Ditadura: entre a mordaça das capitais e a ordem do interior
Enquanto os grandes cidades viviam o caos da repressão, quem morava no interior lembra de um tempo de ordem e tranquilidade

Maria Fernanda Savignon Bernabé
A história da Ditadura Militar no Brasil é frequentemente narrada pelas lentes dos grandes centros urbanos, palco de intensas manifestações, repressão política e censura cultural. No entanto, para muitos que viviam longe dos conflitos diretos com o Estado, a história muda um pouco.
Murilo Bernabé, um senhor de 77 anos e morador de Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, viveu a juventude naquela época e nem ouviu falar de ditadura. Para ele, a segurança pública era a característica mais marcante do cotidiano. “Podíamos andar em qualquer bairro, em qualquer horário. Com 16 anos eu podia sair sem medo de ser assaltado ou incomodado”, afirma.
Essa diferença de percepção entre o interior e as metrópoles é fundamental para entender a complexidade do período. Enquanto nas capitais a presença do aparato repressivo era sentida como vigilância e cerceamento, em comunidades menores ou mais afastadas, essa mesma autoridade era traduzida como ordem social.
Para quem não estava envolvido na militância política, o cotidiano transcorria em uma bolha de aparente normalidade, em que o governo era uma figura distante, raramente discutida ou apresentada nas rádios.
O ambiente escolar era regido por uma disciplina rigorosa, simbolizada por ritos patrióticos que hoje caíram em desuso. “Nada de bagunça: para entrar na sala, tinha que fazer fila e cantar o Hino Nacional e o Hino da Bandeira todo santo dia. Hoje em dia a gente quase não vê isso, mas na época era a regra”, lembra Murilo com muito respeito. “Era um jeito de estudar que focava muito no patriotismo e em seguir as normas, o que moldou o jeito de pensar de toda aquela geração”, acrescenta ainda.
Perseguido pela censura
Enquanto nas ruas de Cachoeiro a sensação era de paz, nos palcos e estúdios das capitais o clima era de guerra silenciosa. Onde o cidadão comum via ordem, o artista via mordaça. Exemplo disso foi Chico Buarque, um dos autores mais perseguidos pela censura, mas também o mais produtivo e engajado compositor de músicas de protesto.
De acordo com o biógrafo do artista, Tom Cardoso, Chico Buarque perdeu muito no período da ditadura, “Ele teve peças censuradas, teve que vender terrenos, foi exilado em Roma, fez shows para pouquíssimas pessoas. Tinha que mudar as letras, colocar metáforas e ele não reconhecia as músicas”, diz.
Ao resumir aquele período em uma palavra, Murilo Bernabé escolheu “saudade”. Isso mostra que a memória de cada um depende muito de onde a pessoa estava.
Para esses brasileiros, o peso da ditadura não foi sentido através da repressão política, mas sim vivido como um tempo de estabilidade social e valores tradicionais. É um contraste interessante que mostra que a história do Brasil tem vários lados, dependendo de quem conta e de onde essa pessoa vivia.