O cooperativismo sustentável como solução para causas urgentes
A Cooperativa dos Cafeicultores do Sul do Estado do Espírito Santo (Cafesul) foi a primeira cooperativa a instalar o modelo de biofábrica On-Farm no Brasil. Com o objetivo de produzir insumos biológicos para as lavouras e levar a sustentabilidade a outro patamar, a cooperativa mostra que levar soluções às causas urgentes está em primeiro plano

Bianca Lemos e Loren Peterli
O mundo tem vivido uma realidade cada vez mais preocupante no que diz respeito às mudanças climáticas. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o globo terrestre tem 50% de chance de exceder 1,5°C na temperatura média até 2026. Em 2024, o mundo viveu o agosto mais quente já registrado na história do Brasil, afetando 1.400 cidades em nível extremo ou severo, de acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
No entanto, os problemas ambientais no Brasil vão além das altas temperaturas. Nos últimos cinco anos, o país perdeu um total de 8.558.237 hectares de vegetação nativa, o equivalente a duas vezes o estado do Rio de Janeiro. É o que mostram os dados da edição de 2023 do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil do MapBiomas (RAD). Além disso, um estudo feito pela Carbon Brief, incluiu o Brasil e a Indonésia entre os grandes poluidores do planeta, por causa da liberação de CO2 na atmosfera decorrente de desmatamento e manuseio do solo ao longo dos últimos 171 anos.
O impacto dessas ações é profundo. Afinal, as mudanças no uso do solo são responsáveis por 44% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, segundo o Observatório do Clima, que divulgou a 7ª edição do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG). Esse cenário alarmante é reafirmado a partir de pesquisas realizadas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), onde destaca que mais de 30% dos solos do mundo estão degradados, reforçando a gravidade do cenário.
Se a situação continuar nesse ritmo, as perdas agrícolas podem chegar a mais de 10% até 2050. Esse é apenas um grão no meio de uma lavoura extensa de causas urgentes. Algo precisa ser feito e melhorado, e uma das soluções viáveis, é o cooperativismo sustentável.
Uma das práticas cooperativistas que pode ser implementada é o uso do café sustentável. Um estudo conduzido pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) em colaboração com diversas instituições, mostrou que o café conilon capixaba extrai, por ano, da atmosfera, cerca de 8,6 toneladas de CO2 por hectare, comparado às 3 toneladas na produção tradicional. Ou seja, práticas de manejo sustentável aumentam a captura de carbono na atmosfera.

O professor do Departamento de Ciências Agrárias e Biológicas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e ambientalista, Fabio Partelli, atuou em um projeto em Moçambique, com cooperação com Brasil e Portugal, para produção sustentável de café por comunidades tradicionais, com o objetivo de diminuir os efeitos do desmatamento. Ele explica que toda a prática sustentável tende a diminuir a emissão de gases de efeito estufa, ou até mesmo no contexto geral de uma propriedade, fixar gases do efeito estufa, seja através da fixação de carbono em árvores, ou por meio da fixação de carbono no solo.
Qualquer prática sustentável ajuda, mesmo que seja pouco, mas ela contribui para mitigar os efeitos globais da emissão de CO2. A produção sustentável vai melhorar o equilíbrio do solo, vai melhorar o equilíbrio do ambiente, inclusive pode até fixar carbono. Quando você melhora a matéria orgânica no solo, o sistema promove a fixação de carbono no solo, já que vai tirar da atmosfera e vai levar para o solo, isso também é um exemplo. Então, o uso de bioinsumo pode melhorar esses processos, não quer dizer que ele vai promover isso, mas ele pode promover e ajudar nesse sentido
Fabio Partelli
Segundo a FAO, os bioinsumos são produtos de origem biológica formulados com micro-organismos, como bactérias ou vírus, usados para melhorar a produtividade das plantas e as condições dos solos.
O professor ainda enfatiza que em termos conceituais existem vários tipos de bioinsumo, a variar de qual utilizado, pode melhorar a decomposição de um dejeto, a composição do esterco de galinha ou de lixo urbano. Então esses bioinsumos, dependendo do objetivo e do foco deles, podem otimizar a decomposição, deixando-a mais eficiente. Assim podendo reduzir a liberação de CO2 para a atmosfera, e esse produto, que é essa matéria orgânica, depois de decomposta, ela também pode melhorar a produtividade da lavoura.
O mestre em Agroecologia e extensionista do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), Tassio da Silva, explica que para um café ser considerado sustentável, ele precisa ser produzido seguindo técnicas de cultivos que visam preservar solo e sua biodiversidade. Além de ter um controle integrado de pragas doenças, usando produtos apenas se houver infestação acima do nível de dano econômico; aplicação de agrotóxicos respeitando prazo de carência; reentrada e com registro para cultura, entre outras técnicas de cultivo.
Ser sustentável não proíbe o uso de agrotóxicos, só exige regras de uso. O uso de produtos biológicos, que são mais sustentáveis, podem trazer enriquecimento da biota do solo, resultando em melhora na estrutura física e química dele. Isso proporciona às plantas melhores condições de desenvolvimento as quais inserem mais açúcares nos frutos intensificando sua complexidade de aromas e sabores
Tassio da Silva
Pensando nisso, a Cooperativa dos Cafeicultores do Sul do Estado do Espírito Santo (Cafesul) foi a primeira cooperativa a instalar o modelo de biofábrica On-Farm no Brasil, sendo a pioneira no estado a instalar uma fábrica de bioinsumos, localizada no município de Muqui. Apesar de já existirem organizações e produtores que possuem biofábricas, o processo feito por eles é mais artesanal, enquanto na cooperativa, a tecnologia possibilitou um processo automatizado.
Com um investimento de R$100 mil, a primeira fabricação durante o treinamento dos funcionários foi de 595 litros de bioinsumos envasados. Inaugurada em novembro de 2023, foram iniciadas as etapas de testes com treinamentos de equipes, além de compras de cepas e embalagens. Os produtores estavam no período de colheita de maio a agosto, e no mês de novembro deste ano vão começar a fazer os tratos culturais com os insumos biológicos para ajudar a fortalecer a produção sustentável dos cafés.

Mas, as diversas práticas ambientais e sustentáveis da coop não iniciaram por agora. Desde 2008, a CafeSul possui uma certificação internacional chamada FairTrade para o Comércio Justo, que permite assegurar aos consumidores que os produtos adquiridos respeitam normas sociais, econômicas e ambientais especiais.
O Presidente da Cafesul, Carlos Renato Alvarenga Theodoro, explica que a maior importância da utilização do bioinsumo é a diminuição do uso dos agrotóxicos. Já que melhorando a qualidade do solo, é possível criar plantas mais resistentes à praga de uma maneira natural. Outro benefício é com relação à questão econômica. Hoje, o agrotóxico é um produto muito caro. Assim, reduzindo o uso dele, é feita a diminuição dos custos, consequentemente, o aumento do rendimento do produtor e uma melhoria na produtividade.

A analista de certificação e engenheira agrônoma responsável pela biofábrica da Cafesul, Iohara Werneck Mendonça, explica que o desafio da produção é sempre tomar cuidado com a contaminação. Para isso, eles possuem um biorreator que fabrica os produtos individualmente e, em seguida, é realizada a separação na hora de encher a própria embalagem depois dele ser produzido.
Confira a explicação da engenheira da cooperativa, pela voz de Loren Peterli:
São os três produtos: Granada, Quality e Rizos, provenientes de três microrganismos, Beauveria, Trichoderma e Bacilus, utilizadas pela Cafesul. A proposta é que esses insumos biológicos passem a substituir os produtos químicos tradicionais ou agrotóxicos. Com uma vasta opção de produtos biológicos, não vai ser usado apenas no manejo de pragas e doenças, mas como indutor da resistência da planta. Ou seja, ele também pode funcionar como fertilizante, já que ele melhora a microbiota do solo.
A produção de bioinsumos é uma consequência de um trabalho que já vem sendo realizado pela cooperativa, de seminários e dias de campo com técnicos especializados.
O que a gente quer é incentivar e disseminar essa ideia de que o meio ambiente, o homem, o ser humano e o próprio consumidor final, ele precisa de cuidado. Ele precisa que a produção dele, inicial e final, até o final, seja além de sustentável, ela seja saudável
Iohara Werneck Mendonça
A Cafesul, como cooperativa Fairtrade, faz parte Associação das Organizações de Produtores Fairtrade do Brasil (BRFAIR), que por sua vez, é filiada à Coordenadora Latino-americana e do Caribe de Pequenos Produtores e Trabalhadores de Comércio Justo (CLAC). Responsável por captar recursos de projetos internacionais para as cooperativas nos diversos países da América Latina e do Caribe, a CLAC realizou uma parceria de uma entidade alemã, chamada GIZ (Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit) que atua na área de desenvolvimento sustentável, possibilitando a cooperativa ter a biofábrica.
A Gestora da CLAC no Brasil, Giseli Sampaio Marcilio, já trabalhou como responsável pela certificação da Cafesul durante sete anos. Ela explica que, atualmente, a instituição possui uma demanda grande dos consumidores para café sustentáveis, uma necessidade extensa de redução dos pesticidas. Isso porque até para conseguir comercializar e agregar valor aos produtos, mas principalmente para a qualidade de vida de quem produz e do meio ambiente.

Conseguir trazer vida novamente para esses solos, que foram há muitos anos exauridos por excesso de pesticidas, é um dos principais objetivos, trazer novamente vida para esses solos. Então, o fortalecimento do comércio justo vem através da produção real de cafés sustentáveis. De novas formas de produzir. Na verdade, a gente fala novas fórmulas, mas é resgatar o que o solo tinha antigamente através desses bioinsumos
Giseli Sampaio Marcilio
De acordo com a Gestora da CLAC, esse é um produto que não há danos, mas que existem recomendações de uso. É essencial realizar treinamentos, para o produtor conhecer, saber em que momento fazer aplicação e quais as dosagens, para não haver um desequilíbrio. Por isso, a equipe técnica que trabalha nas cooperativas ajuda os produtores também a repensar, a conhecer esse modelo novo de produção. É um momento de adaptação às práticas agrícolas regenerativas.
Mas não é como um pesticida, por exemplo, que você vai fazer um controle de insetos e ele dizima tantos bons e maus insetos, né? É necessário que os produtores conheçam mais as práticas de aplicação, conheçam os produtos, porque nós estamos vindo de uma era em que é como se os produtores usassem um pacote de produtos químicos e que já está ali enraizada, aquela receita de bolo na cabeça do produtor
Giseli Sampaio Marcilio
O diretor da Bio Santo Agronegócios Ltda, empresa focada em agricultura regenerativa, com ênfase em manejo biológico, Vitor Bolis Ruy explicou que toda a ação seguiu um cronograma: em uma semana, a biofábrica da Cafesul foi montada, e foi realizado o treinamento com a cooperativa e com os técnicos que iriam operar a biofábrica.

O produto derivado dessa biofábrica que a Cafesul instalou tem muita segurança no processo. Então, ele é um produto extremamente isento de contaminação e é um produto bem viável para a lavoura. É realmente uma biofábrica mesmo. Dali de dentro vai sair micro-organismos para serem aplicados na lavoura. Ela tem aproximadamente 18 a 20 metros quadrados, é semelhante a um container, porém é montada de placa pré-moldada. Então ela é montada do zero, tem quatro tanques de mil litros onde são produzidos os micro-organismos e ela é bem compacta, só que ela tem uma capacidade de produção de quatro mil litros de bioinsumo a cada 48 horas
Vitor Bolis Ruy
Atualmente, a legislação só autoriza a fabricação e a multiplicação de bioinsumos a nível de produtor para uso próprio. Então, o produtor compra o produto, utiliza na biofábrica dele, multiplica e usa na sua própria propriedade. Ainda assim, existem Projetos de Leis no Congresso a favor para que essas cooperativas também possam multiplicar e se enquadrar em todos os mesmos direitos do produtor.
Só que a doação é permitida e a Cafesul entrou nesse projeto sem fins lucrativos: como o produtor é o dono da cooperativa, as cooperativas estão multiplicando e doando para os seus sócios. O modelo produzido na biofábrica comporta o volume de produto necessário para atender a todos os cooperados, em que eles só pagam o custo do produto, da matéria-prima base não há venda, nem comercialização e benefício. Portanto, a cooperativa atua como um incentivador de boas práticas, já que na realidade, eles estão gerando um produto bem mais barato para o produtor.
Além de preservar o meio ambiente, os bioinsumos influenciam na saúde de produtores e consumidores
Além de contribuir para o aumento da sustentabilidade no meio ambiente, outra vantagem que está relacionada a adoção dos bioinsumos nas produções de cafés, é a diminuição do impacto à saúde dos produtores e consumidores finais do produto.
A saúde dos produtores está diretamente ligada ao tipo de manejo adotado. No modelo convencional, que utiliza fertilizantes e agrotóxicos, os produtores enfrentam riscos à sua saúde diariamente. Segundo pesquisas recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT), os agrotóxicos são responsáveis por causar 70 mil intoxicações agudas e crônicas por ano e evoluem para óbito. Diante disso, no que diz respeito ao cenário da cafeicultura sustentável, a transição para bioinsumos traz uma mudança significativa, eliminando grande parte dos riscos associados à exposição a agrotóxicos.
A adoção de bioinsumos, oferece uma alternativa que valoriza a saúde humana, sem comprometer a qualidade do produto final. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), os impactos positivos dos microrganismos na agropecuária são múltiplos. Ela indica que substituir total ou parcialmente os fertilizantes sintéticos possibilita diminuir, sensivelmente, a dependência externa do país em relação aos insumos, ao mesmo tempo que contribui para preservar a biodiversidade e, principalmente, a saúde dos agricultores.
A engenheira agrônoma da Cafesul, Iohara Werneck, explica que é necessário que o consumidor final – que também é um dos beneficiados – observe o processo que o produtor está passando para poder produzir o café que chegará até ele. “Se o produtor está produzindo em cima de práticas sustentáveis, o consumidor tem que lembrar que essa ação não está agredindo a saúde do produtor, não está agredindo ao meio ambiente, está oferecendo, na verdade, um produto de qualidade e limpo. Então são pontos positivos que não podem ser esquecidos, porque faz parte de toda a cadeia”, destaca.
Uma consumidora do café da Cafesul e dona da Agroindústria de salgados e massas “Art e Paladar”, Liana Costa de Souza, conta que o benefício na saúde não só dela, mas de toda a próxima geração, que é o mais importante.

Eu espero que seja um café que seja sucesso porque eles sempre procuram ver a melhor forma de não agredir o meio ambiente. Pode ser que seja um valor um pouco mais elevado, mas o valor do café em si vai ser muito mais benéfico, na nossa qualidade de vida e vai valer a pena a gente consumir um café que a gente sabe que vai ser de qualidade. Vai ser um produto controlado e fiscalizado, então para nós, a segurança vai ser muito melhor. O impacto que isso vai causar para nós, para a nossa vida, não só a minha qualidade da minha família, mas de um todo, ajudando todo o planeta
Liana Costa de Souza
Utilizando os grãos da Cafesul, Liana criou produtos inovadores no estado: massa de pastel e macarrão feitos de café. Mas não é qualquer café, é do café Póde Mulheres, produzido exclusivamente por produtoras da cooperativa. E essa não é a única iniciativa que mostra que as mulheres podem estar onde quiserem, na biofábrica da Cafesul também tem espaço, já que no grupo de produtores, 20% têm que ser obrigatoriamente constituído pelo público feminino.



Para os trabalhadores do café, como Luiz Cláudio De Souza, de 68 anos, produtor orgânico premiado da CafeSul, a produção com insumos biológicos não é apenas uma prática sustentável em termos ambientais, mas também uma prática que promove o bem-estar humano.

“A gente vê que quem usa um produto químico, que causa problema na saúde, ganha com a produção e gasta no médico e na farmácia. Então, em relação à produção sustentável, eu acho que é uma forma inteligente de pensar num todo, né? Tanto de quem consome quanto de quem trabalha diretamente com esse produto. Afinal, é quem tem mais força do que o consumidor, né, quem trabalha com produto químico, altamente perigoso que a gente vê aí. Que às vezes não causa problema na hora, mas a saúde vai ficando debilitada e a pessoa vai perdendo a condição de trabalho”, pontua.
Confira a explicação do presidente da cooperativa, pela voz de Bianca Lemos:
A cafeicultura é a principal atividade agrícola no Espírito Santo, com quase 70% das propriedades rurais voltadas para o cultivo, proporcionando emprego e renda a milhares de famílias. A produção anual, que ultrapassa 10 milhões de sacas, é exportada para mais de 100 países. Os cafés produzidos, tanto arábica quanto conilon, vêm se destacando pela qualidade, ganhando reconhecimento tanto no Brasil quanto no exterior.
Há 26 anos no mercado, a Cafesul reúne pequenos produtores de sete municípios da região Sul do estado do Espírito Santo no Brasil para promover o desenvolvimento sustentável das comunidades onde atua. Com foco na sustentabilidade ambiental, social e econômica, além da contínua melhoria da qualidade dos cafés, a cooperativa já foi nomeada como a possuidora do melhor café conilon Fairtrade do Brasil por quatro anos seguidos.
Edição: Loren Peterli
Imagem de destaque (Home): Fotomontagem/Loren Peterli








