Microcrédito muda o mapa da juventude rural no Espírito Santo e abre caminho para quem decide ficar

Foto: ASCOM/MDA

Bruno Caetano 

Pouco antes do amanhecer, o jovem Leandro Alves de Assis já está entre os pés de café que ajudou a plantar em Alto Rio Novo. Na propriedade da família, a rotina começa cedo e reflete uma escolha que, para muitos jovens do campo, nem sempre parece possível: permanecer na agricultura e construir o próprio futuro.

Nos últimos anos, um instrumento tem contribuído para transformar essa realidade. Com financiamentos de pequeno valor e condições adaptadas à agricultura familiar, o microcrédito rural tem permitido que jovens produtores façam os primeiros investimentos, ampliem a produção e enxerguem novas oportunidades de renda sem precisar deixar a terra onde nasceram.

Em vez de abandonar o campo em direção às cidades, como ainda ocorre com milhares de famílias brasileiras, muitos estão fazendo o caminho inverso: permanecem na propriedade, investem em novos negócios e ajudam a renovar a agricultura familiar.

Um campo que perde jovens, mas começa a reagir

O cenário, no entanto, ainda é de alerta. No Espírito Santo, 85,9% da população vive em áreas urbanas, segundo o IBGE. No campo, ficam apenas 14,1%. Por trás dos números, está um desafio: a sucessão rural.

O problema não é apenas a saída dos jovens. É a ausência de condições para que eles consigam ficar.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário estima que cerca de um milhão de jovens deixaram o meio rural brasileiro em menos de uma década. E isso ajuda a explicar por que políticas de crédito voltadas à juventude passaram a ganhar centralidade no debate sobre o futuro da agricultura familiar.

“O campo envelheceu”

Para o economista Sebastião Demuner, o maior desafio do agronegócio brasileiro nos próximos anos não é produzir mais, mas garantir quem vai continuar produzindo. “O campo envelheceu. Hoje falta mão de obra tanto na cidade quanto na zona rural. A grande pergunta é: quem vai continuar produzindo alimentos no futuro?”, questiona.

Segundo ele, por muito tempo a agricultura familiar teve dificuldade para acessar investimentos capazes de modernizar pequenas propriedades. “O agronegócio sempre teve mecanismos mais consolidados de financiamento. Já o pequeno agricultor, muitas vezes, precisava crescer apenas com recursos próprios, o que limitava muito a capacidade de investir”, explica.

Segundo Sebastião Demuner, o maior desafio da agricultura familiar é criar oportunidades para que os jovens permaneçam no campo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Para o economista, reverter esse cenário depende de mais do que tradição familiar,  é preciso que os jovens enxerguem uma perspectiva econômica real dentro da propriedade. “O desafio é criar uma cultura empreendedora no campo, estimular novos negócios e agregar valor ao que é produzido”, avalia.

É justamente nesse ponto que o microcrédito rural começa a mudar trajetórias: ao permitir financiamentos de menor valor, com condições adaptadas à realidade da agricultura familiar, ele se torna, para muitos jovens, a primeira oportunidade concreta de empreender onde nasceram.

Quando R$ 5 mil mudam uma trajetória

Além de se destacar entre os melhores produtores de café do país, Leandro foi reconhecido pelo Banco do Nordeste como exemplo de empreendedorismo rural. (Foto: Divulgação/BDN)

Filho e neto de cafeicultores, Leandro cresceu acompanhando os pais na propriedade da família, em Alto Rio Novo. Desde criança aprendeu que produzir exigia esforço, e também viu de perto as dificuldades enfrentadas pelos pequenos agricultores. “Naquela época tudo era muito difícil”, recorda.

Aos 18 anos, decidiu construir o próprio caminho na cafeicultura e fez seu primeiro financiamento para plantar uma lavoura própria. O desejo não era simplesmente produzir café. “Meu sonho era ser reconhecido na cafeicultura”, conta.

A virada veio em 2021, quando conheceu o Agroamigo, linha de microcrédito do Banco do Nordeste. Com um financiamento de apenas R$ 5 mil, Leandro ampliou a lavoura, plantando mais de 1.600 mudas de café, e investiu ao mesmo tempo em milho e feijão em sistema orgânico, uma forma de garantir renda enquanto o cafezal crescia.

A estratégia deu resultado. A primeira parcela do financiamento foi paga só com a venda do feijão, e parte do café passou por um beneficiamento especial que abriu as portas para um novo mercado: o dos cafés especiais. Em 2023, Leandro já figurava entre os três melhores produtores de café do município e entre os 15 melhores do Brasil.

No ano seguinte, voltou a acessar o microcrédito, dessa vez para construir quatro terreiros suspensos, que melhoraram a secagem dos grãos. O resultado veio de novo: o primeiro lugar no concurso municipal de café Conilon.

Hoje, além de comercializar o próprio café pela marca Café Serra da Onça, Leandro integra uma unidade de referência em cafés especiais do Incaper, participa da diretoria do sindicato rural de Alto Rio Novo e desenvolve um projeto agroflorestal que combina café e frutíferas. Também percorre eventos pelo estado incentivando outros jovens a apostar no campo.

O microcrédito foi o que abriu essa porta. Eu costumo dizer para outros jovens que a oportunidade existe. Às vezes falta apenas alguém acreditar que nós também podemos empreender no campo.

Do desperdício à agroindústria

Com apoio do microcrédito rural, Cassiano estruturou uma agroindústria e passou a agregar valor à produção de frutas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em São Gabriel da Palha, o jovem agricultor Cassiano Lagass de 26 anos, começou como muitos produtores jovens da região: cultivando maracujá e vendendo a produção para indústrias de polpa em municípios vizinhos. O modelo funcionava dentro da lógica tradicional, mas carregava uma limitação constante,  a dependência do volume e do custo de transporte.

Quando a produção caía, o frete deixava de compensar. Em alguns períodos, parte da colheita simplesmente não tinha destino. Foi nesse contexto que ele chegou a viver fora do campo por um período. Morou na cidade, tentou outros caminhos profissionais e conheceu uma rotina diferente. 

Havia mais oportunidades formais, mas também mais pressão, custos elevados e menos autonomia sobre o próprio tempo. Com o passar do tempo, a comparação virou decisão.

No campo, ele percebeu que conseguia se organizar melhor, trabalhar com mais tranquilidade e enxergar possibilidades reais de crescimento dentro da própria propriedade.

“Na cidade eu tinha trabalho, mas não tinha a mesma organização de vida. No campo eu consigo me organizar melhor, tenho mais sossego e também vejo mais oportunidade de crescer”, conta.

Hoje, a produção de polpas garante mais autonomia ao jovem agricultor e abre novos planos para o futuro da propriedade. (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi essa percepção que o fez voltar definitivamente para a propriedade da família.

De volta ao campo, Cassiano manteve inicialmente o modelo tradicional de produção e venda da fruta in natura. Até que um problema recorrente abriu espaço para mudança: a instabilidade da produção e a dificuldade de escoamento em determinados períodos.

Foi nesse ponto que ele decidiu testar uma alternativa. Comprou uma pequena despolpadeira pela internet, com um investimento inicial baixo, mais como tentativa de evitar desperdício do que como projeto de negócio.

As primeiras polpas foram vendidas de forma simples, na própria região. Mas o retorno veio rápido. “Quem comprava começou a perguntar se eu não tinha outros sabores. Foi aí que percebi que havia uma oportunidade”, lembra.

A partir daí, Cassiano começou a agregar outras frutas produzidas na região e a ampliar o processamento dentro da propriedade.

O crescimento, no entanto, esbarrou em um limite claro: estrutura. Foi nesse momento que o microcrédito rural entrou como fator decisivo para a mudança de escala. Por meio da linha Agroamigo, ele conseguiu financiamento para estruturar uma agroindústria dentro da própria propriedade.

O crédito permitiu sair do improviso e organizar a produção de forma contínua, com equipamentos adequados e capacidade de atender novos mercados.

Hoje, o empreendimento chega a cerca de 1,5 tonelada de polpa por mês, abastecendo mercados locais, lanchonetes e pequenos comércios da região.

Mas Cassiano destaca que o principal impacto não foi apenas o crescimento da produção, e sim a autonomia que o investimento proporcionou. “Antes eu dependia do comprador. Hoje consigo decidir melhor o momento de vender e como vender.”

Dentro da propriedade, o sistema também foi se reorganizando. Os resíduos das frutas passaram a ser reaproveitados como adubo orgânico, fechando o ciclo produtivo.

A experiência ainda abriu novas possibilidades, como o projeto de instalação de uma microcervejaria no local, ampliando as fontes de renda sem sair do campo.

Permanecer também é uma escolha

Foto: Incaper

Em Conceição da Barra, Ezequiel da Silva Souza cresceu no campo e nunca chegou a cogitar outra rota de vida. Enquanto parte dos amigos seguiu para centros urbanos em busca de emprego, ele permaneceu na propriedade da família, onde desde cedo aprendeu a lidar com milho, feijão, abóbora e, mais tarde, com a pimenta-do-reino.

O vínculo com a terra veio ainda na infância, quando já acompanhava os pais no trabalho diário da lavoura. Com o tempo, o que era ajuda virou rotina e, depois, escolha. “O meu interesse sempre foi no campo. Morar na cidade dá muito trabalho e muitos gastos”, resume.

Apesar da decisão de permanecer, o caminho não era simples. Como em muitas famílias da agricultura familiar, o desejo de ampliar a produção esbarrava em um limite comum: a falta de capital para investir.

O projeto mais recente era a implantação de uma lavoura de maracujá, mas ele e a família tentavam há anos acessar algum tipo de financiamento sem sucesso.

A virada aconteceu quando o acesso ao microcrédito rural finalmente se concretizou. Por meio da linha Agroamigo Jovem, Ezequiel conseguiu um financiamento de cerca de R$ 8 mil, valor que foi destinado à compra de mudas, estacas, arames e insumos necessários para estruturar o novo plantio.

O crédito funcionou como porta de entrada para viabilizar um projeto que já existia, mas não saía do papel. Enquanto a lavoura de maracujá ainda está em fase de desenvolvimento, Ezequiel segue trabalhando junto à família na propriedade, conciliando as culturas já consolidadas com o novo investimento. “Há cerca de dez anos a gente tentava fazer um empréstimo. Agora conseguimos essa oportunidade”, relata.

A lógica, no caso dele, não é de expansão acelerada, mas de construção gradual dentro da própria realidade familiar. A implantação da nova cultura também será feita de forma integrada: após a colheita da pimenta, os pais ajudarão na estruturação do maracujá, reforçando o modelo de trabalho coletivo da família.

Para Ezequiel, o principal objetivo é direto, mas revela um ponto central da agricultura familiar: autonomia.

Crédito para começar

Agroamigo tem ampliado o acesso de jovens agricultores ao crédito, incentivando investimentos, empreendedorismo e permanência no campo. (Foto: Divulgação/BDN)

Se para os jovens agricultores o microcrédito aparece como ferramenta de transformação dentro da propriedade, para as instituições financeiras ele representa uma estratégia direta de fortalecimento da agricultura familiar e da sucessão rural.

Segundo a coordenadora de unidade, do programa Agroamigo de Nova Venécia-ES, Eliana Vellman, o perfil dos atendimentos tem mudado ao longo dos últimos anos. Cada vez mais, jovens chegam às agências com ideias estruturadas, mas ainda sem condições financeiras de tirar os projetos do papel.

“O microcrédito permite que o jovem compre equipamentos, implante novas culturas, invista em infraestrutura e comece a administrar o próprio negócio dentro da propriedade da família”, explica.

Na prática, segundo ela, o recurso deixa de ser apenas um empréstimo de pequeno valor e passa a funcionar como porta de entrada para a construção de autonomia produtiva no campo.

Os financiamentos, antes concentrados apenas na produção agrícola tradicional, hoje também se voltam para outras frentes dentro da propriedade. Entre elas estão a implantação de agroindústrias, sistemas de irrigação, tecnologias de produção, projetos agroflorestais e iniciativas de agregação de valor.

Eliana Vellman acompanha de perto o crescimento de jovens agricultores que encontram no Agroamigo uma oportunidade para empreender e permanecer no campo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Essa mudança, segundo Eliana, acompanha uma transformação mais ampla no próprio perfil da agricultura familiar, que deixou de ser apenas produtiva para se tornar também empreendedora.

“O objetivo é fortalecer a sucessão familiar, incentivar o empreendedorismo rural e mostrar que é possível construir uma carreira no campo com geração de renda e qualidade de vida”, afirma.

O ponto central, segundo ela, é garantir que o jovem não veja o campo apenas como continuidade de uma tradição, mas como um espaço real de decisão e construção de futuro.

Nesse cenário, o microcrédito passa a ocupar uma função estratégica: reduzir a barreira inicial de investimento, permitindo que pequenas ideias se tornem atividades produtivas sustentáveis dentro da propriedade.