Epidemia de apostas online: transtorno cresce no Brasil
Relatos urgentes de perda financeira e a expansão para o futebol mostram como o vício em jogos online se tornaram um problema na saúde pública

Guilherme Trindade e Luiz Felipe
“O momento mais difícil foi quando abri o armário e não tinha mais nada para dar para os meus dois filhos”. Nesse relato, Thaís, 31 anos, conta que perdeu casa, carro, casamento e o próprio sustento após desenvolver transtorno com apostas online. Na luta contra o vício em apostas, ela estima que teve dívidas de até R$100 mil com agiotas.
Tudo começou quando Thaís viu uma propaganda de apostas online e decidiu jogar. Ela conta que, no começo, apostava apenas R$20 por vez. Ganhou algumas vezes e, animada com a recompensa, decidiu aumentar o valor. O que era R$20 virou R$100, depois R$500 e, por fim, ela relata que já chegou a apostar mais de R$3.500 em um dia.
A luta de Thais é a mesma de mais de 10 milhões de brasileiros que praticam apostas de risco, sendo que 1,4 milhão já apresentam comportamento patológico, segundo dados da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em 2025. Um estudo feito pelo Banco Central constatou que os brasileiros apostam cerca de R$30 bilhões por mês em plataformas online.
“O crescimento exponencial de dependentes de jogos pode ser considerado uma epidemia”, afirma a psiquiatra e coordenadora do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), Clarice Madruga. Ela observa que, como demonstra o último LENAD, o avanço é tão acelerado que o transtorno do jogo já supera o tabagismo em pessoas afetadas, perdendo apenas para o alcoolismo.
Como ocorre o transtorno?
A psiquiatra observa que as apostas online combinam reforço intermitente, acesso constante e algoritmos que estimulam o comportamento, declara Clarice. A combinação cria uma falsa sensação de controle e aumenta muito o risco de perda de controle pelo usuário. “A pessoa acredita que entendeu como ganhar, mas isso faz parte do próprio mecanismo para mantê-la jogando”, diz.
Ana sentiu a manipulação na pele. Administradora de restaurante, ela está afastada por conta do transtorno do jogo, que começou com uma simples aposta, após ver a propaganda feita por uma influenciadora digital. Ela relata que, no começo, apostava de pouco em pouco e raramente perdia algum valor maior. Com o ânimo das recompensas, Ana começou a perder o controle, apostava mais, perdia mais e se afundou em dívidas.
Quando se perde uma aposta, a ânsia de tentar recuperar o dinheiro é um dos sinais de descontrole nos jogos. Clarice Madruga destaca que esse fator é ainda pior para pessoas em vulnerabilidade social. “A pessoa acaba perdendo o valor que seria para o aluguel, para a janta, para o colégio dos filhos”, diz. Segundo o Banco Central, cinco milhões de beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em apostas por mês, em 2024, o que reafirma o impacto causado pelo transtorno nas pessoas de baixa renda.
Os altos valores gastos, além das várias vidas corrompidas, demonstram que o vício em apostas online é um problema de saúde pública. Dados do Lenad III indicam grande aumento nos atendimentos relacionados a transtornos associados ao jogo. Em 2023, foram registrados 2.262 atendimentos. Em 2024, esse número subiu para 3.490.
A ação do Estado
Por conta disso, o Governo do Espírito Santo passou a oferecer atendimento para dependentes de jogos, no início deste ano. A iniciativa é da Subsecretaria de Políticas sobre Drogas (Sesd), através da Rede Abraço, que criou a linha específica de atendimento tanto para pessoas já dependentes quanto àqueles que demonstram sinais iniciais de comportamento compulsivo.
Getúlio Souza é Coordenador da Rede Abraço e destaca que o tratamento é realizado por equipe multiprofissional, com avaliação psicossocial, conduzida por psicólogos e assistentes sociais, além de acompanhamento ambulatorial por profissionais de enfermagem e médicos. Ele relata que a procura é feita espontaneamente pelos pacientes e que é feita uma avaliação quanto ao nível de acometimento.
A implementação de ações públicas é vista como urgente por Clarice Madruga, considerando que os Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (CAPS-AD) ainda são insuficientes. Porém, ela conta que, de pouco em pouco, iniciativas estão sendo tomadas, pois os profissionais dos CAPS estão sendo qualificados para realizar o tratamento. “Além disso, a população necessita compreender que esse transtorno é um problema de saúde mental, não só financeiro, e que precisa ser tratado”, conclui.