Pessoas com diferentes sonhos de empreender
Capixabas transformam desafios em negócios, autonomia e oportunidades para pessoas com deficiência

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Reportagem: Bruno Caetano
O pote de tempero que Maria Claudineide segura nas mãos parece simples. Tem alho, ervas, cebola, tomate e ingredientes que costumam estar presentes em qualquer cozinha brasileira. Mas o que está ali não cabe apenas na receita. Cada embalagem representa uma forma de continuar trabalhando.
Durante anos, Claudineide administrou um salão de beleza. A rotina era intensa. Atendia clientes, cuidava do negócio, investia em capacitação e construía a própria independência financeira. Em 2008, porém, recebeu o diagnóstico de fibromialgia.

Ela continuou trabalhando, reduziu a carga horária, adaptou a rotina e tentou seguir. Até que a pandemia chegou. Com o salão fechado e a saúde fragilizada, viu os equipamentos serem vendidos aos poucos. Quando a crise passou, já não tinha estrutura para recomeçar da mesma forma.
Sem condições de retomar o negócio, encontrou uma alternativa na própria cozinha. A experiência acumulada ao longo dos anos preparando alimentos para a família se transformou em uma nova fonte de renda. Aos poucos, passou a desenvolver receitas de temperos artesanais e a testar combinações de ingredientes naturais.
Os primeiros clientes vieram por indicação. Amigos, vizinhos e conhecidos começaram a experimentar os produtos. As encomendas surgiram e o negócio ganhou espaço na rotina da empreendedora.

Hoje, os temperos circulam pela Grande Vitória em mochilas, casas, ônibus e terminais urbanos. Quando consegue produzir. Quando as dores permitem. Quando o corpo deixa. “Eu sempre trabalhei. Sempre tive minha própria renda. Não gosto de depender dos outros, diz.
A trajetória de Claudineide se repete, de formas diferentes, na vida de milhares de pessoas com deficiência que encontraram no empreendedorismo uma alternativa para gerar renda e construir projetos profissionais.
No Espírito Santo, milhares de pessoas enfrentam diariamente obstáculos para acessar o mercado formal de trabalho. Histórias como a dela ajudam a explicar um movimento que tem ganhado força em todo o país: a busca pelo próprio negócio como caminho para criar oportunidades onde elas nem sempre existem.

Os desafios começam ainda na educação. Entre as pessoas com deficiência com mais de 25 anos, a maioria não concluiu o ensino fundamental. As dificuldades acumuladas ao longo da vida acabam refletindo também nas oportunidades de emprego e geração de renda.

Card com fundo verde-claro. À direita, foto em close de Douglas Christian, um homem branco de óculos, sorrindo. À esquerda, entre grandes aspas roxas, há um texto sobre empreendedorismo como forma de protagonismo e autonomia para pessoas com deficiência. Abaixo, o texto o identifica como coordenador do Núcleo de Acessibilidade da Ufes. (fotomontagem: Bruno Caetano)
Para muitas dessas pessoas, empreender significa a possibilidade de organizar a própria rotina, desenvolver habilidades, ampliar a participação econômica e construir projetos compatíveis com suas necessidades e potencialidades.
O professor Douglas Christian Ferrari de Melo, da Universidade Federal do Espírito Santo, destaca que boa parte das limitações enfrentadas pelas pessoas com deficiência está relacionada às barreiras presentes na sociedade.
Sonhos geram rede de apoio
O artesanato sempre esteve presente na vida das irmãs Suely e Suzana Lima. Desde crianças, elas aprenderam a trabalhar com as mãos, transformar matéria-prima em peças únicas e enxergar valor em detalhes que, muitas vezes, passavam despercebidos pelos outros. O que antes era apenas uma habilidade cotidiana, com o tempo, se tornou fonte de renda.
A mudança aconteceu de forma gradual. Como pessoas com deficiência física, elas enfrentaram dificuldades para acessar oportunidades de trabalho e se manter em ambientes profissionais preparados para acolher suas necessidades. Em diferentes momentos da vida, perceberam que a qualificação nem sempre era suficiente para garantir espaço no mercado formal.
Foi durante a pandemia que essa percepção se intensificou. Ao tentar manter a própria atividade, as irmãs passaram a se conectar com outras mulheres que também buscavam transformar habilidades manuais em renda. Muitas produziam peças de qualidade, mas não sabiam como chegar aos clientes. Outras sequer acreditavam que poderiam vender aquilo que faziam.

Da convivência com essas histórias nasceu o projeto Empreendedoras Inclusivas, idealizado pelas duas. A iniciativa reúne mulheres de diferentes municípios capixabas e atua como uma rede de apoio, oferecendo espaço para exposição, comercialização e troca de experiências.
“Eu comecei a perceber que havia muitas mulheres talentosas com deficiência, escondidas dentro de casa. Algumas tinham vergonha de mostrar o trabalho, outras achavam que ninguém iria comprar. Era uma questão de oportunidade, mas também de autoestima”, relata Suely.
Hoje, o negócio envolve a produção de peças artesanais como laços, tiaras, pulseiras, canetas personalizadas, kits de presente e itens decorativos. A produção é feita em casa, de forma manual, e ganha espaço em feiras, encomendas diretas e vendas para clientes fiéis que acompanham o trabalho.
Suzana Lima explica que a ideia de transformar o artesanato em negócio surgiu de forma natural, a partir da própria vivência com a arte. “Nenhuma ideia surge do nada. No nosso caso, a arte sempre esteve no subconsciente, nas escolhas, nos detalhes. Começamos a criar peças, depois vieram os testes, as primeiras vendas, as encomendas. Quando percebemos, já era um negócio estruturado, com clientes e participação em feiras. O produto virou arte, e a arte virou renda”, afirma.

Segundo ela, o início foi marcado pela insegurança e pela decisão de se expor ao mercado. Com o crescimento do projeto, as irmãs passaram a estruturar melhor a produção e o relacionamento com clientes. Atualmente, elas participam de feiras e eventos, onde ampliam a divulgação e fortalecem a rede de contatos.
A rotina de trabalho se mistura com a vida pessoal, já que a produção acontece dentro de casa, em um processo contínuo de criação. Entre uma encomenda e outra, elas também compartilham conhecimentos sobre precificação, divulgação e estratégias de venda com outras mulheres do projeto.

Com o crescimento, Suely e Suzana projetam novos passos. Entre os principais objetivos está a criação de um espaço físico próprio, voltado à produção, exposição e formação de outras mulheres. A ideia é transformar o empreendimento em um ponto de encontro para capacitação, geração de renda e fortalecimento do empreendedorismo criativo e inclusivo.
Para o diretor-geral da Aderes, Alberto Gavini, o empreendedorismo é uma das principais ferramentas de inclusão produtiva para pessoas com deficiência. Segundo ele, o PCD pode encontrar no empreendedorismo uma forma de adequar o trabalho às próprias condições, criando ambientes mais acessíveis e personalizados.

Gavini destaca que o governo do Estado, em parceria com a Aderes, tem ampliado políticas de incentivo, qualificação e inclusão produtiva, com atenção especial à acessibilidade em feiras e programas de capacitação. Ele cita iniciativas como a adaptação de espaços de comercialização, cursos em EAD com acessibilidade em Libras e o uso da Central de Intermediação em Libras (CIL), que facilita a comunicação entre empreendedores e clientes.
Ainda assim, ele reconhece que desafios persistem, especialmente relacionados à mobilidade e ao acesso a espaços públicos. “Existem dificuldades, sim, como deslocamento e acessibilidade urbana. Mas há um esforço contínuo para melhorar calçadas, ambientes de trabalho e condições de participação em feiras e eventos. A ideia é garantir igualdade de condições para empreender”, explica.
Da cozinha da APAE para os primeiros clientes
O cheiro de brigadeiro recém-feito costuma anunciar quando Erickson Braian, o Dudu, está trabalhando. Aos 35 anos, ele encontrou na cozinha uma habilidade que, pouco tempo atrás, não imaginava transformar em fonte de renda. O que começou como uma oficina dentro da APAE Serra acabou abrindo caminho para algo maior: a possibilidade de empreender.
Ao lado dele está Roxsane Santiago, de 31 anos. Assim como Dudu, ela também começou nas oficinas da APAE Serra e viu os doces ultrapassarem o ambiente das aulas. O que era uma atividade de aprendizagem passou a despertar o interesse de clientes e abriu espaço para novas possibilidades de trabalho.
Dudu logo se destacou na produção de brigadeiros, beijinhos e pipocas gourmet. Roxsane desenvolveu afinidade com os casadinhos e biscoitos. A preferência pelos produtos veio naturalmente. O que eles não imaginavam era que aquelas receitas começariam a circular para além dos muros da instituição.

A primeira oportunidade de negócio surgiu quando um familiar de Dudu precisou organizar uma festa. Os valores cobrados por fornecedores estavam acima do orçamento disponível. Em vez de procurar outra alternativa, a família decidiu confiar no trabalho que ele vinha desenvolvendo.
“Ela me falou que estava ficando muito caro encomendar os doces. Eu pedi para comprar os ingredientes que eu precisava, organizei tudo e fui fazer. Depois apareceram outras pessoas interessadas também. Aí eu percebi que aquilo que aprendi podia virar um trabalho.”, diz.
A encomenda foi entregue, vieram elogios e novos pedidos. Aos poucos, a produção deixou de ser apenas uma atividade aprendida em sala para se tornar uma possibilidade concreta de geração de renda. Hoje, Dudu já pensa em dar novos passos no negócio.

A estratégia já começou a sair do papel. Ele utiliza as redes sociais para mostrar parte da produção e descobriu que plataformas como TikTok, Facebook e Instagram podem funcionar como vitrines para alcançar novos clientes. “Eu gravei alguns vídeos e postei. Quando fui olhar depois, tinha muita gente assistindo e querendo. Isso anima porque as pessoas começam a conhecer o que você faz e podem virar clientes.”
Roxsane percorre um caminho semelhante. Os doces que aprendeu a preparar durante o projeto despertaram o interesse de clientes e mostraram que existe espaço para transformar uma habilidade em atividade econômica. Ainda sem uma marca definida, ela já começa a enxergar possibilidades de crescimento, com planos de divulgar melhor os produtos e ampliar o alcance das vendas.
O entusiasmo não está ligado apenas às vendas. Existe um sentimento de reconhecimento que aparece sempre que alguém encomenda um produto ou elogia o resultado do trabalho. “Quando eu faço um doce para uma pessoa, eu fico feliz porque sei que ela vai gostar. É bom ver que aquilo que você fez deixou alguém satisfeito”, diz Roxsane.

Essa é justamente a proposta do projeto, que busca apresentar conceitos ligados à organização, responsabilidade e relacionamento com clientes. Os participantes aprendem a lidar com pedidos, planejar produções e apresentar seus produtos para potenciais compradores. Ao longo das oficinas, também são incentivados a divulgar o que produzem e conversar com potenciais clientes, aproximando o aprendizado da realidade do mercado.
Para a coordenadora de Emprego Apoiado e Autodefensoria da APAE, Fátima Dantas, o empreendedorismo representa uma das possibilidades de autonomia para pessoas com deficiência intelectual. Ela destaca que, após anos marcados por uma visão limitada sobre suas capacidades, cada vez mais essas pessoas buscam trabalhar, gerar renda própria e construir seus próprios projetos de vida.

Dois empreendimentos, um projeto de vida para inclusão
Maria Clara e Felipe transformaram talentos que nasceram ainda na juventude em negócios próprios. Ela encontrou uma profissão na confeitaria e, depois de anos de estudo e experiência no mercado, tornou-se proprietária da Doceria Além do Doce. Ele fez da paixão pela música uma carreira e hoje atua como DJ em eventos sociais, corporativos e institucionais em diferentes regiões do Brasil.
Conhecidos nacionalmente como Casal C21, Maria Clara e Felipe são empreendedores, têm síndrome de Down e compartilham a vida a dois, projetos, metas e o desejo de ampliar os próprios negócios. Casados e moradores de Vitória, eles construíram uma rotina baseada na autonomia, no trabalho e na busca por novas oportunidades.

A vocação empreendedora de Maria Clara surgiu cedo. Filha de empresários, cresceu acompanhando de perto o universo dos negócios. Ainda criança, produzia e vendia desenhos ao lado da irmã, Vitória. Anos depois, a paixão pela gastronomia falou mais alto. Formou-se na faculdade, trabalhou em uma doceria e decidiu dar um novo passo: tornou-se sócia do empreendimento onde atuava e, posteriormente, assumiu a empresa sozinha.

Hoje, a Doceria Além do Doce é sua principal fonte de renda e um espaço onde ela coloca em prática as receitas, estratégias para ampliar vendas, conquistar novos clientes e fortalecer a marca.
“Após me formar e trabalhar na área, percebi que havia chegado a hora de construir algo que fosse meu. Assumir a doceria foi a realização de um sonho e, ao mesmo tempo, o começo de uma nova etapa, com muitos desafios e aprendizados”, conta Maria Clara.
A história de Felipe com o empreendedorismo passou pela música. O interesse surgiu aos 15 anos, durante a própria festa de aniversário. Encantado com a estrutura montada pelo DJ que animava a comemoração, decidiu que também queria seguir aquele caminho. Formou-se pelo Senac e começou a atuar profissionalmente no mercado de eventos e shows.
“Meu trabalho é levar alegria para as pessoas. Cada evento é uma oportunidade de mostrar meu trabalho, conquistar novos clientes e crescer profissionalmente”, afirma Felipe.
Atualmente, DJ Felipão se apresenta em festas, encontros empresariais, eventos corporativos e ações institucionais. Cada novo contrato representa uma oportunidade de ampliar a presença no mercado e alcançar novos públicos.

Ao longo dos anos, os dois perceberam que suas histórias despertavam interesse e mensagens de pessoas que passaram a acreditar mais em si mesmas após conhecer a trajetória do casal ajudaram a ampliar os horizontes dos empreendedores.
Foi dessa experiência que nasceu o Projeto Casal C21. A iniciativa reúne ações voltadas para inclusão, autonomia e empreendedorismo e faz parte dos planos de expansão dos dois empresários. Entre os projetos em construção estão palestras, participação em eventos corporativos, produção de conteúdo e iniciativas voltadas à sensibilização de empresas e instituições sobre inclusão e diversidade.
Primeiro espaço do país voltado à inclusão de empreendedores
A atuação do casal ganhou novo impulso com a aproximação do Sebrae. Em abril deste ano, Maria Clara e Felipe participaram da inauguração da Agência Sebrae Plural, na Enseada do Suá, em Vitória, o primeiro espaço do país criado pela instituição com foco em diversidade, inclusão e acessibilidade.
Maria Clara participou da cerimônia como empreendedora. Felipe foi o responsável pela trilha sonora do evento, atuando como DJ. A presença dos dois simbolizou justamente o propósito da nova unidade: ampliar oportunidades para públicos historicamente sub-representados no ambiente de negócios.

Segundo o Sebrae/ES, a Agência Plural foi criada para atender empreendedores e futuros empresários em um ambiente preparado para acolher diferentes perfis da população, com atenção especial a mulheres, pessoas com deficiência, população negra, povos originários, comunidade LGBTQIAPN+, pessoas com mais de 60 anos e moradores de regiões em situação de vulnerabilidade.
Em pouco menos de dois meses de funcionamento, a unidade já registrou 395 atendimentos ao público e recebeu 308 participantes em eventos como palestras, oficinas e capacitações voltadas ao empreendedorismo.

A agência conta com recursos como atendimento em Libras, sala multissensorial para pessoas neurodiversas, tecnologias assistivas, sinalização acessível, mobiliário adaptado, brinquedoteca, espaço para amamentação e ambientes planejados para oferecer mais autonomia aos usuários.
Além da estrutura de atendimento, o Sebrae/ES também investe em capacitações, consultorias e iniciativas voltadas à inclusão produtiva. Entre as ações estão cursos de empreendedorismo inclusivo, desenvolvidos para atender diferentes perfis de empreendedores,espaços de debate e troca de experiências em eventos de inovação e negócios. Um dos exemplos é o Palco Plural, realizado durante o ESX 2025, encontro que reúne discussões sobre diversidade, acessibilidade e desenvolvimento econômico para inovação.
A proposta é ampliar o acesso a conhecimento, gestão e oportunidades de mercado para pessoas que, muitas vezes, encontram mais obstáculos para empreender. No Espírito Santo, a expectativa é que iniciativas desse tipo contribuam para o fortalecimento de novos negócios e para uma participação crescente de empreendedores PcD no ambiente empresarial.
Inovar para incluir
O empreendedorismo voltado à inclusão também tem ganhado espaço no Espírito Santo por meio de startups que transformam desafios enfrentados por pessoas com deficiência em soluções de negócio. Em vez de olhar apenas para as barreiras, empresas capixabas têm encontrado oportunidades para desenvolver produtos e serviços voltados à acessibilidade, educação inclusiva e empregabilidade.
Um exemplo é a Jade Autism, startup capixaba criada por Ronaldo Cohin. A ideia surgiu a partir de uma experiência familiar. Quando o filho dele foi diagnosticado com autismo, Ronaldo percebeu a dificuldade de encontrar ferramentas que ajudassem famílias e profissionais a acompanhar, de forma objetiva, o desenvolvimento de crianças neurodivergentes.

Com experiência em tecnologia e ciência de dados, ele decidiu transformar a inquietação em negócio. A proposta foi unir inteligência artificial, jogos e análise de dados para gerar informações capazes de auxiliar escolas, profissionais da saúde e familiares.
O caminho, porém, exigiu mais do que desenvolver uma plataforma tecnológica. Era preciso validar cientificamente a proposta e convencer o mercado de que a tecnologia poderia ser uma aliada da inclusão.
“Percebemos rapidamente que existia uma demanda enorme. As famílias buscavam ferramentas para compreender melhor o desenvolvimento das crianças e as escolas precisavam de soluções que ajudassem a personalizar o ensino”, afirma Ronaldo.

Hoje, a startup utiliza dados gerados durante atividades gamificadas para produzir relatórios que auxiliam no acompanhamento do desenvolvimento cognitivo e da aprendizagem.
Para o empreendedor, uma das principais barreiras ainda está na ideia de que crianças neurodivergentes possuem limites fixos de aprendizagem. “Muitas vezes a dificuldade não está na capacidade da criança, mas na ausência de ferramentas adequadas e de uma abordagem individualizada”, destaca.
A trajetória da Jade também mostra como negócios de impacto social podem ganhar escala. Criada no Espírito Santo, a empresa já alcança mais de 170 países e participa de projetos desenvolvidos no Brasil, Reino Unido, Portugal e Emirados Árabes Unidos.
Inclusão no mercado de trabalho
Outro exemplo capixaba é a Klumie, startup criada pela professora Janine Gomes da Silva. A empresa nasceu com a missão de ampliar as oportunidades de qualificação e inserção de pessoas surdas no mercado de trabalho.
A inspiração surgiu após uma experiência vivida em sala de aula. Em 2016, Janine recebeu um aluno surdo e percebeu que não estava preparada para atender adequadamente suas necessidades.

A situação provocou uma reflexão que mais tarde se transformaria em negócio. Ao lado da filha Estefânia, ela desenvolveu uma plataforma voltada para educação, recrutamento e desenvolvimento profissional de pessoas com deficiência auditiva.
Hoje, a Klumie mantém um banco de talentos, realiza orientação profissional, capacita candidatos e prepara empresas para receber esses profissionais de forma mais estruturada.

O trabalho inclui acompanhamento das contratações, treinamento de equipes e lideranças e até serviços de interpretação em Libras para reduzir barreiras de comunicação dentro das organizações.
A empresa também se tornou referência em acessibilidade dentro do ecossistema de inovação capixaba. Em eventos de grande porte, como o ESX, a startup atua oferecendo tradução simultânea em Libras e soluções voltadas à inclusão.

Para Matheus Benincá, subsecretário de Projetos Integrados da Secretaria da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional (Secti), o crescimento de negócios como Jade e Klumie acompanha uma transformação social mais ampla.
“O reconhecimento da sociedade e o entendimento sobre a neurodivergência criam demandas por adaptações e novas soluções. O ecossistema de inovação acompanha esse movimento e passa a olhar com mais atenção para pautas ligadas à inclusão e à acessibilidade”, afirma.
Segundo ele, incentivar startups que desenvolvem tecnologias e serviços voltados para educação inclusiva, acessibilidade e qualidade de vida é fundamental para ampliar oportunidades e garantir participação social. O potencial desse mercado também aparece nos números.

Empresas capixabas vêm encontrando espaço para inovar. Com cada vez mais inclusão e acessibilidade, temas sociais podem se tornar também espaço de empreendedorismo, tecnologia e geração de oportunidades para o público com deficiência.