Entre bezerras e gerações: quem vai cuidar do futuro do leite?

Clube de Bezerras da Selita aproxima crianças e jovens da atividade leiteira e transforma o manejo dos animais em uma experiência de formação diante de um dos desafios do campo: preparar novas gerações para dar continuidade às propriedades rurais

Larissa Bueno amamentando uma bezerra na propriedade da família (Foto: André Oliveira)

André Oliveira

Antes mesmo de entender o significado de palavras como cooperativismo ou sucessão rural, crianças de famílias produtoras de leite aprendem algo bem mais concreto: é preciso alimentar na hora certa, observar o comportamento, cuidar da saúde e acompanhar o crescimento de uma bezerra.

Pode parecer apenas uma rotina do campo. Mas, por trás de cada tarefa, existe uma pergunta que preocupa famílias que construíram suas histórias a partir da produção leiteira: quem vai continuar esse trabalho quando a geração atual deixar a propriedade?

Durante gerações, o trabalho no campo foi muito mais do que uma atividade econômica. Para milhares de famílias brasileiras, a terra representa sustento, identidade e uma história construída a partir do conhecimento transmitido entre pais, filhos e netos. Na pecuária leiteira, essa herança se revela na rotina que começa antes do nascer do sol, no cuidado diário com os animais e nos ensinamentos que atravessam décadas. Entretanto, a continuidade dessa trajetória já não pode ser considerada um caminho natural para as novas gerações.

No interior de Muniz Freire, a resposta ainda está sendo construída pela família Bueno.

Vista aérea da propriedade da família Bueno, no interior de Muniz Freire (ES) (Foto: André Oliveira)

A relação com a atividade rural atravessa gerações. Josias Bueno conta que tudo começou com o avô, ainda nos primeiros anos da Cooperativa de Laticínios Selita. Depois, a responsabilidade passou para o pai. Mais tarde, chegou à geração de Josias. Agora, quando olha para os filhos, ele espera que a história não termine por ali.

Meu avô começou quando fundaram a Selita. Do meu avô passou para o meu pai e do meu pai nós demos continuidade. Espero que meus filhos continuem

Josias Bueno
Josias Bueno e sua filha Larissa Bueno amamentando uma bezerra na propriedade da família (Foto: André Oliveira)

A frase aparentemente simples revela uma das questões que atravessam a pecuária leiteira: produzir leite também significa transmitir conhecimento. E nem sempre aquilo que passou naturalmente dos avós para os pais e dos pais para os filhos continuará acontecendo da mesma maneira.

É justamente nesse intervalo entre uma geração e outra que nasceu o Clube de Bezerras da Selita.

Uma bezerra para aprender sobre o futuro

O projeto começou reunindo crianças e jovens de famílias ligadas à produção leiteira. Durante o programa, os participantes acompanham os primeiros meses de vida de um bezerro e recebem conhecimentos sobre alimentação, saúde, manejo e desenvolvimento do animal.

Mas o aprendizado técnico é apenas uma parte da proposta. Ao colocar os jovens dentro da rotina produtiva, o projeto procura criar vínculo com a propriedade e despertar interesse pela atividade que sustenta suas famílias.

Encontro de lançamento do projeto (Foto: Acervo Clube de Bezerras da Selita)

Essa preocupação não é exclusiva da cooperativa. Em um dos encontros do Clube, o coordenador de Produção Animal da Secretaria de Estado da Agricultura, Filipe Barbosa Martins, apontou a falta de mão de obra e a dificuldade de sucessão familiar entre os principais desafios enfrentados pela cadeia produtiva do leite. Conforme publicação da Selita.

A preocupação de Filipe se relaciona à visão de Joaquim Gomes, técnico agrícola da Selita. Para ele, a sucessão familiar é um grande desafio para a continuidade da atividade no campo.

Confira abaixo a entrevista com Joaquim Gomes, técnico agrícola da Selita


É nesse ponto que cuidar de uma bezerra ganha outro significado.

O animal que hoje depende do jovem para se desenvolver poderá, no futuro, integrar o rebanho produtivo daquela propriedade. Ao mesmo tempo, a criança ou adolescente que aprende a cuidar, começa a descobrir se aquela atividade também poderá fazer parte de sua própria vida adulta. 

Joaquim Gomes ensinando técnica de cabresto em uma bezerra (Foto: André Oliveira)

O desafio de fazer os jovens ficarem no campo

As transformações sociais e econômicas das últimas décadas modificaram a relação dos jovens com o meio rural. O acesso à educação, a busca por independência financeira e as oportunidades oferecidas pelos centros urbanos ampliaram as possibilidades de escolha de quem cresceu acompanhando o trabalho dos pais. Ao mesmo tempo, a rotina exigente da produção leiteira, as incertezas sobre a rentabilidade e as dificuldades de acesso a recursos e tecnologias tornam a permanência no campo uma decisão cada vez mais complexa.

Nesse cenário, a sucessão familiar deixa de ser apenas a transmissão de uma propriedade ou de uma profissão. Passa a envolver condições de trabalho, autonomia, perspectivas de renda e, sobretudo, a liberdade de decidir o próprio futuro. Para as famílias que dedicaram a vida à produção rural, o desafio não é somente preservar o patrimônio construído ao longo das gerações, mas criar condições para que seus filhos encontrem motivos e oportunidades reais para continuar essa história.

Os números ajudam a compreender essa transformação. Segundo os resultados definitivos do Censo Agropecuário de 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a participação de produtores com menos de 35 anos na direção dos estabelecimentos agropecuários caiu de aproximadamente 16,9%, em 2006, para 11,3%, em 2017. No mesmo período, a presença daqueles com 65 anos ou mais aumentou de 17,5% para 23,2%.

O levantamento também identificou uma redução de aproximadamente 1,46 milhão de pessoas ocupadas nos estabelecimentos agropecuários brasileiros, uma queda de 8,8% em onze anos. Os resultados revelam mudanças na estrutura produtiva e no perfil dos responsáveis pelas propriedades, embora não permitam afirmar, isoladamente, quantos jovens deixaram o campo. 

Outro dado também muito importante é a evasão rural. Segundo o censo do IBGE de 2022, mais de 4 milhões de pessoas saíram da zona rural. Os dados revelam que apenas 12,6% dos brasileiros vivem no campo e 87,4% nas cidades; o êxodo rural é observado em todas as regiões, em ritmo acelerado.

(Imagem ilustrativa: Gráfico estatístico – Perfil dos produtores rurais no Brasil) 

Mas será que as novas gerações realmente não querem continuar trabalhando na agricultura?

Uma pesquisa do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), publicada em junho de 2025, apresenta um contraponto a essa percepção. O estudo, realizado com jovens egressos de Escolas Famílias Agrícolas do Sul do Espírito Santo, identificou que 55,74% manifestaram interesse em se tornar sucessores ou gestores de propriedades rurais. Outros 50,82% apontaram o desejo de conquistar emprego e renda no meio rural, enquanto 30,05% mencionaram a possibilidade de migrar para áreas urbanas em busca de oportunidades.

O estudo também revelou que 99% dos participantes consideram as relações familiares fundamentais para decidir se permanecem ou não na propriedade. Além do apoio emocional, fatores como recursos financeiros, transmissão de conhecimentos e autonomia influenciam essa escolha.

Propriedade da família Vargas, em Cachoeiro de Itapemirim (ES) (Foto: André Oliveira)

Os resultados mostram que o desafio da sucessão familiar não está necessariamente na falta de interesse dos jovens, mas também nas condições oferecidas para que possam construir uma vida economicamente viável no campo. Permanecer na propriedade exige mais do que herdar a atividade dos pais: é preciso encontrar espaço para participar das decisões, desenvolver projetos próprios e enxergar perspectivas de crescimento.

A preocupação ganhou dimensão nacional em julho de 2025, quando foi sancionada a Lei nº 15.178, que instituiu a Política Nacional de Juventude e Sucessão Rural. A legislação estabelece diretrizes para ampliar o acesso à terra, ao crédito, à formação profissional, à assistência técnica e às oportunidades de trabalho e renda. Também prevê o apoio à criação de cooperativas e associações de jovens agricultores, incentivando sua participação na gestão das propriedades.

É nesse cenário que iniciativas como o Clube de Bezerras da Selita procuram aproximar crianças e adolescentes da atividade leiteira. Ao acompanhar o desenvolvimento dos animais, os participantes recebem conhecimentos técnicos e passam a conhecer responsabilidades que fazem parte da rotina dos produtores.

Em 2026, a Selita completa 88 anos de história. Com mais de 1.800 cooperados distribuídos por mais de 50 municípios, a cooperativa trabalha para que o leite seja mais do que um produto, representando também qualidade de vida, geração de oportunidades e desenvolvimento para seus cooperados, colaboradores e comunidades onde atua.

Para o então vice-presidente da cooperativa, João Marcos Machado, o projeto representa uma oportunidade de apresentar aos jovens as possibilidades de futuro dentro do negócio familiar. A proposta, segundo ele, é que esse contato comece ainda na infância, quando os participantes passam a acompanhar o crescimento de uma bezerra.

Entretanto, aprender a cuidar de um animal não significa, necessariamente, decidir permanecer no campo. Entre a experiência vivida durante o projeto e a escolha de assumir uma propriedade existem desafios econômicos, familiares e profissionais.

Bezerra da propriedade Bueno, Muniz Freire – (ES) (Foto: André Oliveira)

O Clube de Bezerras, portanto, integra uma discussão que ultrapassa a formação técnica: como preparar as novas gerações para que continuar a história da família seja uma oportunidade real, e não apenas uma obrigação herdada?

Confira abaixo a entrevista completa com o Vice presidente da Selita, João Marcos Machado

Uma história que atravessa gerações

Na família Bueno, o desafio da sucessão rural tem raízes que antecedem a geração atual. A relação com a produção leiteira e o cooperativismo começou com o avô de Josias Bueno, passou pelo pai e chegou aos filhos. Mais do que a continuidade de uma atividade econômica, essa trajetória representa a transmissão de conhecimentos, responsabilidades e de uma história familiar construída no campo.

Josias Bueno, produtor rural (Foto: André Oliveira)

Josias é parte dessa terceira geração. Ao recordar o caminho percorrido pela família, ele reconhece a importância do trabalho dos antepassados e expressa o desejo de que a próxima geração também encontre seu lugar na atividade.

Confira abaixo a entrevista com Josias Bueno, produtor rural e cooperado da cooperativa Selita.

A expectativa de Josias traduz uma preocupação compartilhada por outras famílias produtoras. Afinal, o conhecimento acumulado ao longo de décadas não garante, por si só, que os filhos escolham a mesma profissão dos pais.

É nesse encontro entre a tradição familiar e a liberdade de construir novos caminhos que o Clube de Bezerras procura atuar. A proposta é permitir que crianças e adolescentes conheçam a atividade leiteira para além da observação do trabalho dos adultos, participando de experiências práticas e assumindo responsabilidades no cuidado com os animais. O Clube de Bezerras Selita surge como forma de incentivo e formação para futuros produtores agropecuários.

Confira abaixo no vídeo a relação da Família Bueno com a vida rural e os aprendizados com o projeto do Clube de Bezerras Selita.

O aprendizado começa com uma bezerra

A experiência teve início em 2024, quando a Selita reuniu 26 crianças e jovens, com idades entre 7 e 20 anos, para participar do primeiro ciclo do Clube de Bezerras. A iniciativa foi criada para aproximar as novas gerações da pecuária leiteira, oferecendo conhecimentos técnicos e experiências práticas relacionadas ao cuidado com os animais.

 Encontro de lançamento do Clube de Bezerras (Foto: Acervo Clube de Bezerras Selita)

O cuidado com os animais se tornou o ponto de partida para abordar temas como alimentação, saúde, manejo e bem-estar. Ao longo das atividades, os participantes receberam orientações técnicas e tiveram a oportunidade de trocar experiências com profissionais da cooperativa e outras famílias produtoras.

Mas o aprendizado não fica restrito aos participantes inscritos. Ao acompanhar os filhos e netos durante os encontros, familiares também passam a integrar as atividades, transformando o projeto em um espaço de convivência e troca de conhecimentos entre diferentes gerações.

 Visita na Fábrica da Selita (Foto: Acervo Clube de Bezerras Selita)

“O projeto abrange as crianças e os jovens, porém também atrai os adultos, os pais e até os avós, porque, nos encontros, eles vêm junto com as crianças”, explica Elaine Coelho, coordenadora do Clube de Bezerras da Selita.

Segundo ela, cada encontro proporciona uma oportunidade de aprendizado para toda a família, por meio de atividades e palestras.

“E aí aprende a criança e o pai, porque todo encontro tem uma atividade, uma palestra. Então, todas as pessoas vão levar alguma coisa de ensinamento para casa”, ressalta.

6º Encontro do Clube de Bezerras, realizado na fazenda do cooperado Rodrigo Monteiro, em Pacotuba, distrito de Cachoeiro de Itapemirim (ES) (Foto: Acervo Clube de Bezerras)

A participação dos familiares acrescenta outra dimensão à proposta. Enquanto os mais velhos compartilham experiências acumuladas na rotina das propriedades, os jovens têm acesso a orientações técnicas que podem contribuir para a atividade leiteira. Dessa forma, o projeto cria oportunidades para que o conhecimento circule entre gerações, sem depender exclusivamente da transmissão do conhecimento tradicional de pais para filhos.

Mais do que ensinar a cuidar de bezerras, a iniciativa busca fortalecer o vínculo das novas gerações com a atividade rural. Um processo que começa pelo contato com os animais, mas também passa pela convivência familiar e pela possibilidade de enxergar a produção leiteira como um caminho profissional.

Confira abaixo a entrevista completa com Elaine Coelho, coordenadora do Clube de Bezerras da cooperativa Selita.

O futuro também nasce da curiosidade

Em Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Espírito Santo, os irmãos Bernardo e Emanuely Vargas descobriram no Clube de Bezerras uma oportunidade de conhecer mais de perto o universo agropecuário. O interesse pela atividade não surgiu apenas do contato com os animais, mas também do incentivo de alguém que já fazia parte dessa realidade: o avô.

Para Bernardo, a decisão de participar começou com a curiosidade sobre o que existia por trás da rotina no campo. Foi o avô quem apresentou o projeto e despertou seu interesse em descobrir como funcionava, quais atividades eram realizadas e o que poderia aprender com a experiência.

A partir daí, as visitas à propriedade rural da família passaram a ser mais frequentes. Bernardo começou a aproveitar os momentos na casa do avô para observar a rotina, fazer perguntas e compreender melhor uma atividade que, embora presente na história familiar, ainda guardava muitas descobertas.

Eu quis entrar pela experiência e pela dúvida que eu tinha do mundo rural

Bernardo Vargas

A irmã, Emanuely, também encontrou no incentivo do avô uma motivação para se aproximar da agropecuária. Segundo ela, quando o Clube de Bezerras começou, a avô estimulou os netos a conhecer o projeto e a participar mais ativamente desse ambiente.

A experiência despertou nela o desejo de ampliar esse contato. Emanuely conta que pretende aproveitar as oportunidades que surgirem para continuar conhecendo o mundo agropecuário e aprendendo sobre a atividade.

O interesse dos irmãos mostra como a convivência familiar pode abrir caminhos para a formação das novas gerações. O avô, que já mantinha uma relação com o campo, passou a atuar também como incentivador das descobertas dos netos. O Clube, por sua vez, ofereceu um espaço para transformar essa curiosidade em aprendizado.

Família Vargas no curral com as bezerras (Foto: André Oliveira)

Ao conhecerem práticas de manejo e cuidados com os animais, Bernardo e Emanuely passaram a enxergar a produção rural para além da rotina observada nas propriedades. A experiência permite compreender que o trabalho com o gado exige conhecimento, responsabilidade e dedicação — elementos que também podem integrar um projeto de vida.

Isso não significa que os irmãos já tenham decidido seguir profissionalmente a atividade agropecuária. Mas revela algo importante para o debate sobre sucessão familiar: o interesse em permanecer próximo ao campo pode começar antes mesmo de uma escolha profissional.

Na trajetória de Bernardo e Emanuely, o incentivo do avô e a participação no Clube de Bezerras se encontram em um mesmo propósito: conhecer melhor uma atividade ligada à história da família e descobrir quais possibilidades ela pode oferecer no futuro.

Confira abaixo a entrevista com os irmãos Vargas, participantes do Clube de Bezerras da cooperativa Selita

Entre o amor pelo campo e o futuro de uma geração

O futuro da produção leiteira não será definido apenas pela quantidade de animais nas propriedades, pelos avanços tecnológicos ou pelos resultados econômicos das cooperativas. Ele também dependerá das oportunidades que as novas gerações encontrarem para construir seus próprios caminhos no campo.

Para Jó Bueno, a relação com a pecuária leiteira começou muito antes de qualquer reflexão sobre sucessão familiar. Aos 12 anos, ele recebeu sua primeira bezerra. Lembra-se de colocar o cabresto no animal e assumir, dia após dia, os cuidados que fariam daquela experiência uma parte importante de sua vida.

“Eu puxava ela todo dia, dava banho, dava ração. Daí em diante, nunca mais eu desagarrei”, recorda.

O que começou como uma responsabilidade na infância se transformou em um sentimento que Jó ainda carrega. Para ele, acompanhar o crescimento de um animal significa também construir uma relação que ultrapassa as tarefas cotidianas da propriedade.

“Quem faz isso e fala que não é apaixonado tá mentindo. Porque quem faz isso sente o animal crescendo ali, vai criando uma relação de amor. É muito bom, a conexão é muito boa”, afirma.

Jó Bueno — Feira de exposição em Castelo – (ES) (Foto: André Oliveira)

A lembrança ajuda a compreender o significado que o Clube de Bezerras pode assumir na trajetória de crianças e adolescentes. Assim como aconteceu com Jó, o contato diário com um animal pode despertar interesse, responsabilidade e afeto. Mas, em um cenário de transformações no meio rural, cultivar esse vínculo já não é suficiente para assegurar a continuidade da atividade.

Jó reconhece que os avanços tecnológicos são necessários para o desenvolvimento da agropecuária. Ao mesmo tempo, manifesta preocupação com o afastamento das novas gerações do trabalho no campo. Na avaliação dele, a modernização precisa caminhar ao lado da formação de jovens interessados em dar continuidade à produção rural.

É justamente nesse ponto que ele identifica a importância do Clube de Bezerras da Selita: incentivar crianças e adolescentes a conhecer a atividade leiteira e considerar a possibilidade de seguir os caminhos construídos por suas famílias.

Confira abaixo a entrevista com Jó Bueno, participante do Clube de Bezerras da cooperativa Selita.

A preocupação de Jó encontra eco nas histórias apresentadas ao longo desta reportagem. Na família Bueno, a produção leiteira atravessa gerações, acompanhada pelo desejo de preservar uma trajetória iniciada pelos antepassados. Já para Bernardo e Emanuely Vargas, o incentivo do avô abriu as portas para novas descobertas sobre o universo agropecuário.

São experiências diferentes, mas que revelam uma questão comum: a continuidade da vida no campo depende tanto dos conhecimentos transmitidos pelas gerações anteriores quanto das escolhas daqueles que estão chegando.

Aos 12 anos, Jó não poderia saber o significado que aquela primeira bezerra teria em sua trajetória. Sabia apenas que queria cuidar dela. Entre o cabresto, os banhos e a ração oferecida todos os dias, nasceu uma relação que o acompanharia pela vida.

Hoje, enquanto outras crianças descobrem experiências semelhantes no Clube de Bezerras, permanece a pergunta que atravessa as propriedades, as famílias e o futuro da pecuária leiteira capixaba: quem vai cuidar do futuro do leite?

Entre o legado e a escolha de continuar

Ao aproximar crianças e adolescentes da rotina da pecuária, o Clube de Bezerras da Selita procura fortalecer uma relação que, durante décadas, foi construída principalmente dentro das famílias. Mas despertar o interesse pela atividade é apenas parte de um desafio maior. Para transformar esse vínculo em uma perspectiva profissional, também serão necessárias condições de renda, formação, autonomia e qualidade de vida.

Na família Bueno, a história que começou com o avô de Josias atravessou gerações e chegou aos filhos. O desejo de continuidade permanece, mas o próximo capítulo dessa trajetória ainda está sendo escrito.

Entre os ensinamentos dos mais velhos e as descobertas dos mais novos, existe uma escolha que não pode ser herdada: a decisão de permanecer.

Talvez seja justamente aí que esteja o maior desafio da sucessão rural. Mais do que ensinar as crianças a cuidar de uma bezerra, é preciso construir um campo onde elas também possam imaginar, com liberdade, o próprio futuro.

Josias Bueno, Emaculada Bueno e Larissa Bueno na propriedade da Família (Foto: André Oliveira)

Para além da reportagem: os caminhos que conectam gerações

A produção desta reportagem também foi uma experiência de aproximação com a realidade do campo capixaba. Ao longo da apuração, foram percorridos quilômetros de estradas, atravessando diferentes localidades e visitando três municípios do Espírito Santo. Mais do que chegar aos destinos, cada percurso representou uma oportunidade de conhecer histórias que ajudam a compreender a importância da atividade leiteira para as famílias e para o desenvolvimento regional.

Entre propriedades rurais, conversas e entrevistas, foi possível ouvir diferentes gerações, conhecer suas trajetórias e compreender os desafios enfrentados por quem dedica a vida à produção de leite. Histórias marcadas pelo trabalho diário, pelas dificuldades da atividade, pelas conquistas construídas ao longo dos anos e, principalmente, pela alegria e pelo sentimento de pertencimento de quem escolheu viver no campo.

A experiência revelou que, por trás de cada propriedade, existem relações que ultrapassam a produção econômica. O conhecimento transmitido entre avós, pais e filhos, o cuidado com os animais e o orgulho pelas próprias origens ajudam a explicar por que a vida rural ocupa um lugar tão significativo na trajetória dessas famílias.

Nesse contexto, o cooperativismo aparece como um elemento de conexão. Ao reunir produtores em torno de objetivos comuns, a cooperação contribui para fortalecer a atividade leiteira, compartilhar conhecimentos e criar oportunidades que dificilmente seriam alcançadas de maneira isolada. A história da Selita e a iniciativa do Clube de Bezerras demonstram como esse modelo também pode participar da formação das novas gerações.

A vivência durante a produção da reportagem permitiu compreender que a sucessão rural não se resume à continuidade de uma atividade econômica. Ela envolve memórias, vínculos afetivos, responsabilidades e expectativas sobre o futuro. Ao mesmo tempo, mostrou que permanecer no campo exige condições concretas para transformar o amor pela atividade em uma escolha sustentável.

Mais do que reunir entrevistas, imagens e dados, a reportagem proporcionou um encontro com pessoas que fazem da produção leiteira parte de sua identidade. Uma experiência que ampliou o olhar sobre a realidade rural e evidenciou que o futuro do campo também depende da valorização de quem vive, trabalha e constrói sua história nele. – André Oliveira.