante. Porém a esperança de uma nova vida veio acompanhada do conhecimento de que, para ela receber aquele coração, outra família havia acabado de enfrentar uma perda.

Quando recebi a notícia de que havia um coração compatível para mim, foi como se o tempo parasse. Eu sabia que aquela notícia poderia significar a minha segunda chance. Eu senti medo, esperança, ansiedade e uma gratidão que é muito difícil colocar em palavras. Quando entrei para receber aquele coração, eu sabia que a minha vida nunca mais seria a mesma e realmente não foi

Magda Messias

Depois do transplante, Magda conta que começou a enxergar a vida de uma maneira completamente diferente. Atos que pareciam pequenos, como acordar, estar com os filhos, abraçar a família e fazer planos para o futuro, ganharam um valor enorme. Viver passou a ter outro significado, com cada batimento do novo coração representando uma nova oportunidade de fazer valer a pena.

Hoje, Magda carrega uma perspectiva que poucas pessoas têm: ela conhece a doação a partir dos dois lados. Primeiro, como mãe que precisou enfrentar a dor da perda do filho e autorizar a doação de seus órgãos. Depois, como mulher que recebeu um coração e ganhou uma nova chance de viver.

Eu sou testemunha dos dois lados dessa história. Meu filho me ensinou, através da doação, que mesmo depois de uma despedida pode existir vida. E o coração que recebi me ensinou que uma segunda chance não deve ser desperdiçada

Magda Messias

Depois de viver a doação dos dois lados, Magda reforça a importância de que as pessoas conversem com suas famílias e deixem clara a vontade de serem doadoras. Para ela, essa decisão pode fazer a diferença entre a despedida de uma família e a oportunidade de outra pessoa continuar vivendo. A própria história é a prova de que, mesmo em meio à dor de uma perda, a doação pode abrir caminho para uma nova chance de vida.

O acolhimento que atravessa o luto 

Quando a vida e a morte se encontram. Assim é descrita a doação de órgãos. Um momento delicado e difícil para as famílias, que enfrentam a dor da perda, o impacto de compreender que aquela pessoa não estará mais ali e, ao mesmo tempo, a possibilidade de que algo daquela história possa contribuir para a continuidade da vida de outra pessoa.

Na psicologia, os profissionais da área buscam compreender o ser humano em diferentes contextos e ajudá-lo a passar pelas dificuldades e turbulências que surgem ao longo desse caminho. 

A psicologia pode contribuir oferecendo espaço para acolhimento, escuta e elaboração emocional, ajudando a pessoa a reconhecer o que está sentindo e a diferenciar aquilo que vem dos seus valores daquilo que está sendo provocado pelo medo, pela culpa ou pela pressão

Milena Vidal

Para a psicóloga Milena Vidal, não há uma reação emocional única ou uma maneira “certa” de vivenciar o momento do luto ocasionado pela perda de um familiar. Cada um responde a partir da própria história, das crenças e, principalmente, dos valores adquiridos ao longo da vida. Mas, para além dessa singularidade, um detalhe se mantém: a diferença que o cuidado e um olhar sincero trazem para esse momento.

Milena reafirma a importância de as famílias não esperarem o pior acontecer para conversar sobre os desejos finais. Essa discussão deve ser feita em vida, compartilhando as próprias vontades e preferências. Assim, é possível ter mais clareza sobre os desejos do familiar e evitar que uma decisão tão importante precise ser tomada em um momento complexo e delicado.

A decisão pode ser atravessada por muitos medos: o medo da morte, da perda, do desconhecido e até da sensação de perder o controle sobre o que acontecerá com o corpo daquela pessoa. Também podem existir crenças e informações equivocadas que aumentam a insegurança

Milena Vidal

Além dos parentes, os pacientes que estão na fila de espera por um órgão também precisam desse cuidado. A ansiedade, o medo, a impaciência, a insegurança e a sensação de que a vida está em suspensão enquanto se espera por um transplante fazem com que essas pessoas vivenciem momentos emocionalmente complexos. Milena descreve que os pacientes lutam por um desejo legítimo de continuar vivendo, mas, ao mesmo tempo, lidam com uma parte importante desse processo que não está sob seu controle.

Eu acredito que um dos grandes desafios seja conseguir continuar vivendo enquanto se espera. Isso não significa ignorar a doença ou fingir que está tudo bem, mas preservar, dentro das possibilidades de cada pessoa, os vínculos, a rotina, os projetos e aquilo que ainda dá sentido à vida

Milena Vidal

O tempo dessa espera tão incerta pode ser emocionalmente desafiador. É nesse contexto que a psicologia pode contribuir para acolher esses pacientes, ajudando-os a lidar com as incertezas e a encontrar maneiras de continuar vivendo enquanto aguardam por um transplante.

Entre dúvidas e decisões: o acolhimento às famílias

O processo de doação de órgãos também envolve profissionais que acompanham de perto as famílias durante o luto. Entre eles está a assistente social e integrante da CIHDOTT, Roberta Prett.

Para Roberta, esse trabalho exige respeito ao tempo e aos sentimentos de cada família, especialmente porque a decisão sobre a doação acontece em meio à dor da perda, às dúvidas e às incertezas sobre os próximos passos. Por isso, o acolhimento e a orientação são fundamentais para que os familiares tenham segurança para tomar uma decisão, sem que seus limites sejam ultrapassados.

Como assistente social, meu papel é acolher, ouvir e orientar o paciente e sua família, especialmente nos momentos mais delicados. Na doação de órgãos, esse cuidado é ainda mais importante, porque a família acaba de receber uma notícia muito difícil: a perda de alguém que ama, e já precisa lidar com uma decisão igualmente difícil sobre a doação

Roberta Prett

Segundo ela, algumas famílias chegam ao momento da decisão cercadas por dúvidas e receios. Entre as barreiras encontradas estão a demora do processo, questões religiosas e o preconceito relacionado à integridade do corpo após a morte.

Algumas pessoas não querem esperar o processo, pois é demorado, outras questões religiosas e ainda o preconceito de achar que irão enterrar um corpo ‘oco’. Sim, ouvimos muito isso

Roberta Prett

Na experiência de Roberta, um dos momentos mais marcantes foi uma captação de córneas em um paciente oncológico que havia manifestado em vida à família o desejo de ser doador. Quando chegou o momento da despedida, os familiares conseguiram respeitar a vontade deixada por ele.

Para ela, experiências como essa reforçam a importância de conversar sobre a doação ainda em vida. Ao conhecer a vontade de quem ama, a família pode chegar ao momento da despedida com mais clareza sobre a decisão a ser tomada, respeitando aquilo que aquela pessoa desejava deixar como um último gesto de solidariedade.

Opinião das autoras: Produzir essa reportagem sobre a doação de órgãos foi uma experiência de muito aprendizado e sensibilidade para nós. Ao conhecer as histórias de famílias que enfrentaram a dor da perda, de profissionais que acolhem essas pessoas em momentos tão delicados e de quem recebeu uma nova chance de viver por meio de um transplante, percebemos o quanto a doação vai além de um procedimento médico. Durante a produção, compreendemos também a importância da informação e do diálogo familiar para combater os medos e as dúvidas que ainda cercam esse tema. Contar essas histórias nos fez refletir sobre a responsabilidade do jornalismo de dar visibilidade a experiências que podem transformar a forma como as pessoas enxergam a doação de órgãos. Mais do que apresentar dados e informações, buscamos mostrar que, mesmo em meio à dor de uma despedida, um gesto de solidariedade pode representar a oportunidade de uma nova vida.