De Kafka a Dostoiévski: 5 livros gratuitos do MEC que valem muito a pena ler
Aplicativo e site do governo disponibilizam mais de 8 mil obras literárias

Guilherme Trindade
O MEC Livros foi oficialmente disponibilizado neste mês de abril, pelo Ministério de Educação (MEC), com a promessa de promover a democratização da literatura no Brasil. O aplicativo conta com mais de 8 mil obras literárias nacionais e internacionais disponíveis gratuitamente e de forma online.
O app funciona como uma biblioteca digital, em que qualquer um pode realizar o empréstimo de um livro por vez durante 14 dias. O novo empréstimo só é autorizado após a devolução do título anterior. O acesso é público e livre, com a leitura ocorrendo na plataforma via login gov.br, tanto no aplicativo do MEC Livros, quanto no site oficial do serviço: https://meclivros.mec.gov.br/
São 1,2 mil lançamentos e best-sellers, que poderão alcançar 224 mil empréstimos anuais e 18.600 mensais. Também são ofertados 3.600 títulos longsellers, que podem ser lidos por 1,4 milhão de pessoas anualmente, além de mil obras com empréstimos ilimitados. O serviço traz, ainda, 2 mil obras do acervo do domínio público.
O catálogo de títulos é diverso: vai desde autores clássicos da literatura brasileira, como Machado de Assis e Lygia Fagundes Telles, até escritores modernos internacionais, como Edouard Louis e Han Kang. O objetivo da diversidade, de acordo com o MEC, é garantir que o material seja útil tanto na sala de aula quanto para o lazer dos leitores.
Sugestões de Leitura
A seguir, veja indicações de 5 livros disponíveis tanto no aplicativo do MEC Livros, quanto no site oficial do serviço.
A Cabeça do Santo (Socorro Acioli)

A Cabeça do Santo é um livro que conta a história de Samuel, um rapaz que, ao se abrigar dentro da cabeça oca gigante de uma estátua de santo, começa a escutar orações das mulheres da cidade. O santo em questão é Santo Antônio, conhecido como o “santo casamenteiro”, protetor dos pobres, dos milagres e padroeiro de coisas perdidas. Samuel, então, vira o “casamenteiro” da pequena cidade, neste livro escrito por Socorro Acioli, e publicado em 2014.
O livro se encaixa no “realismo mágico”, gênero popularizado por Gabriel Garcia Márquez, no qual o real e o mágico se misturam. Socorro Acioli apresentou a ideia da obra para o próprio Gabriel, em uma oficina de literatura. Acostumado com a magia, o autor se surpreendeu quando Socorro disse que a Cabeça de Santo era real e se localizava em Caridade, no Ceará. A única coisa que a escritora inventou foi o rapaz que ouvia as orações.
A história conduz o leitor junto da emocionante saga de redenção de Samuel, em busca de realizar o último desejo de sua falecida mãe, ao mesmo tempo que diverte com orações e pedidos hilários ouvidos pelo rapaz dentro da cabeça do santo. A obra agrada a todos os públicos, convencendo até o mais descrente dos leitores a fazer uma oração para esse santo milagreiro.
Lutas e Metamorfoses de uma Mulher (Édouard Louis)

Édouard Louis é um jovem autor francês, de apenas 33 anos, que escreve livros autobiográficos. Seus textos, crus e políticos, carregam uma profunda crítica social, vindo da vivência do escritor na luta contra a homofobia e a violência de classes.
No livro Lutas e Metamorfoses de uma mulher, de 2021, Édouard conta a história de libertação da mãe, Monique, que teve a vida transformada aos 45 anos, ao abandonar o marido possessivo. A mãe “lutava pelo direito de ser mulher contra a não existência que lhe impunham” e tinha dificuldades de conjugar verbos no futuro, vivendo só de passado.
Como toda maternidade, as histórias de mãe e filho se misturam, e Édouard conta, através da mãe, sua própria metamorfose. Escrever sobre a própria vida, para ele, é “escrever contra a literatura”, pois tudo o que o autor deseja é contar “a mesma história, de novo e de novo, voltar a ela até que revele fragmentos da sua verdade”. Por meio da história de Monique, as verdades dos leitores também podem vir à tona.
A Metamorfose (Franz Kafka)

“Quando certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Com essa frase, Kafka escreveu talvez o início mais poderoso da história da literatura. O leitor já entende o que aconteceu, sem porquês, indo direto ao ponto. Qual seria a reação de uma pessoa ao acordar transformada em um inseto monstruoso? Chorar, gritar, espernear, correr, implorar por socorro? O personagem Gregor Samsa simplesmente se preocupou porque chegaria tarde ao trabalho.
Publicado em 1915, o livro do autor austro-húngaro tinha semelhanças gritantes com a vida real de Kafka. Assim como Gregor Samsa, ele era um rapaz absorto em seu odioso trabalho e pressionado pela sua família – principalmente pelo pai. A história pode ser lida como um grande pano de fundo para a relação que ele tinha com essa figura autoritária e fria. Tanto o inseto gigante quanto Kafka lidavam com o desprezo paterno, tendo o autor relatado, em outras obras, sentir-se um “verme” por conta do tratamento do pai.
Há interpretações que dizem que Gregor Samsa nunca foi literalmente um inseto, mas apenas sofria de um burnout por conta do trabalho. Segundo amigos próximos, o autor nem queria que a capa do livro tivesse a imagem de um inseto, pois, para ele, a obra era extraordinariamente humana. Até hoje, as editoras não atendem ao pedido, mas, no fim, pouco importa. Franz Kafka conseguiu escrever uma história que traz a sensação de um sonho febril, se sentindo um mero “inseto monstruoso”. Isso o tornou um dos mais importantes autores da literatura – embora tenha morrido sem saber disso.
A morte de Ivan Ilitch (Liev Tolstói)

Ivan vivia a vida do jeito que mandava o manual da felicidade. Havia passado em um concurso público, casado com uma linda mulher que o amava, tido filhos que passassem sua linhagem para o futuro, conseguiu promoções e um bom salário. Quando tudo parecia tranquilo, Ivan descobre uma doença terrível e terminal, apesar de todas as suas conquistas. Só aí, ele começa a refletir sobre as escolhas feitas ao longo de sua existência, percebendo que nunca havia encontrado a felicidade.
Em uma das passagens mais marcantes da novela, Tolstói escreve:
“Caio é uma pessoa. As pessoas são mortais. Portanto, Caio é mortal”. Parecera-lhe, durante toda a vida, correto em relação a Caio. Caio era uma pessoa, uma pessoa comum, e isso era perfeitamente justo; mas Ivan não era Caio nem uma pessoa comum.
Publicado em 1886, A morte de Ivan Ilitch é uma excelente porta de entrada para os clássicos russos. Curto, de linguagem acessível e potente, a novela aborda emoções intrínsecas do ser humano, independente do tempo.
Noites Brancas (Fiódor Dostoiévski)

A obra, lançada em 1848, fala sobre um homem chamado de “Sonhador”, que se apaixona por uma garota que ainda ama o ex-namorado. Este jovem é solitário, vive de sonhos e devaneios, e busca desesperadamente um romance; é em Nástienka que ele vê a oportunidade para tal.
O livro foi escrito no início da carreira de Fiódor Dostoiévski, quando o autor ainda era romântico e sentimental. A obra foi produzida antes de sua prisão transformadora na Sibéria, mas ainda é possível encontrar os aspectos característicos do autor: a melancolia filosófica, a poesia, a introversão e os sentimentos que só Dostoiévski consegue traduzir.
Acima de tudo, o livro é uma carta de amor à cidade de São Petersburgo, na Rússia. “Noites brancas” é como se chama o fenômeno natural no início do verão (meados de maio a meados de julho), causado pela alta latitude da cidade, onde o sol não se põe totalmente e o céu permanece claro mesmo de madrugada. A cidade, no livro, é um dos personagens principais.
Excelente primeiro livro para ser lido do autor, a obra tem linguagem simples, uma história romântica, filosófica, melancólica e até engraçada. Dostoiévski segue sendo um daqueles autores que muita gente considera leitura obrigatória e Noites Brancas é a melhor porta de entrada.
Boa leitura!