Doutores de Patas: Visita de animais transforma ambiente hospitalar

Em meio à rotina hospitalar, a presença dos cães-terapeutas revela caminhos de cuidado, afeto e leveza para pacientes e familiares durante momentos de internação

Imagem criada por inteligência artificial

Camila Buzzette e Isabella Paiva

Em meio à dor e à tristeza que acompanham muitas internações, a chegada dos Doutores de Patas, por alguns instantes, muda a rotina do hospital. Entre corredores, quartos e olhares cansados, os cães chegam levando carinho, brincadeiras e companhia aos pacientes da Unimed Vitória. O que para muitos pode parecer apenas uma visita, para quem está internado pode significar um momento de leveza em meio a dias difíceis. 

Além de contribuírem para o bem-estar emocional, os animais podem atuar como apoio durante diferentes processos de tratamento. Foi passando por dificuldades que a fundadora do instituto, Clara Maria de Souza, descobriu o poder do amor canino. Em 2022, em meio a pandemia, ela foi diagnosticada com depressão e síndrome do pânico, e o maior suporte foi Logan, o cachorro de estimação.

Quando eu tinha crise, ele encostava em mim, ficava quietinho, e eu o acalmava. Ele me fez tão bem e eu queria compartilhar com outro o mesmo amor que eu senti, o mesmo cuidado, o mesmo suporte

Clara Maria

Antes mesmo de ser adestrado, a fundadora relatou que o animal já mostrava o dom em auxiliar as pessoas. Quando Logan estava no espaço para o adestramento, ele criou grande afinidade com a mãe da treinadora, que enfrentava um câncer. Por meio das brincadeiras, do olhar, do cuidado e da conexão sincera, o cachorro tornou os dias dessa senhora mais leves, acompanhando-a até o fim da vida.

Clara percebeu, então, que aquele vínculo não se limitava ao ambiente de casa e poderia também levar conforto a outras pessoas que enfrentaram momentos difíceis. Foi assim que a fundadora decidiu iniciar o projeto, transformando Logan em um cão-terapeuta. O projeto iniciou-se em 2022 no Hospital Santa Rita e desde então está presente em diferentes hospitais, chegando em 2025 na Unimed Vitória.

O que começou com só um cachorro, hoje chega a cerca de 12 animais voluntários, que são organizados em grupos a cada visita. Além de Logan, Clara Maria também leva aos atendimentos a Maria Flor, uma spitz alemã de 3 anos. Mais do que levar os animais aos atendimentos, o projeto ajuda a transformar momentos de cuidado em vínculos que fazem diferença na vida de quem precisa, mostrando que, muitas vezes, um gesto de carinho pode ser o começo de uma grande mudança.

Os efeitos nos pacientes são variados, mas os relatos da equipe apontam para mudanças significativas no estado emocional, que também podem contribuir para o processo de recuperação. A fundadora relatou casos em que o paciente levantou e andou pelos corredores do hospital, mesmo com diversas dificuldades de locomoção, só para abraçar um dos cães-terapeutas; crianças na ala pediátrica emocionadas ao dizer que a visita salvou o dia delas; senhores relatando que aquela foi a única visita que receberam no dia. 

A gente já teve uma paciente na própria Unimed que estava deitada, não estava conseguindo andar, estava prostrada. Quando a nossa cachorra chegou ao corredor, essa paciente simplesmente levantou, veio até o corredor e abraçou a nossa cachorra. Até a fisioterapeuta que estava lá ficou encantada e conversou com ela. Foi um momento muito bonito. 

Clara Maria

O olhar e o carinho trocados durante esses encontros mostram que, para além dos benefícios físicos, a presença dos animais também oferece algo que nem sempre se encontra dentro de um hospital: companhia, afeto e a sensação de que, por alguns instantes, ninguém está sozinho.

A cada visita há um processo de estruturação e planejamento entre a equipe de cada hospital e os voluntários do Doutores de Patas. Os animais passam por uma inspeção rigorosa para participarem das visitas: todos devem ser adestrados, ter passado por avaliação da saúde física, os banhos tem que estar sempre em dia e a cartela de vacinação precisa estar completa. Todo processo segue à risca o protocolo para garantir segurança aos pacientes e à equipe do hospital.

Apesar da complexidade do trabalho realizado, o Instituto Doutores de Patas não possui fins lucrativos e é formado exclusivamente por voluntários. Devido aos compromissos profissionais da equipe, as visitas são realizadas apenas aos sábados, com jornadas que podem chegar a oito horas por dia. Mesmo com o interesse dos hospitais em receber mais encontros, a disponibilidade dos voluntários durante os dias úteis torna inviável ampliar a frequência das visitas.

Para o Instituto, o principal desafio é financeiro. Sem receber recursos públicos, a organização precisa arcar com custos como as exigências legais para o funcionamento, tratamentos dos animais e deslocamentos até os hospitais.

A gente precisa muito de parceiros, de pessoas que estejam interessadas em contribuir com a gente. Não precisa ser só financeiramente. Se é um profissional de alguma área que pode doar o tempo dele, ele também pode ser nosso parceiro. 

Clara Maria

Para ajudar a manter as atividades, o site do Instituto conta com uma loja virtual de produtos personalizados, como camisas, almofadas, bonés, sacolas, bottons e um planner de 2026. O projeto também depende de doações e parcerias para continuar levando os cães aos pacientes.

Um olhar para quem existe além do paciente 

Por alguns minutos, a rotina do hospital dá espaço para algo diferente. Os aparelhos, os medicamentos e as preocupações continuam ali, mas a atenção se volta para um encontro simples: um paciente e um cachorro. É nesse momento que, segundo o psicólogo da Unimed Pedro Xavyer, a pessoa deixa de ser vista apenas como paciente e voltar a ser simplesmente ela mesma. 

Atualmente, a terapia com animais ajuda os pacientes das mais diversas alas hospitalares. O psicólogo da Unimed destacou que os animais têm um grande papel em construir um momento de descontração no hospital. É importante olhar para o paciente entendendo que há uma mistura de sentimentos, de preocupações e de emoções que se intensificam dentro do hospital. 

O paciente em si muitas vezes demonstra e relata durante essa visita que se sentiu menos ansioso, que a dor diminuiu, que está feliz. Então a própria fala deles muitas vezes nos mostra que aquilo está fazendo uma diferença para aquela pessoa

Pedro Lyra

Uma pesquisa realizada por Mariana Jabrazi e Nadia Shigaeff (Efeitos da terapia assistida por animais na cognição, ansiedade e depressão: uma revisão sistemática, 2021), mostrou que a Terapia Assistida por Animais (TAA) pode trazer benefícios diferentes dependendo do público e do ambiente. Entre os idosos institucionalizados, os resultados foram positivos principalmente na redução dos sintomas de depressão e também indicaram uma possível melhora nas funções cognitivas. Já nos ambientes hospitalares, a TAA apresentou resultados positivos principalmente na redução da ansiedade, inclusive entre pacientes de emergência, UTI e cuidados paliativos. Em pessoas com esquizofrenia, também foram observadas melhorias nos sintomas da doença.

Desde novembro de 2025, o Doutores de Patas faz parte da dinâmica do Hospital Unimed Vitória. Uma vez ao mês, eles atuam trazendo amor e carinho desde os funcionários até os pacientes. Mas se engana quem pensa que o processo é simples: além da inspeção rigorosa que realizam nos animais, os pacientes precisam ser avaliados igualmente.

De acordo com Pedro, a avaliação é conduzida em três etapas. A primeira consiste na avaliação clínica, em que o médico certifica se a visita pode gerar algum risco, como quando há um contexto infeccioso ou de imunidade baixa. Já a segunda é medida pela quantidade de tempo que o paciente se encontra no hospital, já que são eles que têm a tendência de estar carregando mais emoções geradas pela internação. Por fim, avaliam se os pacientes possuem o desejo de receber esses animais, visto que alguns podem ter algum tipo de medo ou fobia de cachorros.

Quando as portas são abertas a essas visitas, os relatos sempre indicam a mesma coisa: a melhora na condição dessas pessoas. Pacientes com dificuldade de locomoção indo ao encontro dos animais andando; crianças que rejeitavam o tratamento aceitando as medicações e se alimentando melhor. Para além do momento do encontro com o animal, os Doutores de Patas trazem melhoras significativas para o tratamento desses pacientes.

Nós podemos afirmar que as mudanças não são momentâneas, o momento da visita fomenta muitas emoções e reações que são muito importantes no protagonismo do paciente durante toda internação

Pedro Lyra

“Momento singular.” É assim que o psicólogo descreve esse projeto, tanto para quem o conhece quanto para quem não o conhece. A dinâmica no hospital não é fácil, sendo muitas vezes vista como acelerada e até angustiante, mas os animais conseguem transformar completamente isso. Mudam o dia, seja de quem está sendo cuidado ou de quem cuida.

Muito além do diagnóstico

O Espírito Santo é repleto de pessoas com as mais diversas histórias e trajetórias, mas, ao chegarem ao hospital, muitas vezes passam a ser vistas apenas como pacientes em tratamento, deixando as individualidades em segundo plano. É nesse cenário que os Doutores de Patas transformam a jornada dessas pessoas, relembrando que elas são muito mais do que a situação em que se encontram.

Marcella Guimarães tem apenas 28 anos, mas enfrenta um processo de idas e vindas ao hospital. O diagnóstico é de anemia falciforme, uma doença genética e hereditária que altera o formato dos glóbulos vermelhos do sangue. Na última ida, Marcella estava realizando tratamento para um episódio de dor intensa e aguda, chamada de crise álgica. Quando os animais entraram no quarto, o cenário mudou completamente. Mesmo passando por um tratamento tão complicado, ela encontrou ali uma forma de esquecer, por alguns instantes, a condição de paciente e se reencontrar com a Marcella Guimarães, uma amante de cachorros.

A presença dos cães traz muita alegria, a gente consegue desligar um pouquinho, esquece um pouquinho do que a gente está passando aqui, deixa toda a dor de lado e foca só no momento

Marcella Guimarães
Depoimento de Marcella Guimarães sobre o Projeto Doutores de Patas (Reprodução/Instagram: Doutoresdepatases)

Já Rosiane Varnier também passa por longas jornadas hospitalares, mas para acompanhar a mãe, Zilda, que enfrenta a leucemia, o câncer no sangue. No dia da visita, enquanto toda a família estava no casamento da própria sobrinha, a filha estava acompanhando a mãe. Para Rosiane, em meio à ansiedade e ao medo que a doença traz, os animais conseguem trazer calma e conforto, ajudando a cuidar de feridas internas que nem o tratamento mais caro consegue alcançar, mas que podem encontrar alívio no amor e na escuta.

“Eu estou aqui, ansiosa, e estou sentindo o coraçãozinho dela junto ao meu. Eu penso que é um tratamento de cura. Eles vieram aqui e trouxeram alegria e conforto ao coração da gente. Foi uma surpresa linda. Eu e minha mãe estamos muito gratas a vocês.”

Na ala pediátrica, não é diferente. Para as crianças, que muitas vezes passam dias ou até meses longe de casa, a presença de um animalzinho pode trazer de volta, ainda que por alguns minutos, uma sensação de “normalidade”. O ambiente cercado por medicamentos, exames e procedimentos abre espaço a brincadeiras, sorrisos e lembranças de uma rotina que existe fora dali.

Foi o que aconteceu com Bernardo, que estava pela terceira vez internado no Hospital Unimed Vitória. O pequeno, com apenas oito meses de vida, foi diagnosticado com um cálculo renal e precisou passar por procedimentos e cirurgias para retirar as pedras dos rins.

Para Dianne Camilo, mãe de Bernardo, a visita dos cães representou mais do que um momento de distração. Foi como trazer ao hospital um pouco da vida que ficou do lado de fora.

“É como se fosse um carinho além. Como se os instantes e os minutos que a gente tem lá fora, dentro da nossa casa ou na casa de parentes que têm cachorros, trouxessem para cá esse momento de alívio”, contou.

Assim que abriu a porta do quarto e encontrou os doutores de quatro patas, Dianne contou que o sentimento de gratidão tomou conta de seu coração.

Foi gratificante demais. Quando abrimos a porta e nos deparamos com aqueles cachorros, eu já nem chorava mais. A presença deles transformou o ambiente, ficou bem melhor, bem mais leve

Dianne Camilo

Para uma mãe, ver o filho internado é uma das experiências mais difíceis e desafiadoras que se pode vivenciar. Em meio a tanta angústia e preocupação, a família de Bernardo pôde, enfim, encontrar motivos para sorrir. Um estudo publicado pela revista Physis: Revista de Saúde Coletiva, em 2026, acompanhou 22 pacientes internados em uma unidade de saúde mental de um hospital no Rio Grande do Sul. A pesquisa mostrou que a presença dos cães ajudou a deixar o ambiente hospitalar mais leve e acolhedor, além de contribuir para o bem-estar dos pacientes e para a participação deles no próprio tratamento. 

Um encontro que transforma 

É nesse espaço entre o cuidado médico e o cuidado com as emoções que a presença dos animais encontra seu lugar. Para quem acompanha diariamente crianças em tratamento, essas mudanças também são perceptíveis. A enfermeira Amanda Tiroli, de 25 anos, trabalha na pediatria do hospital e conta que já conseguiu observar de perto como a presença dos cães interfere no comportamento dos pequenos.

Eu acredito que os cachorros trazem muita alegria, seja para adultos ou crianças. Não tem quem não se alegre ou não consiga sorrir quando vê esses animais.

Amanda Tiroli

Em uma das situações que presenciou, a mudança aconteceu justamente naqueles momentos que costumam ser mais difíceis para uma criança. A paciente, que havia chorado bastante e estava com dificuldade para lidar com a internação e os procedimentos, ficou mais tranquila depois da visita.

Ela ficou toda feliz. Aceitou muito melhor o tratamento e até tomou o remédio por via oral sozinha.  Também fez os procedimentos com mais tranquilidade, porque queria ver o cachorro. Então, acabou aceitando muito melhor os cuidados. Fez muita diferença

Amanda Tiroli

A mudança não fica só com quem está internado. Ela também chega aos pais e familiares, que, por alguns instantes, conseguem esquecer um pouco o medo e ver a criança simplesmente sendo criança. Para Amanda, esse cuidado também é parte do tratamento: oferecer carinho, atenção e fazer com que cada pequeno paciente se sinta em casa.

Antes de cada visita, existe justamente esse cuidado. A equipe avalia quais pacientes podem receber os animais e comunica aos familiares. Nos casos em que a criança não pode sair do quarto, os cães vão até ela, respeitando as condições clínicas e as regras de segurança do hospital. Nos pacientes oncológicos, esse cuidado é ainda mais importante, já que nem todos podem circular pelos corredores.

A visita não acontece por acaso. Existe toda uma preparação para que aquele encontro seja seguro e, principalmente, desejado por quem irá recebê-lo. Quando as portas se abrem, todo o protocolo dá espaço para um momento que não parece fazer parte do ambiente hospitalar.

Uma rotina, novos olhares 

Para as médicas intensivistas Paloma Coser e Fabiana Bernardo, que acompanham a rotina do hospital, essa ação não impacta somente na vida dos pacientes, mas também no dia a dia de quem trabalha para ajudar quem precisa. Paloma explica que a presença de um cachorro quebra a tensão de um lugar marcado pela preocupação.

A gente gosta muito de cachorro, e trazer um animalzinho para dentro do hospital traz uma alegria, uma energia diferente para o espaço. Primeiro porque foge do óbvio. Quando você está no hospital, o clima é mais pesado, tanto para quem trabalha quanto para os pacientes que estão internados

Paloma Coser

Já a Dra. Fabiana Bernardo reforça que, para as crianças, essa mudança pode representar uma oportunidade de enxergar a internação por outra perspectiva. Em meio a tantos exames e procedimentos que nem sempre fazem sentido para os pequenos, a presença desses animais traz, mesmo que por alguns minutos, um pouco da infância de volta.

É uma mudança pequena na rotina, mas que pode ganhar um significado enorme para quem passa dias entre quatro paredes. O cachorro não substitui o tratamento, os medicamentos ou os cuidados da equipe médica. Ele ocupa outro espaço: o de lembrar ao paciente que, antes de ser um diagnóstico, existe ali uma pessoa com gostos, sentimentos, medos e histórias.

As médicas Fabiana Bernardo e Paloma Coser dando um relato da visita do Projeto (Reprodução/Instagram: Doutoresdepatases)

No caso das crianças, esse olhar pode ser ainda mais significativo. O hospital passa a ser também o lugar onde elas encontraram um amigo de quatro patas para brincar, fazer carinho ou simplesmente observar. Para os pais, é a oportunidade de ver o filho feliz em um momento em que muitas vezes o sorriso parece ter desaparecido.

Para Dianne, mãe de Bernardo, o encontro representou exatamente isso: levar para dentro daquele quarto um pouco da leveza que a família procura durante o tratamento.

A Terapia Assistida por Animais não transforma apenas quem recebe a visita, mas também renova o ambiente ao redor. O sorriso de uma criança alcança os pais, o alívio dos familiares chega à equipe e, aos poucos, o paciente passa a ser enxergado para além do leito e dos procedimentos.

No fim, os doutores de quatro patas entram no hospital por algumas horas, mas deixam algo que permanece depois que vão embora: uma lembrança, uma conversa, um sorriso e, para algumas famílias, a sensação de que, mesmo em meio a uma internação difícil, ainda existem momentos capazes de trazer um pouco de casa para dentro do hospital.


Diagramação: Redação Lacos

Edição Final: Camila Buzzette

Imagem do Destaque: Imagem gerada por Inteligência Artificial

Data da postagem/veiculação: 06/10/2026