Cooperativa capixaba leva atividades manuais para empresas e propõe uma nova forma de olhar para a saúde mental no ambiente de trabalho
Manualidadeterapia aposta no cooperativismo e em atividades como pintura, crochê e cerâmica para promover bem-estar e prevenção no ambiente de trabalho

Lara Trindade
A rotina de trabalho costuma ser marcada por prazos, cobranças, metas e responsabilidades. Em meio a esse cenário, falar sobre saúde mental deixou de ser apenas uma preocupação individual e passou a ocupar também o centro das discussões dentro das empresas. No Espírito Santo, uma cooperativa ainda jovem encontrou no fazer com as mãos uma maneira de participar dessa mudança. E, entre uma conversa e outra, mostra que uma pausa no expediente pode ser também um convite para olhar para quem existe por trás de cada função, prazo e meta.
Por meio da Manualidadeterapia, atividades como pintura, crochê e cerâmica são combinadas com momentos de conversa e acolhimento, em uma proposta que busca transformar o fazer com as mãos em uma ferramenta de bem-estar emocional. A proposta é transformar o fazer com as mãos em uma ferramenta de bem-estar emocional e levar essa experiência também para dentro das empresas. Pincéis, linhas, tesouras e pequenos objetos são as ferramentas visíveis desse trabalho. Por trás deles, porém, está uma discussão maior: em uma rotina marcada pela cobrança por resultados, cuidar da saúde mental também passa por repensar a forma como as pessoas vivem o próprio trabalho.
A cooperativa oferece um programa personalizado para empresas, criando, durante o expediente, uma pausa dedicada ao autocuidado e ao autoconhecimento. Mas, para que a ideia saísse do papel e se transformasse também em uma atividade profissional, foi preciso encontrar uma forma de reunir diferentes conhecimentos em torno de um mesmo propósito.
Foi no cooperativismo que essa proposta encontrou espaço para se estruturar. Criada em 2025, a Manualidadeterapia contou com o apoio do Sistema OCB/ES durante o processo de constituição. O modelo permitiu que as profissionais passassem a compartilhar não apenas o desenvolvimento das atividades, mas também as responsabilidades e os resultados de um trabalho construído em conjunto.

E foi dentro de uma empresa de contabilidade capixaba que essa proposta encontrou espaço para fazer parte da rotina dos trabalhadores. A VixCont, que já mantinha uma relação profissional com a cooperativa, decidiu ampliar a parceria e levar a Manualidadeterapia para dentro do ambiente de trabalho.
Para o proprietário da empresa, Edmar Bromochenkel, investir na saúde mental dos funcionários também significa olhar para as pessoas que existem por trás dos resultados entregues diariamente.
A partir da parceria, a empresa estabeleceu um programa de saúde mental com duração de sete semanas. Durante esse período, os trabalhadores participam de encontros com diferentes propostas, sempre utilizando as atividades manuais como ponto de partida para momentos de interação, reflexão e cuidado.
É nesse momento de pausa que funcionários da VixCont, como Camila e Lorena deixam de lado, por alguns instantes, as tarefas que fazem parte da rotina profissional. Durante a atividade acompanhada pela reportagem, o desafio foi produzir um chaveiro artesanal. Entre a escolha dos materiais, a montagem das peças e as conversas ao redor da mesa, elas contam como é participar de uma experiência tão diferente daquela que normalmente marca o expediente.
Para Lorena, esses encontros também representam uma oportunidade de desacelerar e vivenciar outro tipo de interação com os colegas de trabalho.
Para a psicanalista e fundadora da cooperativa, Henriqueta Hosken, momentos como esse também podem favorecer o entrosamento entre os trabalhadores e estimular habilidades como empatia, cooperação e paciência.
Mas o que acontece quando uma atividade como essa sai do campo da experiência individual e passa a fazer parte da rotina de uma equipe?
Para o psicólogo Alexandre Brito, atividades manuais podem contribuir para o bem-estar dos trabalhadores e produzir reflexos que ultrapassam o momento da oficina.
Mas os benefícios não ficam restritos ao momento da atividade. Para quem passa boa parte do dia lidando com números, prazos e responsabilidades, encontrar um espaço para desacelerar também pode mudar a forma de encarar a própria rotina.
É o que percebe Daniel Alves, que há quatro meses faz parte da equipe da VixCont. Na rotina de trabalho, entre números, prazos e responsabilidades, ele também passou a experimentar momentos que fogem da dinâmica habitual do escritório.
A experiência individual se repete de formas diferentes entre os colegas. Para alguns, é uma oportunidade de relaxar, conversar com pessoas com quem, mesmo dividindo o mesmo ambiente diariamente, nem sempre existe tempo para trocar experiências que vão além das demandas profissionais.
Um problema que vai além das paredes da empresa
A preocupação com o bem-estar emocional dos trabalhadores acompanha um cenário mais amplo, a experiência vivida pelos trabalhadores da VixCont faz parte de uma discussão que vai além daquela sala. No Espírito Santo, dados da Secretaria de Estado da Saúde mostram um crescimento nas notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho. Em 2024, foram registrados 129 casos. Em 2025, o número chegou a 170, um aumento de 31,8%.

Entre os agravos mais registrados pela Secretaria de Saúde do Espírito Santo em 2025, estão os transtornos de ansiedade generalizada, com 59 notificações, e a Síndrome de Burnout, com 41. Os números ajudam a dimensionar um problema que nem sempre é visível dentro das empresas, mas que pode se manifestar na relação do trabalhador com a própria atividade profissional.
A responsabilidade pelo cuidado não pode ser colocada apenas sobre o trabalhador. Questões como sobrecarga, pressão excessiva, conflitos e a própria organização do trabalho também fazem parte da discussão sobre saúde mental.
É justamente nesse ponto que o assunto passou a ganhar ainda mais atenção das empresas brasileiras. As mudanças na Norma Regulamentadora nº 1, conhecida como NR-1, reforçaram a necessidade de considerar os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais das empresas.
A nova regra, que entrou em vigor em 26 de maio de 2026, determina que as empresas identifiquem, avaliem e adotem medidas de prevenção para fatores que podem afetar a saúde mental dos trabalhadores, como sobrecarga de trabalho, assédio, pressão excessiva, conflitos e problemas na organização do trabalho. Os Riscos Psicossociais são fatores ligados ao contexto do trabalho com potencial para causar prejuízo à saúde mental, como por exemplo, assédio moral, burnout, ausência de pausas, entre outros. As empresas deverão incorporar os Riscos Psicossociais ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Mas oferecer uma atividade de bem-estar, por si só, não resolve os problemas relacionados à saúde mental no trabalho. Para o psicólogo Alexandre Brito, o cuidado precisa fazer parte da própria forma como a empresa organiza sua rotina, conduz a gestão e estabelece relações e constrói sua cultura. É um processo contínuo, que deve buscar prevenir conflitos e identificar práticas que podem contribuir para o adoecimento dos trabalhadores.
Para quem conduz os encontros, cada atividade precisa ser pensada de acordo com o grupo que vai participar. A proposta da Manualidadeterapia é adaptar as oficinas à realidade de cada empresa, utilizando diferentes trabalhos manuais para estimular habilidades e criar momentos de troca.
O que fica depois da oficina
Quando as atividades terminam, cada funcionário leva consigo aquilo que produziu durante as sete semanas de trabalho.
Para Camila e Fabiano, o que ficou desses momentos vai muito além dos objetos produzidos.
Do outro lado, para quem abriu as portas da empresa, a experiência dos seis meses deixa uma reflexão sobre qual espaço o cuidado com as pessoas deve ocupar dentro da gestão. Edmar deixa um recado para todos os empresários, os incentivando a cuidar não só da saúde, mas também dos sonhos de seus funcionários.
No fim, o que permanece não é apenas o chaveiro, o desenho ou a peça produzida durante a oficina. Permanecem também as conversas, os vínculos e a possibilidade de, por algumas horas, desacelerar em meio à pressa do trabalho. Entre linhas, tintas e pequenos gestos, a Manualidadeterapia transforma o fazer com as mãos em uma oportunidade de olhar para aquilo que muitas vezes não se vê: a saúde, os sonhos e as pessoas que existem por trás de cada função. Porque, antes de qualquer resultado, existe alguém que precisa estar bem para realizá-lo.