Dublagem brasileira: Arte que resiste em meio a desafios na sociedade
Vozes marcantes relatam suas experiências no mercado de dubladores

Vitoria Rodrigues
A profissão de dar vozes a personagens tem o papel muito importante na indústria artística brasileira: democratizar o acesso à informação, cultura e diversão. Pessoas com dificuldade para ler e escrever, passam a ter a oportunidade de acessar conteúdo audiovisual e assistir a obras cinematográficas em língua portuguesa.
A dublagem chegou ao país na década de 30 com o filme Branca de neve e os sete anões, que contou com a participação dos cantores Dalva de Oliveira e Carlos Galhardo como dubladores. A partir de um rompimento de barreiras, os filmes que eram somente exibidos com legendas, passam a ser dublados nos anos 60, através da autorização do presidente Jânio Quadros.
Baseado nisso, essa arte ganhou espaço e reconhecimento pela capacidade de transmitir sentimentos e personalidade aos personagens por meio da fala.
Mas será que a dublagem ainda é valorizada atualmente?
A dubladora e empresária Beatriz Rodrigues, 33, dona das vozes de Regina George em Meninas Malvadas: O Musical, Joan Hannington em Joan, Ceylin em Yargi e outras personagens, declara que a dublagem tem passado por uma certa decadência.
Esse fator tem sido gerado pela falta de dubladores que antes eram referência no ofício. Há diversos motivos, como a expansão do mercado e a carência de capacidade de alguns profissionais em executarem bem a profissão. Para a empresária, grandes atores de voz que não têm como ser repostos pela má qualidade de escolas de formação.
Hoje, ela sente que quem chega à dublagem é mais pela ‘‘gourmetização’’ da profissão do que pela paixão pela arte. Não há o desejo de fazer algo extraordinário por meio de um dom.
Mesmo sorridente, Beatriz considera que hoje a dublagem não tem prazos realistas, “tudo é para ontem”.

‘‘Um filme que antes tínhamos um mês pra dublar, hoje temos uma semana. Sinto que estamos caminhando sempre pra uma piora. E talvez isso colabore para essa sensação de desvalorização.’’
A relação do público com a dublagem
O ato de dar a própria voz para interpretar personagens utilizando a língua materna de uma população, disponibiliza acessibilidade de se poder assistir a qualquer a obra no idioma do próprio país. Assim, os profissionais de dublagem mantêm uma relação com a sociedade.
Mesmo com esse benefício, os trabalhadores da área enfrentam dificuldades com o público. Essa é a opinião da atriz, cantora, dubladora, ex-locutora e YouTuber Michelle Giudice, 31, conhecida por ser a dubladora oficial da atriz norte-americana Dove Cameron, famosa por atuar em várias obras do Disney Channel. Para ela, o público deveria buscar refinar o senso crítico, ouvir dubladores conceituados, além de perguntar sobre aspectos técnicos, bastidores e trajetórias profissionais. Dessa forma, o público pode enxergar a dublagem de forma mais crítica.

‘’Acompanhar bons profissionais, comentar sobre dublagens bem-feitas… Esse é o primeiro passo para valorizar: mostrar aos distribuidores que o público está prestando atenção e avaliando a qualidade.’’

Beatriz e Michelle têm o mesmo pensamento. Elas acreditam que o Brasil é responsável por dublagens icônicas que transformaram séries e filmes não tão expressivos lá fora em grandes sucessos nacionais. Exemplos disso, é a série Chaves, que tem uma relevância maior no Brasil do que no México, Todo mundo odeia o Chris, Eu, a patroa e as crianças e As Branquelas.
Elas afirmam que, em um país que sempre entregou tanto para o público, hoje não se recebe mais o mesmo padrão de excelência, e os espectadores estão aceitando qualquer coisa.
Beatriz acha que o público não deveria aceitar dublagens de qualidade duvidosa, mas as pessoas estão se acostumado a receber menos.
A Inteligência Artificial pode ser uma ameaça à profissão?
O uso da IA para realizar dublagens tem se tornado pauta em diversas redes sociais, sendo uma delas utilizada como forma de criticar o uso da tecnologia para substituir vozes de dubladores profissionais.
Em 2024, foi realizado um protesto no Instagram, na conta @dublagembra, pedindo para que as pessoas não consumissem conteúdos dublados gerados pela inteligência artificial, sob alegação de que os trabalhadores da área não podem ser silenciados.

O ator e dublador Daniel Pim, 22, famoso por dar a voz ao personagem Lucas, da série Stranger Things, brinca ao dizer que, enquanto ele for vivo, a IA não se tornará uma ameaça ao seu trabalho. Mas, segundo ele, é difícil afirmar o que pode acontecer nos próximos anos.

‘‘Hoje apesar de já termos vozes, personagens e tudo feito com IA, ainda é perceptível o tom robótico na voz, percebe-se a falta de humanidade na ação e assim elas não desempenhariam um trabalho bom como os de dubladores humanos.’’
Caso Clécio Souto: A invisibilidade na dublagem brasileira
Clécio Souto, dublador, 59, a voz que deu vida ao Capitão América de Chris Evans, a Thomas Shelby em Peaky Blinders, a Damon Salvatore em The Vampire Diaries e a Castiel em Supernatural, publicou uma carta de despedida nas redes sociais no dia 29 de março.
O artista, escreveu que estava doendo demais continuar e que a solidão, as dívidas e a escassez de trabalho o estavam consumindo, declarando que nunca havia sido feliz e que queria buscar a própria paz.
A publicação teve um grande alcance de visualizações, mobilizou fãs e profissionais da dublagem em todo o país.
Felizmente, o artista foi socorrido a tempo e levado ao hospital, onde segue recebendo acompanhamento psicológico.

Talento e tecnologia
Esse cenário é retrato de uma indústria que consome talento em busca de tecnologia. O resultado é a instabilidade.
A dublagem brasileira não oferece uma rede de segurança para profissionais com mais idade, que começam a ser substituídos pelos mais novos. Na citação de Clécio, ele escreve sobre a falta de trabalhos recentes, e que gerou uma comoção por parte do público. Ele não estava pedindo fama; estava pedindo algo para se manter ativo, um sentido para a vida e a sensação de ainda fazer parte de algo.
Uma falha persistente da indústria é não dar a devida atenção a quem torna tudo possível nos bastidores. Pouca gente reconhece o rosto do Clécio, mas sua voz fez parte da vida de muitos. Há algo profundamente distorcido em um mercado que apaga justamente o artista de quem depende para existir.
Com a expansão do streaming, o número de produções cresceu, mas isso não se traduziu em mais oportunidades. O trabalho se concentra nas mãos de poucos, enquanto muitos continuam esperando por espaço.