“Tio Sam”: Quem é essa figura citada em várias músicas brasileiras?

A história por trás da identidade do personagem presente em melodias brasileiras

(Foto: Divulgação/Novos Baianos)

Tamires Pereira Barbosa

Você, em algum momento da vida, já deve ter ouvido falar em canções brasileiras sobre o “Tio Sam”, mas quem, de fato, seria esse personagem tão presente, principalmente, nas MPBs antigas?

Músicas, como “Brasil Pandeiro”, de Novos Baianos e “ Chiclete com Banana”, de Jackson do Pandeiro, são as figuras centrais do cenário musical marcado por esse enigmático personagem.

Mas a verdade é que o “Tio Sam” citado nas melodias brasileiras não é uma pessoa real, mas um símbolo oficial dos Estados Unidos. A imagem representa o governo e a cultura norte-americana, sendo usada em sátiras políticas e oficiais.

Para entender um pouco mais disso, é necessário viajar mais para o norte do continente americano e voltar um pouco no tempo, até o contexto da Guerra de 1812.

Quem é Tio Sam?

A cara modelo dos U.S (Foto: Ilustração de James Flagg)

A origem da figura veio de Samuel Wilson, que foi um fornecedor de carnes do exército dos Estados Unidos na Guerra Anglo-americana, em 1812.

Os barris de carne tinham gravada a sigla U.S. (United Stated), que os soldados, de forma irônica, apelidaram de “Uncle Sam” (Tio Sam). O apelido se espalhou e tornou-se famoso.

Em 1870, o cartunista Thomas Nast aproveitou a ideia e desenhou o Tio Sam com traços semelhantes aos de Abraham Lincoln, ex-presidente considerado um grande herói nacional nos Estados Unidos.

Porém, só em 1961 o Congresso Nacional reconheceu Samuel como a principal inspiração do então símbolo nacional, declarando o dia 13 de setembro como o Dia do “Uncle Sam”.

A ilustração mais conhecida foi uma propaganda utilizada para levar os homens à guerra para lutar por sua nação, desenhada em 1917 pelo artista James Flagg.

O famoso panfleto, com a frase “I want you for U.S. Army. Nearest recruiting station” (“Quero você para o Exército dos EUA. Posto de recrutamento mais próximo”), mostra um homem sexagenário vestido com roupas que remetem à bandeira norte-americana. O cartaz foi inspirado em uma propaganda britânica que possuía o mesmo intuito de incentivo e convocação aos jovens para servirem ao país.

Por que ele é citado em músicas brasileiras?

Mais do que uma representação do patriotismo estadunidense, “Uncle Sam” tornou-se um figurante de destaque na economia, na política e na cultura de diversos países, inclusive o Brasil, principalmente em suas músicas.

Por conta disso, diversos artistas brasileiros inseriram esse personagem em obras musicais, fazendo críticas sociais e políticas.

Na canção ‘Brasil Pandeiro’, a figura aparece para ironizar os interesses dos Estados Unidos na cultura brasileira subvertendo a estrutura logística de interesses e influência sociocultural. A letra sugere que outros países e, principalmente, os Estados Unidos, renderam-se ao samba, à batucada e à culinária baiana. Isso fica evidente nos trechos:

“O Tio Sam está querendo conhecer
A nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana
Melhorou seu prato”

Nacionalismo e amor a arte brasileira (Foto: Discobertas/Divulgação/Jackson do Pandeiro)

Já na música “Chiclete com Banana”, de Jackson do Pandeiro, a crítica direcionada à personalidade dos Estados Unidos é sobre a influência da cultura norte-americana na cultura brasileira, ironizando a ideia de inserir ritmos de fora ao estipular condições para essa mistura.

Isso acontece quando o autor canta: “Eu só boto bebop no meu samba quando o Tio Sam tocar um tamborim”

Nesse contexto, o ‘bebop’ caracteriza-secomo um estilo do jazz, gênero musical estadunidense.

A letra deixa em evidência que não é suficiente adotar elementos americanos sem que tenha o respeito e interesse pela cultura brasileira, além de afirmar e exigir que os Estados Unidos da América deixem de achar que tudo é a mesma coisa.

No fim, essas canções mostram para o povo brasileiro que o ‘Tio Sam’ vai muito além de um personagem: ele tornou-se um símbolo de crítica ao imperialismo e à influência norte-americana. Elas também ensinam que é preciso valorizar a “brasilidade”. Em um país cheio de cores e ritmos, preservar a própria cultura e identidade é, sem dúvida, uma forma de resistência.