Do talento ao sustento: mulheres transformam habilidades em autonomia e reescrevem a própria história
Entre luto, maternidade e identidade, histórias de empreendedoras mostram como saberes cotidianos se transformam em independência financeira e mudam a realidade de famílias no Espírito Santo
195 mil mulheres estão à frente dos próprios negócios, o equivalente a um terço dos empreendedores no estado (Imagem: Gabriella Guerra)
Gabriella Guerra
O número de mulheres que encontraram no próprio talento uma forma de gerar renda nunca foi tão alto no Brasil. Em 2025, o país chegou à marca de 10,4 milhões de empreendedoras, o maior patamar da série histórica, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). No Espírito Santo, esse movimento também se consolida: são cerca de 195 mil mulheres à frente de negócios, o equivalente a um terço dos empreendedores no estado.
Mais do que um indicador econômico, o crescimento revela mudanças silenciosas dentro de casa, onde atividades antes vistas como complemento passaram a sustentar famílias inteiras. Em muitos casos, empreender não surge de uma oportunidade planejada, mas da necessidade de continuar.
A dificuldade de conciliar trabalho e cuidado com os filhos, a perda de um provedor ou os obstáculos de inserção no mercado formal fazem com que habilidades aprendidas ao longo da vida, como cozinhar, costurar ou trabalhar com estética, se transformem em alternativa de sobrevivência e autonomia financeira.
Entre o luto e a reinvenção
Para Vivian Brandão, a costura deixou de ser apenas parte da rotina e passou a representar uma forma de sustento após a morte do marido, há quase três anos. Mãe de Alex, de 19 anos, Sarah, de 16, e Ian, de 8, ela viu a atividade que antes funcionava como complemento ganhar um novo significado: garantir o orçamento da casa e o cuidado com os filhos.
“Eu não trabalhava por um salário há muitos anos. Quando me vi nessa situação, precisei me dedicar com mais afinco”, conta. A mudança veio acompanhada de um processo emocional intenso, vivido dentro de casa. “Eu enfrentava um luto onde eu não podia chorar, porque precisava consolar meus filhos todos os dias”
Vivian Brandão ao lado dos filhos Alex, Sarah e Ian; após ficar viúva, encontrou na costura uma forma de reorganizar a renda da família (Arquivo pessoal/Vivian Brandão)
Sem tempo para pausas, ela precisou reaprender a trabalhar, reorganizar a rotina e assumir uma nova posição dentro da família.
Hoje, mesmo contando com a pensão, a costura segue como parte importante da renda familiar. Trabalhando com artesanato há cerca de 16 anos e, mais recentemente, com a produção de collants de competição, ela encontrou uma forma de manter o fluxo de encomendas e garantir estabilidade financeira. Entre as peças confeccionadas por Vivian estão os collants usados pela filha Sarah, de 16 anos, em competições de ginástica rítmica, uma forma de transformar trabalho, cuidado e incentivo em um mesmo gesto.
Todos os dias são um recomeço, diz Vivian Brandão
Vivian Brandão trabalha com costura, pijamas, máscaras, collants de competição, inclusive os usados pela filha, Sarah, durante apresentações e torneios. Atividade que se tornou parte importante da renda familiar (Arquivo pessoal/Vivian Brandão)
Histórias como a de Vivian ajudam a explicar o crescimento consistente do empreendedorismo feminino no país. Segundo a gestora do Sebrae, Lisandra Carneiro, mais da metade das mulheres empreendedoras também são chefes de família, o que reforça o papel desses negócios na manutenção de milhares de lares. “Em dez anos, o empreendedorismo feminino cresceu 27%, em ritmo superior ao dos homens”, destaca.
Maternidade, rotina e sobrevivência
Mãe solo de três filhas, Ana Rogéria encontrou na produção de doces uma alternativa para equilibrar trabalho e maternidade. Diferente de uma escolha planejada, empreender surgiu como uma necessidade imediata
Sem rede de apoio e com as filhas ainda pequenas, ela precisou construir uma rotina capaz de dar conta de tudo.
Antes de empreender, trabalhava como vendedora e conciliava os horários das crianças entre a creche, no período parcial, e uma escolinha particular, onde permaneciam no outro turno. Quando começou a vender doces, reorganizou novamente a rotina para conseguir trabalhar e acompanhar as filhas.
Empreender foi a única opção, afirma Ana Rogéria
Ana Rogéria transformou a produção de doces na principal fonte de sustento da família (Arquivo pessoal/Ana Rogéria)
O início foi marcado pela informalidade e pela falta de acesso à capacitação. “Na época não existiam cursos como hoje. Eu passava horas e noites tentando aprender coisas novas”.
O negócio cresceu aos poucos, impulsionado pela prática e pela necessidade. O ponto de virada veio quando percebeu que a renda obtida com os doces havia se tornado suficiente para sustentar a casa.
“Comecei pagando algumas contas e, no final, quando já arcava com todas, entendi que aquilo sustentava minha casa”.
Hoje, após 11 anos de atuação, a produção de doces se consolidou como principal fonte de renda da família, com vendas por encomenda e comercialização direta. Mesmo diante das dificuldades enfrentadas ao longo do caminho, ela reconhece as transformações que viveu. “Minha vida mudou muito. Cresci como ser humano, aprendi a lidar com as pessoas e com as frustrações”. A motivação permanece dentro de casa. “Minhas filhas sempre me deram força pra ser melhor”.
Produção de doces por encomenda se tornou a principal atividade econômica desenvolvida por Ana Rogéria (Arquivo pessoal/Ana Rogéria)
Quando o talento vira profissão
Nem sempre o empreendedorismo nasce da urgência. Para Isabelly Lenzi, o caminho surgiu da identificação com um talento desenvolvido ainda na infância. Aos 10 anos, ela passou a aprender tranças assistindo a vídeos na internet. O que começou como aprendizado informal se transformou, com o tempo, em profissão.
Isabelly Lenzi realiza tranças afro em clientes; talento desenvolvido ainda na infância e transformado em profissão. (Arquivo pessoal/Isabelly Lenzi)
“Aos 14 anos, uma amiga me fez enxergar que aquilo poderia ser um trabalho como qualquer outro”, conta.
O crescimento aconteceu de forma gradual, acompanhado pelo aumento da clientela e pelo reconhecimento do trabalho. Um dos passos mais importantes foi a saída do atendimento domiciliar para um espaço próprio, ampliando a capacidade de atendimento e a independência financeira.
Hoje, o negócio funciona com base na demanda de clientes, permitindo ganhos proporcionais ao volume de atendimentos e à especialização do serviço. Mais do que uma atividade econômica, o trabalho também carrega um significado cultural.
As tranças têm origem ancestral africana e representam resistência, história e expressão cultural, explica Isabelly Lenz.
Essa dimensão também aparece na relação com as clientes. “Muitas procuram não só pela estética, mas pela autoestima e representatividade”. Para ela, viver do próprio talento é sinônimo de autonomia. “É saber que o que me sustenta vem do meu esforço e da minha dedicação”.
Além da estética, Isabelly destaca o valor cultural e identitário das tranças afro no atendimento às clientes (Arquivo pessoal/Isabelly Lenzi)
O apoio para transformar ideias em negócio
Apesar do crescimento do empreendedorismo feminino, os desafios ainda são estruturais. O acesso a crédito, a renda média inferior à dos homens e a sobrecarga com tarefas domésticas continuam sendo barreiras significativas. Segundo o Sebrae, muitas mulheres enfrentam uma dupla ou até tripla jornada, o que impacta diretamente no tempo disponível para desenvolver o negócio.
Mesmo assim, pequenos empreendimentos liderados por mulheres têm impacto direto na economia local. Eles geram renda, movimentam o comércio e, em muitos casos, sustentam famílias inteiras.
Nesse contexto, o apoio institucional tem papel fundamental. O Sebrae atua com capacitações, consultorias, orientação para acesso a crédito e programas específicos voltados ao empreendedorismo feminino, como o Sebrae Delas, que busca fortalecer negócios liderados por mulheres em diferentes estágios. Para Lisandra Carneiro, gestora do Sebrae, informação e capacitação são fatores importantes para fortalecer negócios liderados por mulheres e ampliar a segurança das empreendedoras.
A principal orientação é não esperar estar com tudo perfeito para começar, mas começar com planejamento, afirma Lisandra.
Lisandra Carneiro, gestora do Sebrae, acompanha ações de incentivo ao empreendedorismo feminino no Espírito Santo (Arquivo pessoal/Lisandra Carneiro)
Mais do que uma tendência econômica, o avanço do empreendedorismo feminino revela uma transformação social em curso. Quando uma mulher passa a gerar renda, o impacto ultrapassa o negócio e alcança toda a estrutura familiar.
No dia a dia, isso se traduz em movimentos quase invisíveis: uma máquina de costura ligada por horas, receitas sendo testadas entre uma tarefa e outra, mãos que trançam cabelos enquanto constroem independência.
São histórias que começam com o que está disponível: uma habilidade aprendida em casa, um talento desenvolvido na infância ou uma necessidade urgente, e que, pouco a pouco, se transformam em autonomia, sustento e futuro.
Por trás dos números do empreendedorismo feminino, existem trajetórias marcadas por recomeços silenciosos. Mulheres que transformaram habilidades do cotidiano em sustento, autonomia e reconstrução. Entre tecidos, doces e tranças, elas reconstruíram a própria realidade e provaram que empreender, muitas vezes, é também uma forma de resistir. No Espírito Santo, histórias como as de Vivian, Ana Rogéria e Isabelly mostram que, quando uma mulher encontra no próprio talento uma possibilidade de sustento, ela não movimenta apenas a economia: ela reescreve o futuro da própria família.