Altinha: como o projeto transforma lazer em renda na Ilha do Frade
Na orla de Vitória, prática esportiva se torna vitrine digital para atletas e produtores de conteúdo

Daniel Chiabai
Se é bem cedinho ou no final da tarde não importa, o que interessa é que a bola dificilmente toca o chão. Na Ilha do Frade, em Vitória, a altinha segue reunindo amigos, risadas e habilidade. Mas hoje, há um elemento novo na cena: a câmera. Posicionada na areia ou na mão de alguém, ela acompanha cada jogada como se soubesse que dali pode sair algo maior.
Por trás de muitas dessas gravações está o olhar de quem conhece bem o jogo. Conhecido como “Guardião da Ilha do Frade”, Papa, criador do projeto Familhota, já foi atleta profissional de altinha e hoje usa essa bagagem para registrar e valorizar o que acontece na areia, reunindo vários jovens que buscam seguir o caminho do esporte.
Com isso, surge uma nova dinâmica: o que antes era apenas lazer começa a ganhar valor simbólico e até econômico. A altinha deixa de ser só um momento entre amigos e passa a integrar uma lógica maior, em que visibilidade, imagem e engajamento se tornam ativos.
Quando o olhar de quem vive o jogo vira narrativa

A proposta do Familhota não surgiu por acaso. Segundo Papa, a ideia sempre foi mostrar o nível técnico que já existia na Ilha do Frade, mas que não tinha visibilidade. “A altinha aqui sempre foi forte. Eu já vivi isso como atleta, então sei o nível que tem. Só faltava alguém mostrar”, explica o dono do projeto.
Essa experiência como ex-atleta influencia diretamente na forma como ele organiza os treinos e que depois são gravados. O olhar é mais atento, focado nos detalhes, nos lances mais difíceis e naquilo que realmente chama atenção de quem entende do esporte. Aos poucos, os vídeos foram ganhando alcance e atraindo novos públicos.
Para os jogadores, essa mudança é clara. “Quando o Papa está filmando, você tenta fazer algo diferente. Dá um gás a mais”, conta Lucas Ferreira, de 22 anos. Segundo ele, alguns colegas já ganharam seguidores e passaram a ser reconhecidos fora dali por causa dos vídeos.
Nesse cenário, a altinha entra diretamente no campo da economia criativa, em que a habilidade e a expressão se transformam em valor. O conteúdo nasce de algo real, mas quando é bem produzido, ele ganha outra dimensão. Isso pode gerar visibilidade e até oportunidades.

Entre o espírito da altinha e a lógica da exposição
Apesar das oportunidades, a presença constante das câmeras também muda o clima. A espontaneidade continua, mas passa a dividir espaço com a consciência de estar sendo observado.
Papa reconhece essa mudança, mas acredita que o equilíbrio é possível. “A essência não pode se perder. A gente ainda está ali pela resenha, pelo jogo. A câmera só leva isso para mais gente”, afirma.
Mesmo com as transformações, a altinha segue sendo um espaço de encontro. O que muda é o alcance: aquilo que antes ficava na areia agora circula nas redes, ganha público e cria novas possibilidades.
No meio disso tudo, como ex-atleta e “Guardião da Ilha do Frade”, Papa se torna parte fundamental dessa transformação e valoriza o que acontece ali, ajudando a levar essa história para além da praia.
