Quando o talento culinário vira profissão
Entre dificuldades e oportunidades, mulheres constroem negócios na cozinha e ganham espaço no mercado capixaba

Ana Clara da Cruz
Talento, segundo o dicionário Aurélio, é a aptidão natural ou adquirida, engenho e habilidade que condiciona o êxito em determinada atividade. Na cozinha, essa habilidade, que para muitos faz parte apenas da rotina doméstica, tem se transformado em fonte de renda e oportunidade de negócio para diversas mulheres. Ao transformar receitas, saberes familiares e criatividade em produtos, elas encontram no empreendedorismo uma forma de inserção no mercado, fortalecendo também o comércio local e a economia.
A gastróloga Vivian Musso, 32 anos, relata que sempre teve interesse pela gastronomia, mas foi após trancar o curso de Direito que decidiu iniciar a carreira na cozinha. Vivan comenta que, devido a um problema de coluna, a produção começou em casa, com pequenas encomendas. Durante a pandemia, os pedidos aumentaram e a elaboração das mesas de entrada ganharam destaque entre os clientes. Com o aumento da demanda, o buffet foi se estruturando e hoje a empresária conta com uma equipe de seis pessoas.

A empreendedora Isabela Santana Geremias, 26 anos, conta que começou a empreender após ser demitida do restaurante em que trabalhava, quando encontrou na venda de brownies uma oportunidade de gerar renda. Isabela conta que adquiriu a produção de uma marca já existente, aprendeu as receitas e herdou os clientes. No início, vendia nas ruas, em lojas e na faculdade, até que, durante a pandemia, com a impossibilidade das vendas presenciais, ela passou a investir no delivery. Foi nesse período que percebeu a consolidação do trabalho como um negócio formal.

Os desafios de empreender também fazem parte da trajetória. Vivian destaca que conquistar espaço no mercado e organizar financeiramente o negócio foram etapas difíceis, exigindo planejamento, autoconfiança e fortalecimento da mentalidade. Já Isabela explica que, quando abriu o espaço físico precisou enfrentar empecilhos como burocracias, formalização, contratação de contador. Apesar das dificuldades, histórias como essas reforçam a importância de valorizar o comércio local, que sustenta o empreendedorismo e a economia da comunidade.
O economista Gustavo Nunes, 24 anos, afirma que prefere consumir produtos alimentícios em comércios locais pela experiência mais próxima e personalizada. Gustavo afirma que a presença dos próprios donos, que conhecem os produtos e conversam com os clientes, torna a compra mais gratificante quando comparada à realizada em supermercados. Nunes destaca ainda que fortalecer empreendimentos locais liderados por mulheres é fundamental, pois esse apoio contribui para a geração de renda, movimentação da economia local e autonomia financeira.
Empreendedorismo Culinário
Para a consultora do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Liana Almeida de Figueiredo, 57 anos, o empreendedorismo culinário contribui diretamente para a autonomia financeira das mulheres. Liana afirma que além de gerar renda, o trabalho fortalece a autoestima e permite que muitas mulheres tenham independência para tomar decisões, sem depender financeiramente de terceiros, promovendo também o fortalecimento pessoal e profissional.
A professora orienta ainda que mulheres que querem começar nesse ramo devem buscar capacitação e planejamento antes de iniciar o negócio. Entre as recomendações, ela destaca a importância de procurar apoio do Sebrae, que oferece cursos e orientação, além de planejamento financeiro, identificação do público-alvo e análise das habilidades que podem ser transformadas em negócio.