Cuidar do cabelo crespo e cacheado ainda é privilégio?
Mulheres negras relatam o aumento de gastos para manter cuidados básicos na rotina capilar

Vitória Rodrigues
Quando pensamos na história do cuidado do cabelo crespo e cacheado, achamos que envolve somente a luta pela resistência da utilização do cabelo natural. Mas também inclui a autoestima, o cuidado e a identidade da mulher preta.
A pioneira
A história da valorização do cuidado capilar se tornou significante atravésda empresária afro-americana e filha de escravizados, Madam C.J. Walker.

Ela revolucionou a história dos cosméticos quando lançou um produto para tratar dos próprios fios danificados. A inovação aconteceu por conta da queda de cabelo, um problema comum entre moças negras da época, por falta de produtos adequados.
Madam passou a estudar cuidados capilares e desenvolveu produtos próprios. Com esforço, criou uma linha de cosméticos voltada para cabelos crespos e cacheados e fundou sua empresa no ano de 1910, a Madam C. J. Walker Manufacturing Company.
Com o sucesso dos produtos ela ajudou as mulheres negras a cuidarem do próprio cabelo com dignidade e se tornou milionária nos Estados Unidos.
No Brasil
No território nacional, Zica Assis, empresária brasileira, transformou a forma como o cabelo crespo é visto no país. Nascida no Rio de Janeiro, ela cresceu em um contexto de dificuldades e, desde jovem, sofreu com a falta de produtos adequados para seu tipo de cabelo.
No começo, foi atraída para o alisamento, mas, incomodada, começou a testar receitas caseiras. Finalmente, ela desenvolveu um tratamento que valorizava os cachos naturais e em 1993, fundou o Instituto Beleza Natural. Era um salão especializado para crespas e cacheadas, que se tornou um grande sucesso de valorização e autocuidado da mulher afrodescendente.

Apesar dessas contribuições, os produtos destinados a esses tipos de fios, carregam um alto custo para o consumo diário, sendo de difícil acesso paraa população brasileira, em que a maioria são negros e pobres. Mais de 70% das pessoas vivendo na pobreza ou extrema pobreza são pretas ou pardas, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
Quanto custa cuidar do cabelo crespo e cacheado?
A blogueira e analista operacional Lilian Pena, 26, afirma que gasta, em média 200 reais por mês, em produtos de cabelo, porém, de linhas mais acessíveis. Ela diz que, se consumisse cosméticos de marcas de boa qualidade mensalmente, sairia mais caro, a partir de 400 reais, um valor alto para quem recebe apenas um salário mínimo por mês.

Hoje máscaras eficientes para a curvatura crespa estão em torno de R$40, 100g. Os produtos que de fato cumprem o que prometem são caros e possuem a quantidade baixa. Sendo assim, precisamos sempre recomprando
Por que manter a hidratação pesa tanto no bolso?
De acordo com a estudante de Ciências Sociais Midiã Pereira Soares, 18, o cabelo crespo tem uma curvatura delicada e na maioria das vezes, os dios afros são propensos ao ressecamento e isso exige total cuidado. Ela afirma que existem muitos produtos de grande qualidade ou até mesmo qualidade mediana que ainda auxiliam, porém são sempre os mais caros.

‘Um creme que vai dar textura, definição e brilho com maior qualidade sempre será o mais caro
Midiã acredita que manter um cabelo crespo, como o dela, requer dinheiro, visto que produtos, necessitam de recursos financeiros para. Com isso, a rotina e o cuidado desses tipos de cabelos requerem etapas que vão muito além do básico, levando ao gasto de produtos para tipos de curvaturas de fios específicos.
Tranças são soluções ou luxo?
As tranças e outros penteados protetores surgem como alternativas práticas, que reduzem a manipulação dos fios e ajudam na manutenção. Além disso, carregam um forte significado identitário, representando a resistência e a ancestralidade da cultura preta. Entretanto, a estudante de empreendedorismo Juliana Pompeu, 18, afirma que o único custo que ela possui com os penteados é com o material, pois há parentes que são trancistas. Juliana entende que essa não é a realidade da maioria das moças negras, o que dificulta a utilização deste símbolo de beleza e empoderamento para a mulher preta.


Lilian Pena, que também exerce a profissão de trancista, diz que hoje em dia o trabalho tem sido valorizado, mas, o custo não é acessível para todos. Muitas vezes o valor de uma trança é o mesmo que de uma compra para o mês, custando em torno de 250 a 900 reais a mão de obra, mais a manutenção que vai de 80 a 300 reais, dependendo do que vai ser ajustado.
Eu por exemplo aprendi a trançar meu cabelo por falta de recursos financeiros, que tocavam diretamente na minha autoestima em posição de mulher negra e crespa
A rotina capilar exaustante
A manutenção do cabelo crespo exige permanência. Hidratações semanais, finalizações diárias e cuidados com o couro cabeludo fazem parte de uma rotina que não pode ser interrompida sem comprometer a saúde dos fios.
A jovem Ana Letícia Calazans, 18, afirma que cuidar do cabelo crespo requer constância e qualidade. Ela acredita que para uma pessoa que trabalha, fica um pouco complicado ter esse tempo para cuidar dos fios de maneira correta, e ainda tem a questão dos produtos que apesar de ter opções mais baratas, eles não funcionam para todos os tipos de cachos, levando mais tempo para finalização.
Para Ana, uma pessoa que não tem tantos recursos financeiros tem que “se virar”, e que muitas delas não aprendem a cuidar do cabelo desde cedo e acabam achando ele “ruim” ou “difícil” de manuseá-los, optando pelo alisamento. A jovem, afirma que ter tempo para zelar pelos cachos, é um privilégio.

Eu desde pequena achava meu cabelo muito difícil e sempre achava lindo cabelo liso e quando pesquisei mais sobre cabelo cacheado, entendi que sempre cuidei errado do meu cabelo e tive longos 2 anos para entender ele. O problema é que são muitos produtos que são usados, e com muitos gastos, acaba sendo um privilégio cuidar dele
Por que o acesso ao cuidado ainda é desigual?
O custo da rotina capilar evidencia desigualdades sociais profundas. Em um país marcado por disparidades de renda, nem todas as pessoas conseguem arcar com os gastos necessários para manter o cabelo saudável, e isso, se soma ao preconceito histórico contra cabelos naturais. Como resultado, muitas mulheres enfrentam pressão para se adequar a padrões que não as representam, ao mesmo tempo em que têm menos condições de investir em cuidados que valorizem sua própria identidade.
A estudante de jornalismo Tamires Pereira, 18, aborda que as vezes o cabelo crespo e cacheado, passam por coisas que é necessário mais investimento, que são um pouco mais caros, e nem todo mundo tem condição de pagar. E ela acrescenta, que isso é um privilégio, porque muitas mulheres não compreendem como cuidar disso, e na maioria desses casos, é por conta do racismo que elas sofrem, afetando a autoestima e causando um desânimo de cuidá-lo.

Recentemente passei pela transição capilar e abandonei a química/relaxamento de raiz de vez. Foi um processo um pouco difícil, tinha dias que meu cabelo realmente precisava de uma atenção a mais e muitas vezes já me atrasei pra compromissos por conta disso. Foi um processo que se eu não tivesse o apoio de família e amigos, o que também é muito importante, e ajuda demais. E também, se não tivesse certeza sobre isso, independente de todo e qualquer preconceito, eu teria desistido no meio do caminho. Mas ainda que isso não aconteceu, estou muito feliz e satisfeita com o resultado do meu cabelo agora. Na verdade, sempre fui, mais agora ainda.
Essa limitação impacta diretamente a autoestima e a liberdade de escolha, já que o cuidado passa a depender das condições financeiras. O cabelo crespo carrega um histórico de marginalização, resultado de padrões de beleza eurocêntricos que, por muito tempo, desvalorizaram características naturais da população negra. Embora haja avanços na valorização da estética negra, o acesso ao cuidado ainda reflete desigualdades raciais.