Elas fazem a diferença: mulheres ampliam participação e protagonismo na Nater Coop

A maior cooperativa agropecuária do Espírito Santo é referência em iniciativas de incentivo à participação feminina no agronegócio

(Fotomontagem: Mariana Bernardino/Arquivo Pessoal)

Mariana Bernardino

A participação feminina entre os associados no cooperativismo do agronegócio capixaba passou de 12,8%, em 2022, para 13,7%, em 2024. Entre os cargos de direção e gerência, o percentual passou de 20,5% para 22,2% no mesmo período, de acordo com o Anuário do Cooperativismo Capixaba 2025. Entre eles, a Nater Coop se destaca por atuar em várias etapas do agronegócio em todo o Espírito Santo. Por trás desse crescimento estão histórias de mulheres que encontraram no cooperativismo uma forma de ampliar conhecimentos, desenvolver a produção e conquistar espaço em um setor historicamente associado aos homens.

Na Nater Coop, esse avanço também se reflete na trajetória de mulheres que atuam em diferentes áreas, desde a produção rural até a gestão e a assistência técnica. Além de contribuir para o desenvolvimento das propriedades e para a qualidade da produção, elas participam de iniciativas de capacitação, compartilham experiências e incentivam outras mulheres a ocupar novos espaços. Essas vivências mostram como o cooperativismo pode abrir caminhos para o fortalecimento da autonomia feminina e para uma atuação cada vez mais ampla no agronegócio.

O protagonismo no campo

Jarlete da Penha Sotelle faz parte desse número. Ela é a única mulher que atua na produção de café de Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo. Moradora da Terra dos Colibris, está na quarta geração que cultiva os cafés da região e é cooperada da Nater Coop. Seu trabalho sempre foi cultivar Arábica, mas decidiu apostar no cultivo do Conilon.

Para cultivar o café conilon, você precisa de clima quente e úmido, entre 23°C e 26°C, altitudes baixas, geralmente abaixo de 500 metros, e sistema de irrigação, pois a planta consome bastante água. Porém, a região de Jarlete possui mais de 800 metros de altitude e desafia a ideia de que a variedade estaria restrita às regiões mais quentes. Essas condições não favoráveis, levou pessoas próximas a ela a duvidar e dizer para desistir do plantio. “Graças a Deus, deu muito certo”, conta a cafeicultora.

Jarlete tornou-se referência na produção de conilon especial no Espírito Santo e conquistou reconhecimento em competições nacionais e estaduais. Entre os principais resultados está o título de campeã na categoria Canéfora do concurso nacional da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), na safra de 2022. Ela também foi finalista do Coffee of the Year, concurso voltado à valorização dos cafés especiais.

A trajetória da cafeicultora mostra uma das fases do crescimento da participação feminina na Nater Coop: a mulher que está diretamente ligada à produção e também às decisões que definem os rumos da propriedade. Para ela, a Nater Coop “é uma grande parceira do produtor rural. Foi através desse incentivo que surgiu esse sonho do Café Conilon”, conta.

A vida da mulher no campo vai além da coragem, da força, da resiliência, é o amor de saber fazer com carinho e ter o toque feminino para os pequenos detalhes

Da produção à inovação

Em Castelo, no Sul do Espírito Santo, a produtora rural e cafeicultora Edineia Pires Sartori também construiu sua trajetória dentro da cafeicultura. Uma trajetória que une tradição familiar e inovação. À frente do Recanto Feliz, propriedade de 12 hectares administrada em conjunto com o marido Valentim Fioresi, ela dedica parte da área ao cultivo do café. Edineia também participa da gestão do Sítio Sertãozinho, em parceria com o irmão.

Sua relação com o café começou na infância, quando acompanhava o pai na produção de café, mas só começou a trabalhar com cafés especiais em 2009.  “Gosto de lidar com café, gosto de estar no meio da lavoura, gosto de estar cuidando, fazendo pós-colheita”, conta Edineia Pires Sartori, produtora rural de Castelo.

Em 2020, a família adquiriu um despolpador e passou a aprimorar o processo de pós-colheita dos grãos. A decisão trouxe resultados para a qualidade do café produzido e levou Edineia e o irmão ao segundo lugar na categoria Arábica Lavado do Prêmio Pio Corteletti 2023, promovido pela Nater Coop que busca valorizar a produção de cafés especiais no Espírito Santo e em Minas Gerais.

Edineia com o marido, Valentim Fioresi, e os filhos, Natana Sartori Fioresi e Vinicius Sartori Fioresi, durante a entrega do Prêmio Pio Corteletti 2023

Para ela e sua família, ter recebido esse prêmio foi emocionante, cheio de significado e entende que pode servir como incentivo para outras cafeiculturas familiares e, principalmente, para as demais mulheres que desejam crescer cada vez mais nesse ramo. “É uma coisa gostosa, você ouvir o seu nome sendo chamado, falando que o seu café alcançou tal nota em um concurso que tem uma participação muito grande”.

Liderança feminina

A experiência de Jarlete e Edineia mostra que a presença feminina entre os cooperados da Nater Coop acontece em diferentes etapas da cadeia produtiva. São mulheres que produzem, administram, investem em tecnologia e buscam novas formas de agregar valor ao que sai das propriedades rurais.

As diferentes trajetórias também aparecem dentro da própria estrutura profissional da Nater Coop. Se Jarlete e Edineia representam mulheres que atuam diretamente na produção rural, a médica veterinária Juliana Maria Piassi ocupa uma posição estratégica dentro da cooperativa.

Aos 36 anos, Juliana Maria Piassi é gerente de Assistência Técnica da Nater Coop e está há dois anos no cargo. À frente da área, lidera uma equipe ligada à pecuária leiteira e acompanha diretamente propriedades de cooperados. Entre suas atribuições estão a condução do Programa de Assistência Técnica Leite Certo, o acompanhamento da qualidade do leite recebido pela indústria de lácteos da cooperativa, a Farmácia Veterinária e iniciativas como o Clube da Bezerra e o Torneio de Silagem.

Ela começou a atuar diretamente na assistência técnica e gerencial das propriedades leiteiras, depois assumiu a qualidade do leite e, atualmente, é gerente de assistência técnica. Ao longo do caminho, teve a oportunidade de assumir novas responsabilidades e participar de projetos dentro da cooperativa.

Juliana Maria Piassi, Gerente de Assistência Técnica da Nater Coop (Foto: Divulgação/ Nater Coop)

A posição ocupada por Juliana mostra que a presença feminina na cooperativa vai além de participar da cadeia produtiva. Para ela, a presença feminina pode contribuir para diferentes áreas do agronegócio, desde o relacionamento com os produtores até a gestão de equipes e propriedades. “Hoje, como gerente de Assistência Técnica da Nater Coop, carrego comigo não apenas a responsabilidade de gerir uma equipe e projetos, mas também a oportunidade de transformar conhecimento em resultados e contribuir para o desenvolvimento dos nossos cooperados!”, conclui.

Como tudo começou

Fundada em 1964, em Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo, a cooperativa surgiu a partir da união de 20 produtores de ovos que buscavam fortalecer a atividade avícola e ampliar as oportunidades de comercialização. Inicialmente chamada Coopeavi, a instituição cresceu ao longo das décadas e expandiu sua atuação para diferentes segmentos do agronegócio, estabelecendo vínculos com produtores rurais de diversas regiões do Estado.

Em 2022, a cooperativa passou por uma mudança de marca e adotou o nome Nater Coop, com o objetivo de ampliar sua atuação e atrair produtores de outras culturas, como café e pecuária leiteira. Até então, a denominação Coopeavi estava fortemente associada à produção de ovos, o que não representava mais a diversidade de atividades desenvolvidas pela instituição. A nova identidade simboliza a conexão construída com as famílias produtoras e a relação com a natureza e a terra, elementos que fazem parte da trajetória e dos valores da cooperativa.

Mais do que uma mudança de nome, essa trajetória representa a evolução de uma iniciativa criada por um grupo de agricultores para uma organização que reúne produtores de diferentes áreas do agronegócio capixaba. Essa mudança também possibilitou a ativa presença das mulheres no campo.

“Numa área ainda majoritariamente masculina como a pecuária, essas mulheres conquistaram esse espaço, atuando nessas diversas frentes com muita competência e segurança. Firme em seus posicionamentos e na condução das equipes, dos cooperados e na tomada de decisões, elas, são hoje, uma referência no setor”, relata Wayne Gardner, gerente de Pessoas e Comunicação da Nater Coop.

Crescimento que vai além dos números

O número de mulheres no quadro de cooperados da Nater Coop saltou de menos de 950 em 2015 para mais de 3.400 atualmente, uma evolução de 260%, segundo informações da própria cooperativa. São mulheres com diferentes histórias, sonhos e experiências de vida que, como cooperadas ou líderes, participam ativamente das atividades da cooperativa e vêm transformando os rumos da instituição e do agronegócio capixaba.

Entre os principais fatores está o investimento do Sistema OCB/ES em ações voltadas à formação e ao fortalecimento da liderança feminina. Segundo a Analista de Desenvolvimento Cooperativista do Sistema OCB/ES Bianca Otoni, o Programa de Formação de Lideranças Femininas, capacitou 102 mulheres, entre 2024 e 2026, de diversas cooperativas para desenvolver competências de liderança e influência, preparando-as para assumir cargos de gestão e representação.

Para entender esse crescimento, é necessário observar também o papel do cooperativismo na formação e no desenvolvimento dessas profissionais e produtoras. Para Bianca, “ao promover a inclusão das mulheres no quadro social, as cooperativas garantem acesso a mercados, assistência técnica, capacitação e oportunidades de geração de renda. Isso contribui para a autonomia financeira e a participação das mulheres nas decisões relacionadas aos seus negócios e propriedades”, pontua.

Mais mulheres, novos espaços

O crescimento do número de cooperadas não significa, necessariamente, que a participação esteja distribuída de maneira igual entre todas as funções e níveis de decisão. Questões relacionadas ao reconhecimento profissional, à participação nas decisões, ao acesso à capacitação e à ocupação de cargos de liderança continuam fazendo parte da realidade de muitas mulheres que trabalham no setor.

“Assim, o principal desafio atual não é apenas aumentar a participação das mulheres como

cooperadas, mas também continuar criando condições para que elas tenham acesso, qualificação e oportunidades para ocupar posições estratégicas dentro das cooperativas”, relata Bianca Otoni, Analista de Desenvolvimento Cooperativista do Sistema OCB/ES

No caso da Nater Coop, o aumento do número de mulheres cooperadas é acompanhado por histórias de diferentes perfis: produtoras rurais, profissionais da área técnica e mulheres que participam da administração e das decisões relacionadas à produção.

Para Juliana, atuar como gerente de Assistência Técnica da Nater Coop é desafiador, mas também muito gratificante. Ela afirma que o agronegócio tem uma história muito ligada à figura masculina, especialmente nas atividades de campo, mas que essa realidade está mudando, e as mulheres têm demonstrado, diariamente, sua capacidade de contribuir tecnicamente, gerir equipes, tomar decisões e liderar processos.

Mas não acredito que precisamos ocupar esses espaços por sermos mulheres ou por termos características específicas. Precisamos ocupá-los porque temos competência, conhecimento e capacidade de contribuir

Nas propriedades rurais, essas mudanças também acontecem de forma gradual. Para mulheres como Jarlete e Edineia, ocupar espaços de decisão significa assumir responsabilidades que vão desde o planejamento da produção até investimentos em tecnologia e qualidade.

Dentro da Nater Coop, a transformação também passa pela presença de mulheres em funções técnicas e de gestão.

De uma produtora que apostou no Conilon em uma região de altitude a uma cafeicultora que investiu em processos de pós-colheita, passando por uma médica veterinária que chegou à gerência de Assistência Técnica, as histórias revelam diferentes formas de participação feminina na Nater Coop.

A Nater Coop proporcionou a elas um sentimento de representatividade e pertencimento. “Além deles provarem os nossos cafés, eles também abrem caminhos para o comércio e oportunidade de ter o seu trabalho reconhecido”, afirma Edineia.

Hoje, essas mulheres carregam não apenas a responsabilidade de gerir. Para Juliana, é uma oportunidade de transformar conhecimento em resultados e contribuir para o desenvolvimento dos nossos cooperados. “Quero que outras mulheres enxerguem que podem ocupar espaços de liderança no agronegócio sem precisar deixar de ser quem são”, conclui.

A presença feminina que cresce nas propriedades, nas equipes técnicas e nos espaços de liderança aponta para um cooperativismo em transformação. Na Nater Coop, mulheres que antes ocupavam espaços menos visíveis passam a participar cada vez mais das decisões, dos resultados e da construção do futuro da atividade rural no Espírito Santo.