Mulheres no ES ganham força no agronegócio por meio do Cooperativismo 

Impulsionado pela força das Cooperativas e pela capacitação, o protagonismo feminino avança no agronegócio capixaba, abrindo caminho para a liderança, a autonomia e a redução de desigualdades históricas no campo

Estefany Benachio e Milena dos Anjos

O agronegócio capixaba e brasileiro ganha fôlego com o protagonismo feminino e, neste cenário de transformações, o Cooperativismo fortalece a presença das mulheres e garante espaço para elas na liderança dos negócios. Apesar desse avanço apoiado pelo Cooperativismo como alternativa para superar desigualdades e desenvolver e ampliar oportunidades, as mulheres ainda enfrentam invisibilidade para ter o mesmo espaço e reconhecimento que os homens na gestão das propriedades e dos negócios.

De acordo com os dados do boletim Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro, publicado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em 2026, as mulheres estão presentes no agronegócio brasileiro. O levantamento aponta que elas administram cerca de 30 milhões de hectares de terras rurais no Brasil, o equivalente a 8,5% da área rural brasileira. A análise indica ainda um avanço gradual, pois cresceu 2,6% neste ano, ou seja mais de 270 mil mulheres entraram nesse mercado. Apesar disso, o relatório da Oxfam Davos 2026, aponta que as mulheres recebem, em média, 20% menos que homens na cadeia produtiva de alimentos.

No que diz respeito ao Espírito Santo, o agronegócio é um setor competitivo e pilar na economia com movimentação de cerca de R$ 6,5 bilhões somente na agropecuária de acordo com o Anuário Cooperativista Capixaba de 2026. Contudo, a participação feminina no campo ainda é um desafio. Elas representam 15.9% do total dos cooperados e pouco mais de 18.4% ocupam cargos de liderança segundo o mesmo levantamento. Diante disso, a Organização das Cooperativas do Estado do Espírito Santo (OCB/ES) evidencia a necessidade de iniciativas voltadas à inclusão, afinal, o Cooperativismo desempenha um papel fundamental na mudança dessa realidade por ser um modelo baseado na participação e na educação.

A analista de desenvolvimento cooperativista do sistema OCB/ES Caroline Zanetti relata que há vários grupos focados em capacitar e fortalecer as mulheres no agronegócio capixaba. Iniciativas como o “Comitê Estadual de Mulheres Cooperativistas”, o “Elas pelo Coop ES” e o “Póde Mulheres” ajudam a abrir portas e a enfraquecer a cultura machista que ainda resiste no campo.

O Cooperativismo tem papel fundamental na mudança dessa realidade patriarcal, justamente por ser um modelo baseado na participação, na educação e na inclusão. Ele cria caminhos para que mulheres ocupem espaços, se fortaleçam e assumam posições de liderança

Caroline Zanetti
A analista de desenvolvimento cooperativista do sistema OCB/ES Caroline Zanetti sente orgulho da sua carreira (Foto: Sistema OCB/ES)

Caroline conta ainda que sente orgulho da posição que ocupa atualmente e destaca a importância de ter mulheres ativas no cooperativismo no campo para garantir uma transformação social.  Ouça abaixo:

A produtora rural Adelaine Areia representa a realidade de mulheres que atuam diretamente no campo e buscam ampliar o espaço no agronegócio. Cooperada da Cooperativa Agropecuária Capixaba (Cooabriel) em Boa Esperança, na região Noroeste do Estado, Adelaine recorreu a uma cooperativa para comercializar café por um preço mais justo. Ela avalia que há potencial para o crescimento da participação feminina e destaca que a Cooperativa contribui para o desenvolvimento e fortalecimento das mulheres ao incentivar a participação e apoiar a comercialização da produção agrícola.

Adelaine Areia encontrou no cooperativismo uma forma de ampliar a participação no agronegócio (Foto: Estefany Benachio)

Adelaine diz, ainda, que após dar início a atuação na Cooabriel, ela percebeu como as mulheres têm assumido postos de liderança, deixando de ser apenas suporte para assumir o papel de linha de frente. “Antigamente, não era muito comum ver as mulheres nos cargos de frente. Hoje, é possível ver as mudanças de um passado que era totalmente dominado por homens”, destacou a cooperada.

Diante da forte predominância masculina no agronegócio, Caroline Zanetti relata já ter presenciado situações em que homens recebiam espaço, atenção e reconhecimento com muito mais facilidade do que as cooperadas. Ela afirma que esse cenário reflete uma cultura que ultrapassa os limites do Cooperativismo, mas que tem sido ativamente combatida dentro do setor. Ouça a explicação de Caroline:

A trajetória de mulheres como Adelaine Areia reflete um amplo movimento de transformação no campo, impulsionado pelo Cooperativismo e por iniciativas de capacitação. Para o sociólogo e antropólogo Américo Galdinno, embora desafios como a desigualdade e o preconceito ainda persistam, essas ações atuam como ferramentas fundamentais para ampliar oportunidades e romper estruturas históricas

Américo Galdinno acredita que há preconceitos que são estruturais e as as mulheres precisam lutar pelo seu espaço (Foto: Arquivo Pessoal)

Américo explica que há uma invisibilização estrutural do trabalho feminino no campo. Ele relata que atividades como organização doméstica e cuidado familiar ainda são naturalizados como responsabilidade feminina. O pesquisador observa, no entanto, um processo de transição com a ordem tradicional e percebe as oportunidades e crescimento da presença feminina em cooperativas e espaços de decisão. Escute o aprofundamento do tema pela voz do sociólogo Américo Galdinno: 

Nesse contexto de fortalecimento, iniciativas de capacitação de mulheres ganham destaque. O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) promove ações em parceria com cooperativas para aumentar a atuação feminina no campo. A analista técnica de formação profissional rural Munik Muniz avalia que os projetos contribuem para o desenvolvimento de mulheres empreendedoras no meio rural. As atividades envolvem organização financeira, melhoria na gestão das propriedades e incentivo à autonomia feminina.

Munik Muniz esclarece que no Senar-ES as mulheres representam 84% do público das atividades de Promoção Social, como ações de qualidade de vida e organização familiar. Além disso, a criação da Comissão Capixaba das Mulheres do Agro reforça a busca por maior participação feminina no setor.

Munik Muniz buscar ampliar iniciativas e reforçar a participação feminina no agro (Foto: Divulgação/Senar-ES)

De maneira pessoal, Munik Muniz compartilha que também atua no apoio à comissão e explica que a iniciativa busca ampliar e fortalecer a participação feminina. “O programa fortalece a autonomia feminina ao estimular o conhecimento, a tomada de decisão e o protagonismo. As mulheres passam a reconhecer seu potencial, identificar oportunidades e contribuir de forma ativa na gestão e na geração de renda da propriedade, transformando seu papel dentro da família e das propriedades, tornando-as mais independentes e valorizadas“, ressaltou.

A produtora rural Therezinha Areia, 64 anos, destaca a importância de iniciativas voltadas à formação das mulheres rurais. Ela conta que o passado era um período marcado por desigualdades, que limitava a atuação feminina apenas ao trabalho de cuidado. Mesmo trabalhando nas lavouras, a remuneração era entregue inteiramente aos homens por mais que fosse a força de trabalho da mulher. Therezinha, que também é cooperada da Cooabriel, avalia que os projetos atuais contribuem muito para ampliar o desempenho da mulher e mudar o que era no passado.

No passado a mulher não tinha valor na roça. Os donos das propriedades não contratavam mulheres para trabalhar. Então, era muito difícil ter uma renda própria. Hoje, há fazendas que a gente vê ao redor daqui que as mulheres são a maioria. Tem mulheres que já dirigem tratores, puxam as lonas das colheitadeiras e realizam funções que antes não se via

Therezinha Areia
Therezinha Areia percebe a evolução das mulheres nas atividades relacionadas ao agronegócio (Foto: Estefany Benachio)

Para diminuir o isolamento estrutural das mulheres no campo, os projetos do Senar no Espírito Santo desempenham um papel decisivo, ampliando a autonomia produtiva e assegurando protagonismo feminino nos espaços de liderança. O agricultor Hélio Soares destaca o impacto dessas transformações para o futuro, pois as novas gerações passam a ocupar cargos que antes lhes eram negados. Para ele, o mérito dessas ações está em impulsionar não apenas a produção, mas o poder de voz e a visibilidade técnica das mulheres. Escute a visão de Hélio:

O incentivo ao acesso à informação por meio de projetos voltados ao público feminino traz diversos avanços para a história da área rural. Apesar de ainda haver desafios como a desigualdade em relação aos feitos e decisões das mulheres, as ações aumentam e encorajam as lideranças, fazendo que, hoje, já existam mulheres mais qualificadas e conscientes do papel delas a partir do conhecimento adquirido pelos cursos e projetos.

Liderança no Campo

As mulheres, por mais que ainda enfrentam dificuldades, conseguem transformar a realidade no campo e diminuir a invisibilidade. A contribuição cresce ano a ano tornando-se um espaço de superação, representatividade e oportunidade. Nesse processo, o Cooperativismo se destaca ao abrir espaço para a atuação feminina em cargos de liderança e no trabalho agrícola, além de impulsionar a autonomia por meio de cursos, capacitações e palestras.

Essa expansão do protagonismo feminino encontra respaldo nos números. De acordo com dados do Anuário de Cooperativismo Capixaba 2026, no ramo agropecuário as mulheres representam 15,9% dos cooperados, enquanto os homens correspondem a 83,5%. Considerando o levantamento do Anúario de 2021, houve um crescimento constante da participação feminina, já que as mulheres neste ano representavam 11,8% e os homens 87,6%. Diante desse cenário, a tendência é de maior inclusão de mulheres no agronegócio e nas cooperativas.

Neste sentido, Américo Galdinno explica que, na atualidade, a mulher está se tornando um membro ativo na tomada de decisões e que a deixa de ser exclusiva dos homens. Ele explica que não é apenas a produção de serviços que aumenta, mas, também, as relações sociais são transformadas quando o poder é redistribuído entre os gêneros e a participação feminina é ampliada em diferentes espaços. A análise mostra o tamanho da invisibilidade feminina e as mudanças provocadas pela maior participação das mulheres. Confira:

A médica veterinária e coordenadora do programa AT&G Leite Certo da Nater Coop, Juliana Piassi, por exemplo, é envolvida desde a infância nas atividades da fazenda. Ela conta que segue os exemplos dos pais que são produtores rurais e, por consequência, fez um curso que possibilitou permanecer próxima a eles. Juliana também é gestora de uma farmácia veterinária e divide o dia entre o acompanhamento técnico nas propriedades e o contato direto com produtores e equipes de campo.

Atualmente, as propriedades rurais enfrentam dificuldades para lidar com a tecnologia. Juliana ressalta que ter a oportunidade de estudar e ser jovem ajudou a família e os negócios, pois trouxe o conhecimento necessário para implementar inovações e ajustes de manejo para melhorar a eficiência no meio agrícola. Hoje, na visão da coordenadora, o conhecimento técnico e a capacidade de gestão ampliam de forma positiva a presença feminina no setor, mesmo que a mulher ainda seja descredibilizada na profissão por causa do gênero.

As mulheres têm assumido posições de liderança e atuando em áreas que eram predominantemente ocupadas por homens. Hoje, competência, conhecimento técnico e capacidade de gestão têm falado mais alto. E isso tem ampliado de forma muito positiva a presença feminina no setor, pois exige profissionais mais preparados, atualizados e comprometidos

Juliana Piassi

Outra referência de mulher que implementou ideias no agro é Caroline Zanetti. Ela possui uma trajetória marcada pela ligação familiar com o Cooperativismo, pois o bisavô foi um dos sócios fundadores da Cooperativa de laticínios de Alfredo Chaves e participou de iniciativas voltadas à formação de lideranças femininas e ao fortalecimento da presença das mulheres nas cooperativas.

Caroline, ao longo da carreira, entendeu que o Cooperativismo é um espaço essencial para promover mudança na participação feminina dentro do agro. Ela afirma que os avanços já são perceptíveis, principalmente com o aumento da qualificação feminina, da ocupação de espaços de liderança e da criação de iniciativas voltadas ao fortalecimento das mulheres dentro do cooperativismo. Confira a visão de Caroline sobre o assunto:

Tanto Caroline quanto Juliana destacam o papel fundamental das cooperativas em seus avanços profissionais e pessoais dentro do agro. O Cooperativismo tem impulsionado, na visão delas, caminhos para que as mulheres ocupem espaços de liderança por meio de algumas iniciativas: Grupos femininos, programas de formação e ações voltadas ao fortalecimento e a participação das mulheres focados no crescimento técnico e profissional.

É justamente esse empoderamento que abre caminho para a sucessão feminina no campo. As mulheres tiveram uma participação historicamente negligenciada no campo e enfrentaram dificuldades para se manter nesse espaço. Ainda assim, algumas figuras femininas romperam barreiras e abriram caminhos para as novas gerações. Elas se tornaram fonte de inspiração especialmente para as sucessoras que crescem observando a mãe em uma realidade de autonomia, força e coragem. Com esse exemplo, muitas jovens continuam o legado familiar e assumem a gestão das propriedades rurais.

Nesse sentido, o Senar-ES ajuda a fortalecer e integrar essa participação feminina no campo. Os treinamentos em máquinas agrícolas, poda e desbrota nas plantações e capacitações sobre empreendedorismo feminino contribuem diretamente na qualificação. Munik Muniz ressalta que os projetos ajudam as mulheres nas atividades rurais, tornando-as mais independentes e valorizadas.

As mulheres passam a reconhecer seu potêncial, identificar oportunidades de négocio e contribuir de forma ativa na gestão e geração de renda da propriedade

Munik Muniz

A produtora rural Chayane dos Santos trabalha no campo ao lado da mãe e, para a jovem, foi uma escolha natural, já que sempre teve contato com o meio. Ela conta que assumiu a profissão aos 18 anos e que as dificuldades passadas foram com a força braçal e o aprendizado rápido para cuidar das terras. A produtora rural, no entanto, procurou algumas formações para aprimorar os conhecimentos sobre operação e manutenção de recolhedora de café e tratores agrícolas.

A principal produção da família de Chayane dos Santos é o café (Foto: Estefany Benachio)

Chayane busca seguir os passos da mãe na agricultura e encontra nela a inspiração para construir a própria trajetória no campo. Ela destaca que a presença dessa figura materna foi essencial na condução de sua jornada e é fundamental para ampliar oportunidades. “Minha mãe veio antes de mim já marcando uma presença forte. Então, isso me ajudou muito”, comentou. A agricultora reforça para os mais jovens que o segredo é confiar no próprio potencial e encarar os desafios com firmeza.

Um conselho é não ter medo, confiar em si mesma e enfrentar os desafios com determinação

Chayane dos Santos
A mãe e a filha, Chayane e Irany, são exemplo de resistência das mulheres no campo (Foto: Estefany Benachio)

Já a trabalhadora rural Irany dos Santos, mãe de Chayane, acompanha de perto a trajetória da filha e afirma sentir orgulho do caminho que ela vem construindo. Ela relembra que, no início, o preconceito era mais presente, mas destaca que os cursos oferecidos pelo Senar-ES e o apoio técnico das Cooperativas facilitaram o dia a dia. Para ela, transmitir conhecimentos à filha representa a continuidade desse legado e reforça como é gratificante ver cada vez mais jovens interessadas em permanecer no campo.

Eu tenho muito orgulho da minha filha, principalmente porque ela tem interesse em continuar com nosso legado

Irany dos Santos

Apesar dos desafios históricos, a presença feminina no agronegócio se fortalece por meio da qualificação e sucessão familiar. Histórias como as de Chayane e Irany evidenciam um conhecimento transmitido entre gerações e que contribuem diretamente como um exemplo da consolidação de mulheres nas atividades agrárias. A tendência é que, com mais acessos a oportunidades e incentivo, cada vez mais jovens assumam o protagonismo no campo.

Confira abaixo a Reportagem Radiofônica: “O protagonismo feminino no agronegócio e cooperativismo”

OPINIÃO DAS AUTORAS – ESTEFANY BENACHIO: Eu cresci dentro do agronegócio. Minha família faz parte desse setor e, por isso, aprendi desde cedo a importância, as dificuldades e o amor que todos sentem por essa área. Mas, ao longo dessa reportagem, percebi que nunca tinha parado para aprofundar a importância do agronegócio e, principalmente, do Cooperativismo na vida das pessoas. Poder olhar para esse universo a partir da perspectiva das mulheres, unindo a cultura da minha família, o meu gênero e o jornalismo, minha futura profissão, tornou essa experiência ainda mais especial. Dar voz às histórias das pessoas é incrível. Contar essas histórias também me fez enxergar de outra forma uma realidade que sempre esteve tão perto de mim. Pude conhecer novas perspectivas, compreender melhor os desafios enfrentados pelas mulheres no agronegócio e perceber a força que existe por trás de cada história. Acima de tudo, essa experiência me mostrou a importância de acreditar e lutar por um futuro em que as mulheres tenham cada vez mais espaço, reconhecimento e protagonismo. MILENA DOS ANJOS: Lembro que, quando criança, meus avós paternos me contavam histórias sobre as dificuldades e desigualdades que enfrentaram enquanto moravam na roça. Minha avó, principalmente, sempre lamentava não ter vivido plenamente a infância e a juventude, pois precisou dedicar esse período aos cuidados com os irmãos, a casa e a família. No entanto, quando comecei a produzir essa reportagem, imaginei que encontraria mulheres que vivenciaram dificuldades semelhantes as dela. Fui surpreendida, porém, por histórias de mulheres que, por meio do conhecimento, transformaram as terras das famílias, ocuparam posições de liderança e conquistaram voz dentro do agronegócio. Mulheres que encontraram nas cooperativas oportunidades para aprender, crescer e desenvolver novas habilidades por meio dos projetos dos quais participaram. Hoje, vejo as cooperativas como uma grande potência para impulsionar ainda mais mulheres a ocuparem espaços de liderança. É nítido o crescimento, a diversidade e o empoderamento que essas iniciativas proporcionam ao público feminino. Isso me faz acreditar que nenhuma menina precisara perder a sí como aconteceu com minha avó, pois tem espaços que as escutam.




Diagramação: Redação Lacos

Edição Final: Estefany Benachio

Imagem do Destaque: Estefany Benachio

Data da postagem/veiculação: 09/10/2026