Do forno de casa ao próprio negócio: bolos de fatia viram porta de entrada para empreendedoras no ES
Com baixo investimento inicial e produção caseira, confeiteiras capixabas transformam venda de fatias em fonte de renda e independência financeira

Julia Galter
O cheiro de bolo recém-assado que sai da cozinha de casa tem se transformado, cada vez mais, em fonte de renda no Espírito Santo. Em meio a um cenário de busca por autonomia financeira e novas oportunidades, os bolos vendidos por fatia deixaram de ser apenas uma tendência nas redes sociais para se consolidar como um modelo de negócio acessível.
É o caso da Dariliana, que começou a realizar “festivais de fatias” em seu próprio bairro. A ideia de vender os bolos de fatia surgiu após uma crise financeira. “Vi nas fatias a solução para me ajudar financeiramente”, contou.
Dary, do Delícias da Dary, já fazia bolos de aniversário para amigos e conhecidos, mas foi nessa virada de chave que a sobremesa virou fonte de renda. O negócio envolve ainda toda a família, já que ela conta com a ajuda dos filhos para transportar os bolos e entregar na casa dos clientes quando eles pedem delivery.

A história de Dary não é isolada. Segundo o Sebrae, o empreendedorismo feminismo tem crescido no Espírito Santo, e só em 2024, de acordo com o IBGE, mais de 206 mil mulheres já empreendiam no estado. No setor de alimentação, elas também são maioria: mais de 50% dos negócios no setor são liderados por mulheres.
Nesse contexto, o crescimento dos bolos vendidos por fatia encontra explicação tanto no comportamento do consumidor quanto na lógica de quem empreende. A proposta é simples: oferecer porções menores, com preço mais acessível e consumo imediato. Para quem vende, abre-se uma oportunidade de testar receitas, diversificar o cardápio e aumentar o volume de vendas.
Esse sucesso conversa muito com o momento do consumo: o cliente quer praticidade, preço acessível e uma experiência mais imediata

Lisandra Carneiro, Gestora do Sebrae Delas e Gestora de Afroempreendedorismo no Sebrae/ES, ainda destaca que as fatias permitem ao cliente experimentar sabores diferentes e consumir sem precisar levar um bolo inteiro. “Do lado do mercado, isso se encaixa num setor de alimentação que está aquecido e com forte presença de pequenos negócios e de liderança feminina, especialmente em formatos mais enxutos e flexíveis”.
A receita que conquistou Cariacica
Laila é outra confeiteira que apostou no sucesso dos bolos de fatia. A jovem vende os bolos em Cariacica, no bairro Campo Grande, e em determinado dia, se deparou com uma fila gigantesca para comprar seus bolos. O sucesso foi imediato!
Hoje, Laila acumula mais de 40 mil seguidores no Instagram, já deu entrevistas para diversos veículos jornalísticos do Espírito Santo, se encontrou com o ex-Governador Renato Casagrande e se tornou referência nesse tipo de doce, inspirando diversas mulheres.

A empreendedora conta que as fatias são produzidas na sua própria cozinha, que agora é um espaço separado somente para os bolos. Ela ainda produz tortas e empadão.
Os valores variam entre R$15 e R$ 25, e o bolo retrô é o nosso sabor mais procurado, pois é único, um sabor só meu
Além da praticidade, o baixo investimento inicial também impulsiona esse tipo de negócio. A confeitaria, especialmente em pequena escala, permite começar dentro de casa, com estrutura reduzida e produção sob demanda. Em muitos casos, o primeiro passo acontece de forma informal, até que a atividade ganha frequência e passa a exigir organização.
Mas é aí que surgem desafios. Para o Sebrae, organizar custos, manter o padrão de qualidade, realizar a precificação correta e garantir boas práticas de manuseio dos alimentos, por exemplo, podem ser impasses enfrentados pelas empreendedoras. Isso porque, muitas vezes, o cálculo do valor de venda considera apenas os ingredientes, deixando de fora despesas como energia, gás, embalagem, transporte e o próprio tempo de trabalho. O resultado pode ser um negócio que vende bem, mas não gera lucro real.

Dary, por exemplo, conta que ainda não é MEI, mas pretende expandir o negócio e formalizar. “Meu objetivo não é só vender bolos, mas crescer, conquistar meu espaço e transformar isso em algo cada vez maior. Cada fatia vendida é um passo importante para realizar meus sonhos”, contou a confeiteira.
Segundo o contador Guilherme Oliveira, o ideal é buscar a formalização a partir do momento em que o negócio deixa de ser eventual.
Quando a pessoa já vende com frequência, divulga, recebe encomendas e quer crescer com mais segurança, esse é um bom momento para abrir o MEI. A formalização ajuda a emitir nota fiscal, acessar crédito, abrir conta PJ e atuar com mais tranquilidade
Para quem começou com uma forma de complementar a renda, o que antes cabia apenas no forno de casa agora ganha novos significados e alimenta sonhos, e o empreendedorismo encontra espaço onde, até pouco tempo atrás, havia apenas uma cozinha.