O retorno do salto vermelho: “O Diabo Veste Prada 2”

Sequência nostálgica debate a crise da comunicação

(Foto: Freepik/Magnific)

Geovana Freitas

Mesmo após quase duas décadas do lançamento, The Devil Wears Prada continua sendo uma referência quando o assunto é comunicação e moda. A produção acompanha a trajetória da jovem jornalista inserida em uma renomada revista fashion, expondo desafios profissionais que ainda refletem a realidade atual. O cotidiano acelerado das redações, marcado por prazos curtos, competitividade e alto nível de exigência estética e criativa, permanece presente no mercado da comunicação.

O filme foi produzido pela 20th Century Studios, dirigido por David Frankel e roteirizado por Aline Brosh McKenna, baseado no livro de Lauren Weisberger. Antes de conquistar o público nos cinemas e se tornar um marco cultural para amantes da moda, publicidade e jornalismo, a história surgiu na literatura. Lauren se inspirou em sua experiência como assistente da editora da Vogue, Anna Wintour, utilizando vivências reais para construir a narrativa.

O livro ganhou notoriedade justamente por apresentar os bastidores da moda de luxo, a pressão profissional e as relações de poder presentes nesse ambiente.

A ascensão das redes sociais alterou a forma como as tendências são criadas e consumidas, reduzindo o tempo entre o lançamento de coleções e sua popularização. Influenciadores digitais, marketing on-line e o crescimento do comércio eletrônico redefiniram o papel tradicional das revistas impressas.

Nesse contexto, o filme evidencia que, por trás do glamour e da sofisticação, existe um ambiente de trabalho marcado por cobranças constantes, competitividade e necessidade de adaptação.

Além disso, a postura rígida de Miranda Priestly, antes vista com fascínio e admiração, hoje também pode ser interpretada como um símbolo de liderança tóxica diante das discussões atuais sobre saúde mental no ambiente de trabalho.

Moda atual

Apesar da estética luxuosa e do universo glamouroso apresentado em cena, o filme vai além da moda. Para Maria Fernanda Savignon Bernabe, 18, estudante de jornalismo, a narrativa aborda principalmente a sobrevivência profissional em um mercado em constante transformação.

(Foto: Arquivo Pessoal/Maria Fernanda Savignon)

“Para mim, o tema principal é a sobrevivência de uma jornalista em um mercado que está em crise, mostrando o desafio de se adaptar à era digital e aos novos formatos de mídia para tentar salvar a Runaway.”

Segundo ela, o universo da revista desperta reflexões sobre trabalho, ambição, reconhecimento e desejo feminino. Enquanto no primeiro filme, Miranda Priestly era retratada como uma figura praticamente intocável, a sequência evidencia diferenças geracionais e mostra a personagem enfrentando dificuldades para se adaptar a um cenário em que ela já não é mais a única responsável por ditar tendências e comportamentos.

Maria Fernanda também destaca a pressão enfrentada por mulheres em cargos de liderança e como isso se relaciona diretamente com a imagem construída em torno da personagem.

“Homens agem com exigência, e são vistos como visionários ou gênios. Já mulheres com o mesmo comportamento acabam sendo rotuladas como amargas ou até ‘diabólicas’, e vemos isso claramente com a Miranda.”

Identidade profissional

A estudante de jornalismo e comunicação Tamires Pereira Barbosa, 18, acredita que o longa ultrapassa o universo fashion e aborda temas relacionados à ética profissional, inteligência emocional e identidade no ambiente de trabalho.

(Foto: Arquivo Pessoal/Tamires Barbosa)

“Em um dia em que você quer apenas se distrair e “entrar” em uma história sobre viver em Nova York e trabalhar em uma editora de moda, ele funciona perfeitamente. Mas também é um ótimo filme para assistir com mais atenção e perceber que ele não fala apenas sobre moda ou sobre o jornalismo nesse ramo, mas também sobre ética profissional, inteligência emocional e vários outros fatores mais racionais.”

O filme mostra sobre o profissionalismo, principalmente o das mulheres e como isso reflete em suas vidas pessoais.

“A obra aborda o papel da mulher em cargos de liderança de uma forma muito complexa e, em alguns momentos, até injusta, justamente por mostrar uma realidade que ainda existe. Isso acaba gerando uma cobrança excessiva sobre o comportamento das mulheres no ambiente de trabalho. O filme mostra que, muitas vezes, para chegar e permanecer em cargos altos, a mulher precisa renegar sua parte mais sensível, emocional e frágil para conseguir ser respeitada, como Miranda Priestly faz.“

Conflitos internos

Nem toda produção de sucesso necessita de uma continuação, e esse é um dos pontos levantados por Rowena Romagnoli dos Santos, 22, assessora de imprensa. Ainda assim, ela reconhece que os conflitos apresentados na sequência foram atualizados para refletir a realidade contemporânea da comunicação.

(Foto: Arquivo Pessoal/Rowena Romagnoli)

“Nas reuniões de pauta, as matérias já são avaliadas pelo desempenho on-line, e o filme até cita a queda dos assinantes da revista impressa. Andy Sachs também sofre pressão por suas matérias não terem tanta repercussão na internet.”

Ela também avalia que Miranda Priestly continua sendo apresentada como uma mulher poderosa, mas que sua liderança atualmente pode ser interpretada de forma mais crítica. “Isso fica evidente quando sua secretária atua como um ‘filtro’ entre ela e os funcionários.”

Sobre o equilíbrio entre nostalgia e inovação, Rowena acredita que a sequência depende diretamente da conexão emocional construída pelo primeiro filme.

“É preciso ter conexão com o primeiro filme para entender melhor os conflitos e as motivações dos personagens”.

Ao ser questionada sobre a necessidade narrativa da continuação, a assessora conclui que o retorno da franquia acontece principalmente pelo apelo emocional dos fãs construído ao longo dos anos.

“O primeiro filme deixa uma brecha para explorar os desdobramentos das decisões de Andy, mas, na minha opinião, não era necessária uma continuação. Existe mais pelo apelo nostálgico dos fãs, por ser um filme tão icônico.”

Rivalidade e networking

“Inveja ou admiração profissional? (Foto produzida por inteligência artificial/Gemini)

Apesar da expectativa em torno da sequência de O Diabo Veste Prada, o filme mantém conflitos já conhecidos sem aprofundar questões que poderiam renovar a narrativa. A rivalidade feminina entre Miranda Priestly e Emily Charlton surge novamente, mas sem uma explicação convincente sobre a origem de tanta tensão ou competitividade. O roteiro também deixa diversos assuntos em aberto, explorando pouco a vida pessoal das personagens e repetindo fórmulas já utilizadas no longa original.

A continuação reforça uma sensação de permanência no tempo. Mesmo após tantos anos, as personagens parecem emocionalmente estagnadas. As filhas de Miranda, agora adultas, quase não aparecem, enquanto os relacionamentos amorosos continuam superficiais e pouco relevantes para a construção do enredo. Os homens ao redor das protagonistas permanecem em segundo plano — o que não é necessariamente um problema —, porém o filme praticamente não apresenta quem a importância dessas relações na vida das personagens.

A narrativa volta a girar em torno da crise da revista Runaway, trazendo novamente Andy Sachs ao lado de Miranda, quase de forma cega e inquestionável. Miranda continua rígida, distante e incapaz de demonstrar vulnerabilidade, enquanto Emily mantém sua personalidade ambiciosa e egoísta. A vida pessoal das personagens segue sem espaço: pouco se sabe sobre suas famílias, desejos ou escolhas fora do ambiente profissional. O trabalho permanece como centro absoluto da existência dessas mulheres.

As novas personagens introduzidas na trama também têm pouca relevância narrativa. Em muitos momentos, parecem existir apenas para impulsionar o crescimento profissional ou a ascensão das figuras originais, sem desenvolvimento próprio ou impacto significativo na história.

(Foto produzida por inteligência artificial/Gemini)

Entre os principais acertos do filme está Nigel, personagem que ganha mais destaque na continuação. Carismático, elegante e acolhedor, ele se consolida como um dos nomes mais cativantes da franquia. Sua relação com Andy reforça um aspecto importante do jornalismo e do mercado da moda: networking e boas relações interpessoais podem abrir portas e gerar novas oportunidades profissionais. Além de funcionar como alívio emocional da trama, Nigel representa lealdade, experiência e apoio em um ambiente marcado pela competitividade.

A crise do jornalismo, da moda e da arte

Thaiz Altoé, 34 anos, é jornalista, com mestrado em Sociologia Política. Agente cultural, comunicadora e estrategista de conteúdo, desenvolve trabalhos que unem comunicação, pensamento crítico e produção cultural.

(Foto: Arquivo Pessoal/ Thaiz Altoé)

Para ela, o filme Diabo Veste Prada 2, relacionando a obra aos desafios da comunicação e ao impacto da inteligência artificial. 

“Achei um filme mais leve, mais cômico. Um filme que fala muito mais sobre relacionamentos interpessoais. Mas na minha visão Andy continua repetindo os mesmos conflitos do primeiro filme, apesar de estar mais confiante. Acredito que ela sempre buscou a validação da Miranda desde o primeiro filme e continua querendo isso no segundo.”

Além da visão sobre a personagem principal, a jornalista fala sobre como o filme desenvolve discussões no âmbito jornalístico.

“Traz novas discussões sobre a forma que o mercado de trabalho mudou e como comportamentos antigos que antes eram aceitos, não são mais. Mas também reforça a ideia de que se fosse um homem na mesma posição a reação das pessoas seriam outras. O próprio filme critica muito a crise do jornalismo, da moda e da arte em geral com a utilização da tecnologia, principalmente, do uso de IA. Muitos acreditam que daqui a pouco conseguiremos substituir o capital humano pela inteligência artificial, mas o que é a arte sem o humano? NADA”

Então, a questão é: “Diabo Veste Prada 2” existe por necessidade narrativa ou principalmente pelo apelo nostálgico da franquia?’.

(Foto produzida por inteligência artificial/Gemini)

A jornalista e mestra em sociologia responde: “Acredito que um pouco dos dois. Ele existe pelo apelo nostálgico porque isso vende. Mas também veio para a gente pensar em como toda a estrutura do mercado de trabalho, principalmente, do jornalismo mudou. Mas o que me chamou mais atenção foi a crítica a essa produtividade moderna e a utilização de inteligência artificial nas artes, na moda.”

A jornalista ainda deixa o recado, enfatizando sobre o que verdadeiramente se trata o filme. “O filme pode até falar de moda, mas no fundo sempre foi sobre algo muito maior: visão, sensibilidade e construção cultural. Jornalismo, arte e moda nunca foram só sobre dinheiro ou consumo, são jeitos de interpretar o mundo, criar histórias e influenciar comportamentos. E talvez o ponto mais atual dessa continuação seja justamente o choque entre o humano e a tecnologia. Numa época em que tudo parece automático, rápido e descartável, o filme lembra que nenhuma inteligência artificial substitui repertório, olhar crítico, presença e sensibilidade.”

O Diabo Veste Prada 2 tenta revisitar um clássico da cultura pop enquanto debate os novos desafios da comunicação contemporânea. Mesmo sem inovar completamente sua narrativa, o filme reforça que moda, jornalismo e arte continuam sendo espaços de disputa, influência e construção humana. No fim, mais do que revisitar personagens icônicos, a sequência expõe um mercado em transformação e reforça que nenhuma tendência, algoritmo ou inovação tecnológica é capaz de substituir o olhar humano.