O direito de existir, se expressar e amar
Parada LGBTQIAPN+ acontece na Serra e atrai milhares de pessoas.

Geovana Freitas
O evento
A 16ª edição da Parada LGBTQIAPN+ da Serra aconteceu no último domingo de junho (21), reunindo mais de cinco mil pessoas em Jacaraípe. Realizado durante o Mês do Orgulho, o evento teve como tema “Diversidade é Democracia: corpos, territórios e direitos em resistência à LGBTfobia”, reforçando a luta contra o preconceito e a defesa dos direitos da população LGBTQIAPN+.
Organizada pelo Fórum LGBT da Serra, a manifestação tem como objetivo celebrar a vida, promover a visibilidade da comunidade e construir, por meio da mobilização social, uma cidade que reflita a diversidade e a pluralidade de seus cidadãos.
A programação teve início com a saída do trio elétrico pela orla de Jacaraípe, acompanhado por bandeiras, música e um grande público. Durante o percurso, foram realizadas paradas em pontos de apoiadores do evento, como bares, estúdios de tatuagem e restaurantes, até a chegada à Praça Encontro das Águas, principal ponto de concentração da manifestação.
O evento contou com uma programação artística formada principalmente por atrações capixabas. Rap, funk, performances, apresentações de drag queens, slam, poesia, música e dança fizeram parte da celebração.
Segundo a organização, em todas as suas edições o evento transcorreu de forma pacífica, sem registros de brigas. A segurança contou com o apoio da Polícia Militar, agentes de trânsito e equipes de organização. Ao final da programação, também foi realizada a limpeza da praça pelos próprios integrantes do Fórum LGBT da Serra.
Neste ano, a cantora e MC Pocah era uma das atrações nacionais confirmadas. No entanto, devido a uma internação, a artista não pôde comparecer ao evento. Em vídeo divulgado nas redes sociais, ela agradeceu as mensagens de apoio recebidas e afirmou que espera visitar o Espírito Santo em uma próxima oportunidade.
As discussões também abordaram temas políticos e sociais, destacando que a luta por direitos não acontece apenas nos grandes centros urbanos, mas também nos bairros e comunidades, onde milhares de pessoas enfrentam diariamente desafios para afirmar sua identidade e garantir respeito. Entre as pautas defendidas estavam o combate à desigualdade social, o fim da escala de trabalho 6×1 e a defesa dos direitos humanos e da cidadania.
EQUIPE E ARTISTAS

A história do Manifesto LGBTI+ da Serra começou em 2008, quando a ativista Layza Lima, ao lado de Hellen Brizzart, idealizou um espaço que unisse celebração, visibilidade e reivindicação de direitos para a população LGBTI+ do município. O que nasceu como um projeto coletivo na Orla de Jacaraípe transformou-se em uma das principais manifestações do Espírito Santo e, hoje, integra o calendário oficial de eventos da Serra.
“O Fórum LGBTI+ de Serra não é mais o único Fórum do Estado, mas é o mais antigo, perene e com maior incidência nas políticas públicas.”

Fundadora do Manifesto e vice-presidente do Fórum Municipal LGBTI da Serra, Layza, 37, mulher trans, destaca que a caminhada vai muito além do evento realizado anualmente. Segundo ela, a mobilização da sociedade civil permitiu a construção de políticas públicas concretas ao longo dos últimos 17 anos. Entre os avanços conquistados estão a criação do Ambulatório Municipal para Pessoas Trans, o fortalecimento de ações em parceria com o poder público e a consolidação de grupos de trabalho voltados à promoção dos direitos da população LGBTI+.
“O que começou como o sonho de um grupo de ativistas tornou-se um importante instrumento de mobilização social”, afirma.
Para Layza, cada conquista carrega também a memória de quem abriu caminho para o movimento. Ela relembra que muitas pessoas que participaram da construção do Manifesto não tiveram a oportunidade de viver plenamente os direitos pelos quais lutaram. Ao mesmo tempo, destaca que enfrentar o preconceito sempre fez parte da trajetória.
Para ela, o maior desafio continua sendo combater a desigualdade, a violência e a exclusão que ainda atingem a população LGBTI+. Seu desejo é que as futuras gerações possam viver com liberdade, dignidade e respeito, sem precisar reivindicar direitos básicos. “Espero que um dia, no nascer de outrora, no porvir da humanidade, tenhamos, de fato, liberdade.”

Kael, 26, é estudante e atua como 1ª secretária do Fórum Municipal LGBTQIAPN+ da Serra, está há dez anos no movimento em defesa dos direitos da população LGBTQIAPN+. Pessoa não binária e bissexual, Kael utiliza os pronomes ela/dela e acredita que a participação da comunidade nos espaços institucionais é fundamental para garantir avanços nas políticas públicas.
Entre os momentos mais marcantes de sua trajetória estão a participação na construção de políticas nacionais voltadas à Educação, aos Direitos Humanos e aos direitos da população LGBTQIAPN+, além da contribuição para a elaboração do novo Plano Estadual LGBTI+. Nesse processo, Kael levou propostas que dão visibilidade às demandas de pessoas não binárias, neurodivergentes e pessoas com deficiência, reforçando a importância de políticas públicas construídas de forma interseccional.
Ela também destaca conquistas importantes do Fórum, como a implementação do Ambulatório Trans da Serra, a realização de ações de conscientização com profissionais da saúde e da educação e a criação do Festival Conexões de Rua, iniciativa que aproxima diferentes manifestações culturais, como o ballroom e o slam.
Para Kael, a comunidade ainda enfrenta desafios relacionados ao acesso à saúde, educação, trabalho, moradia, assistência social e ao reconhecimento da identidade de pessoas trans, travestis e não binárias. Entre as propostas defendidas pelo Fórum está a criação de um Observatório LGBTQIAPN+, responsável por produzir dados que orientem a elaboração de políticas públicas.
Ao falar sobre o futuro, Kael deixa um recado às próximas gerações:
Participar das redes sociais é importante, mas ocupar os espaços de decisão é essencial para garantir que os direitos conquistados sejam preservados e ampliados para toda a comunidade. Se não participarmos dos processos de decisão, tem quem decida por nós.
Cidade e Visibilidade

Nascido em São Paulo e com mais de 60 anos, Valter participa do Manifesto há três anos e destaca a importância do evento em sua vida. Para ele, o movimento representa muito mais do que uma celebração: é um espaço de acolhimento, cultura e família. Segundo Valter, o evento reúne pessoas de diferentes histórias e realidades em um ambiente de respeito à diversidade. Ele também elogiou a cidade que recebe o Manifesto, ressaltando sua beleza e a receptividade do público.
Além do significado social e afetivo, Valter afirmou que participar do evento também complementa sua renda. “Sou muito grato ao Manifesto. Além de me proporcionar uma renda extra, ele me permite estar entre pessoas, viver essa experiência e me divertir”, destacou.

Para o assistente social e artista drag Bonieck de Souza Rodrigues, conhecido artisticamente como Kyanne Kiffer, participar do Manifesto LGBTQIAPN+ da Serra é muito mais do que subir ao palco. Integrante do elenco artístico do evento, ele define o movimento como um símbolo de evolução, resistência e união.
Segundo Kyanne, no âmbito pessoal, o Manifesto representa aprendizado constante e a busca por novas perspectivas. Coletivamente, é a força de pessoas que se unem para transformar a sociedade e conquistar direitos.

“É um ato de luta, resistência e conquistas”, resume.
Entre os momentos mais marcantes de sua trajetória está a oportunidade de apresentar sua arte para milhares de pessoas durante o Manifesto LGBTQIAPN+ da Serra. Para ele, ocupar esse espaço é uma forma de dar visibilidade à comunidade e fortalecer a representatividade. Ele destaca que as principais demandas da comunidade continuam sendo a segurança, o combate à violência, o acesso integral à saúde e a ampliação das oportunidades de trabalho e empregabilidade.
Ao falar sobre o Fórum LGBTQIAPN+, Kyanne ressalta sua importância na construção de políticas públicas, permitindo que a própria comunidade participe das decisões, do acompanhamento e da avaliação das ações que impactam suas vidas.
Embora reconheça os avanços conquistados ao longo dos anos, ele alerta que ainda existem retrocessos e desafios. “Precisamos nos esforçar muito para que, minimamente, tenhamos nossos direitos garantidos”, conclui.
Mais do que uma celebração marcada por cores, música e alegria, a parada também se consolidou como um espaço de reivindicação. O evento levantou debates sobre o direito de existir, ocupar espaços e viver com dignidade, além de pautas relacionadas à identidade de gênero, orientação sexual e à necessidade de ampliar a representatividade de corpos negros na sociedade e no mercado de trabalho.
A Parada LGBTQIAPN+ da Serra mostrou, mais uma vez, que ocupar as ruas é um ato de resistência. Entre bandeiras, música e manifestações culturais, o evento reforçou que a luta por respeito, igualdade e direitos continua viva, transformando a celebração em um importante espaço de visibilidade, pertencimento e cidadania. Defendendo a democracia, o respeito e o amor, a parada se reafirma como uma manifestação cultural e política que promove a livre expressão e fortalece a diversidade.