Como o preço das camisas de time originais influencia na busca por alternativas acessíveis 

Diante de modelos que podem ultrapassar R$ 500, camisas tailandesas aparecem como opção e ganham força no cenário nacional

Mais de 225 milhões de réplicas de artigos esportivos foram consumidos no Brasil em 2025. (Foto: Reprodução/Canva)

Felipe Marques

As camisas de futebol, para muitos, ultrapassam a função de vestimenta e participam da construção da identidade e das relações de sociabilidade dos torcedores. Entretanto, o atual valor das camisas de time assusta os torcedores pelo alto preço de mercado. Nesse cenário, as réplicas 1.1, popularmente conhecidas como “camisas tailandesas”, ganharam força nesse meio por terem valores mais acessíveis e qualidade idêntica à original. 

Segundo levantamento realizado pela Ápice (Associação pela Indústria e Comércio Esportivo) em parceria com o Instituto de Estudos e Marketing Industrial (Iemi), em 2025, mais de 225 milhões de artigos esportivos falsificados foram consumidos no país, um crescimento de 30% em comparação com 2023, quando foram registradas 173,4 milhões de unidades comercializadas. De acordo com o estudo, os produtos piratas representam 34% de todo o consumo de artigos esportivos no Brasil. 

O estudante de geografia Rafael Bizerra, 24 anos, coleciona camisas de time tailandesas e afirma que o crescimento das réplicas no mercado se dá por um conjunto de fatores que envolve preço, qualidade e portfólio. Para o estudante, as réplicas tailandesas têm valores mais acessíveis, podendo custar até um décimo de uma camisa original, além de apresentarem acabamento e qualidade de tecido semelhantes aos produtos oficiais.

Além disso, Rafael também destaca a variedade de modelos disponíveis, como camisas retrô, edições especiais e peças mais raras, que nem sempre são encontradas no mercado de camisas originais. Segundo ele, a facilidade de importação por meio de plataformas chinesas também contribui para a popularização das réplicas entre os torcedores brasileiros.


O impacto do preço no mercado

Um estudo da Gazeta Esportiva feito com os 20 clubes da Série A em 2026 apontou que as camisas masculinas custam, em média, R$ 469,39, enquanto os modelos femininos têm preço médio de R$ 435,76, considerando as diferentes versões disponíveis. No caso do Flamengo, por exemplo, a versão jogador chega a R$ 799,99.

O assessor de investimentos e professor da Unidade de Gestão e Negócios (UGN) da FAESA, Érico Colodetti, relata que a procura por camisas tailandesas pode estar relacionada à perda do poder de compra do brasileiro. Ele observa que a inflação dos últimos anos aumentou o peso de despesas básicas no orçamento das famílias, como alimentação, aluguel, energia e vestuário, reduzindo o valor disponível para itens considerados supérfluos e levando muitos consumidores a recorrerem ao crédito.

Érico afirma, ainda, que a diferença de preço entre camisas oficiais e réplicas está relacionada ao chamado “custo Brasil”, que inclui a carga tributária. O profissional também aponta o comércio ilegal de produtos contrabandeados como um fator que contribui para a oferta de peças por valores muito abaixo dos praticados pelo mercado oficial. 

China e Vietnã são os países que mais exportam réplicas de primeira linha. (Foto: reprodução/Abicalçados)

De onde vêm as camisas tailandesas?

Apesar do nome, as camisas não são importadas diretamente da Tailândia. Antigamente, o país era referência na fabricação e exportação de réplicas de alta qualidade de roupas e artigos esportivos. Entretanto, a produção em massa migrou para a China e o Vietnã devido a custos menores de trabalho e infraestrutura logística avançada.

O empresário e engenheiro de produção com MBA em comércio exterior e negócios internacionais, Marciano Caliman, explica que a competitividade de China e Vietnã na produção de réplicas está principalmente relacionada aos custos. De acordo com ele, fatores como mão de obra mais barata, logística, acesso a matérias-primas e máquinas e maior flexibilidade na regulação trabalhista contribuem para reduzir os custos de produção. Com isso, os países conseguem fabricar peças de qualidade por valores mais baixos.

Marciano aponta que a indústria do vestuário ainda depende bastante da mão de obra, principalmente nos processos de costura, o que faz com que os países com custos trabalhistas menores consigam produzir por valores mais baixos. Com o avanço da industrialização chinesa, o aumento dos salários na China pode reduzir essa competitividade e levar fábricas a buscar locais com custos menores, como Paquistão, Índia e países do norte da África.