Mentes que mudaram o jogo: técnicos que revolucionaram o futebol com suas táticas
Entenda como treinadores visionários mudaram a forma de jogar, pensar e vencer no futebol
Felipe Marques
O futebol nem sempre foi da forma como conhecemos hoje. Pressão alta, linhas compactas, marcação por zona, goleiros jogando com os pés… tudo isso surgiu porque alguém, em algum lugar do mundo, decidiu quebrar as regras não escritas do jogo. Esses técnicos não apenas pensaram diferente: foram corajosos, ousaram e transformaram o futebol para sempre.
Embora não haja um consenso absoluto sobre quem foi o primeiro técnico a montar uma equipe marcante por ser organizada e forte taticamente, alguns nomes se destacam na história como precursores da tática no futebol.
Herbert Chapman
Nascido em 1878, Herbert Chapman foi um treinador inglês que revolucionou o futebol na época em que viveu. Após uma breve carreira como jogador, iniciou a trajetória como técnico no Northampton, onde ficou entre 1907 e 1912. Anos depois, respondeu a um anúncio do Athletic News e assumiu o comando do Arsenal. No clube londrino, fez história ao aplicar ideias inovadoras dentro e fora de campo.
Herbert Chapman ficou conhecido por ter criado o sistema WM (3-2-2-3), um estilo que mudou o futebol por décadas. Chapman prezava por um time com disciplina tática, mais solidez defensiva, meio-campo dividido e um ataque com amplitude e velocidade. Venceu o primeiro título com os Gunners em 1930, ao vencer o Huddersfield pela FA Cup. E não pararia ali: o Arsenal seria hegemônico a partir de 1930.
A primeira liga inglesa chegou ao clube em 1930-31. Sob o comando de Chapman, o time venceria novamente em 1932-33. Porém, no início de 1934, contraiu uma gripe que rapidamente evoluiu para uma pneumonia depois de assistir uma partida do terceiro time do Arsenal. O óbito, em 6 de janeiro, foi inevitável. Ele tinha 55 anos. A vinda de taças, por certo, ajudou a consolidar seu nome no escalão dos maiores de todos os tempos. A importância de Chapman atingiu o futebol como um todo.
Zagallo
Único no planeta a ter quatro títulos de Copa do Mundo no currículo, Zagallo foi o personagem principal na criação da Escola brasileira de futebol. Tanto como jogador quanto como treinador, fez mudanças e criou modos de jogo que marcaram a forma como as pessoas veem futebol. Iniciou a carreira como jogador profissional no Flamengo, em 1950. Depois de oito anos foi para o Botafogo, onde permaneceu até se aposentar, em 1965.
Começou a treinar o Botafogo logo após se aposentar, em 1966. Ficou quatro anos no comando do Alvinegro e em 1970, aos 38 anos, assumiu a Seleção Brasileira. Foi aí o início de um dos melhores times da história do futebol, com muita versatilidade, movimentações constantes, jogadores ocupando diferentes posições e criando jogadas em diagonal com tabelas.
Zagallo utilizou o esquema 4-3-3. Com Félix no gol, a primeira linha de quatro jogadores tinha Brito e Piazza, compondo a zaga e Carlos Alberto Torres e Everaldo nas laterais, completando a defesa. O meio-campo mais forte do mundo era composto por Gerson, Clodoaldo e Rivellino. Eles formavam um trio que equilibrava a criatividade com a proteção da defesa. Jairzinho, Tostão e Pelé completavam o ataque.
Com um sistema tático moderno para a época, jogadores muito técnicos e uma grande capacidade de adaptação e recomposição, a Seleção Brasileira de 1970 é considerada até hoje uma das melhores equipes da história do futebol.
A revolução continua
Os primeiros grandes treinadores abriram caminho para a organização e o pensamento coletivo no futebol, e o passar do tempo mostrou que o futebol ainda tinha muito a evoluir. As táticas não pararam no WM de Chapman ou no belo 4-3-3 de Zagallo; elas continuaram crescendo e mudando a cada ano. Com o tempo, os técnicos largaram a ideia de apenas reagir ao adversário e passaram a construir ideias próprias, criativas e dominantes. E foi nesse contexto que surgiram outros grandes nomes que fizeram história na beira dos gramados.
Johan Cruyff
Um dos maiores jogadores da história, o holandês foi mais que um atleta genial. Cruyff também revolucionou o futebol fora do campo. No comando do Barcelona, trouxe com ele a essência do futebol total que viveu na histórica seleção holandesa de 1974, o famoso “Carrossel Holandês”. Mas ele foi além: adaptou, modernizou e consolidou um estilo que priorizava a posse de bola, a ocupação inteligente dos espaços e movimentação constante.
Fez o famoso “Dream Team”, criou o DNA futebolístico do clube catalão e venceu quatro vezes a LaLiga (1991, 1992, 1993 e 1994), uma Copa do Rei (1990), uma Champions League (1992), uma Recopa Europeia (1989), uma Supercopa Europeia (1992) e três Supercopas da Espanha (1991, 1992 e 1994).
Pep Guardiola
Discípulo de Johan Cruyff e considerado por muitos o maior técnico da história, Guardiola foi jogador do Barcelona e comandado pelo holandês na passagem pela Espanha. Virou treinador do Barcelona a partir de 2008 e criou uma das equipes mais admiradas da história do esporte, com um estilo de posse de bola sufocante, o famoso “Tiki-Taka”. Além disso, o time fazia uma pressão alta para recuperar a bola rapidamente e tinha uma movimentação organizada em todos os setores do campo.
O Barcelona de Guardiola combinava precisão técnica com estrutura tática bastante rígida, na qual cada jogador sabia exatamente onde estar e o que fazer no momento certo. A base do time tinha uma linha com quatro zagueiros, três meio-campistas e três atacantes e, entre eles, o melhor jogador do mundo na época: Lionel Messi. O time era fluido. Piqué e Puyol tinham liberdade para armar o jogo, Busquets recuava para proteger a defesa e iniciar jogadas. Xavi e Iniesta eram o cérebro do time e dominavam o meio-campo. Guardiola foi o responsável por transformar o treinador em autor do jogo.
Foi multicampeão por onde passou. Pelo clube catalão, foram 14 títulos em quatro anos. Após a passagem vitoriosa pelo Barcelona, Guardiola também fez história no Bayern de Munique e no Manchester City. Comandando a equipe alemã de 2013 até 2016, foram 7 títulos e pelo Manchester City foram incríveis 18 títulos em nove anos.
Carlo Ancelotti
Diferente de Cruyff e Guardiola, Ancelotti fez história não por impor um estilo fixo, mas por entender o futebol como poucos e ler o que cada time precisa. Mestre em encaixar jogadores em sistemas que funcionam, o italiano faz isso sem que o coletivo se perca. Entre 2002 a 2005, no Milan, ele montou o time com um meio-campo muito dominante, composto por Pirlo, Gattuso, Seedorf e Kaká, altamente técnico e funcional.
Ancelotti é o técnico que mais vezes conquistou a Champions League, somando cinco conquistas da “orelhuda”. Foram duas pelo Milan e três pelo Real Madrid. Além disso, ele é o único técnico a vencer o Campeonato Nacional das cinco ligas mais fortes do mundo, sendo uma Serie A pelo Milan na temporada 2003/2004, uma Premier League pelo Chelsea na temporada 2009/2010, uma Ligue 1 pelo PSG na temporada 2012/2013, uma Bundesliga pelo Bayern de Munique na temporada 2016/2017 e três vezes a LaLiga pelo Real Madrid nas temporadas 2013/2014, 2021/2022 e 2023/2024.
O atual comandante da Seleção Brasileira soma incríveis 31 títulos na carreira, o que prova a capacidade única de Ancelotti de se adaptar e ser vencedor em qualquer lugar que esteja.
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