Cooperativismo abre caminhos para a inclusão profissional de pessoas com Síndrome de Down

Conheça a iniciativa da Associação Cariacica Down que, com o apoio do Fundo Social da Cooperativa Sicredi Serrana, transforma sonhos em treinamento profissional e abre as portas do mercado de trabalho para pessoas com Síndrome de Down

“A gente não só prepara eles para a Fábrica de Inclusão. Queremos eles trabalhando e mudando o mundo”, conta Débora Martins, assessora executiva da Cariacica Down (Foto: Maria Eduarda Ávila)

Guilherme Trindade e Maria Eduarda Ávila

Mais do que preencher vagas ou cumprir exigências legais, incluir é reconhecer que o direito de sonhar, criar e conquistar o próprio espaço pertence a todos de igual maneira. Quando a sociedade se reorganiza para acolher as potencialidades de cada indivíduo, a diversidade deixa de ser um desafio e passa a ser a força motriz de uma comunidade mais justa. É nesse horizonte de possibilidades que o cooperativismo encontra sua essência mais humana, transformando solidariedade em oportunidades reais de autonomia e cidadania.

É com essa premissa que a “Fábrica de Inclusão e Loja Social”, mantida pela Associação Cariacica Down com o apoio do Fundo Social da Cooperativa Sicredi Serrana, reescreve histórias. Aberta em agosto deste ano, o projeto prepara 26 jovens e adultos com Síndrome de Down para o mundo profissional, por meio de oficinas práticas, atendimento ao público e um forte suporte multidisciplinar, provando que a inclusão acontece quando as pessoas recebem as ferramentas para conquistar o mundo.

Um desses participantes é Vitor Merlo, 25 anos, que está tendo o primeiro contato com o mundo profissional. Ele relata vários sonhos de profissão, inclusive de ser médico e trabalhar na “Fábrica de Inclusão”. A alegria estampada no rosto ao contar os planos para o futuro é contagiante para qualquer cliente da loja.

“Meu sonho é trabalhar, tô indo muito bem e agradeço à Simone, que é nossa presidente, por ajudar minha família. Eu gosto de fazer camisa, caneca, estampas e tudo mais. Eu gosto bastante e um dia vou ser um bom trabalhador”, conta Vitor, que além de fazer parte da capacitação na “Loja Social”, é estudante de Educação Física e revela ser um craque no Futevôlei.

Vitor Merlo e Alicia Domingos são amigos na Fábrica. Enquanto ele gosta mais da produção de peças, Alicia diz gostar mesmo é do atendimento ao cliente (Foto: Maria Eduarda Ávila)

Leticia Farias, de 21 anos, é outra participante do projeto. Sempre com um sorriso no rosto, ela faz de tudo na atividade prática proposta pelos professores na Fábrica: fala com o cliente, mostra os produtos, informa preços e formas de pagamento, dobra a camisa vendida e a entrega no final. 

Durante a simulação, Letícia aprende, na prática, o atendimento ao cliente (Vídeo: Guilherme Trindade)

Os professores de Vitor e Letícia são Simone Bernardina e Darlan Alves. Eles contam que o propósito da “Fábrica de Inclusão”, além de prepará-los para o mercado de trabalho, é aumentar a autonomia. O curso para os assistidos é completo. Eles aprendem a produzir os diversos itens da loja, atender os clientes e diversas outras atividades que serão úteis no mercado de trabalho e na vida pessoal.

Eles trabalham com prensa, impressão de sublimação, impressão a laser. A produção é de canecas, camisas, chinelos, copos, tudo personalizado e feito por eles, que passam por cada setor de produção. O propósito é dar autonomia. Por exemplo, se o cliente chegar ali e estiver sozinho, eles conseguem atender o cliente, cobrar, produzir o material e entregar para o cliente

Darlan Alves

Enquanto os assistidos estão se desenvolvendo na “Fábrica de Ideias”, as mães aproveitam o ambiente aconchegante da Cariacica Down. Do lado de fora da “Loja Social”, há uma grande mesa de madeira onde elas esperam os filhos, enquanto tomam café e jogam conversa fora. Foi durante um desses cafés que Andréia Lúcia, a mãe de João Felipe, um menino tímido de 24 anos, aproveitou para dar um ‘puxão de orelha’ no filho.

“Ele diz que não quer trabalhar. Ele é muito sincero”, conta a mãe de 55 anos enquanto dá risada. Logo em seguida, ela defende o filho, lembrando que João Felipe a ajuda em casa, lavando a louça e varrendo a casa. Andréia revela esperanças de que a Fábrica ajude no desenvolvimento do filho, que já melhorou bastante desde a entrada na Cariacica Down, há três anos.

João Felipe aprende a dobrar roupas na Fábrica de Inclusão (Vídeo: Guilherme Trindade)

Depois que começou a frequentar o Cariacica Down, percebi a melhora na fala, no comportamento e no desenvolvimento dele. Ele tinha muitas crises de ansiedade e de choro. Depois que o coloquei aqui, melhorou. Ele também não estava dormindo à noite. O médico tinha passado um medicamento, mas quando ele veio para cá, não precisou mais.

Andréia Lúcia

Os assistidos não estão sendo preparados apenas para a Fábrica de Inclusão. A assessora executiva do Cariacica Down, Débora Martins, conta que o objetivo é ver eles conquistando o mundo. Ela afirma que a maioria dos assistidos nunca tiveram contato com o mercado de trabalho, que o programa é a primeira oportunidade que eles tiveram de aprender. “Hoje, o que a gente busca mesmo é a inclusão, que ainda é muito mascarada no Brasil”.

É pela determinação de mais inclusão na sociedade que o cooperativismo entra em cena. A ‘Fábrica de Inclusão e Loja Social’ é apoiada e financiada pelo Fundo Social do Sicredi Serrana. A especialista em desenvolvimento e cooperativismo da Sicredi Serrana, Mayony Dias, revela que o fundo é constituído por 2% do resultado líquido de toda a cooperativa para que esse recurso seja revertido diretamente para a comunidade. 

Mayony ressalta que o interesse pela comunidade e a preocupação social são princípios e deveres do cooperativismo. A “Loja Social”, como diversos outros projetos apoiados pela Sicredi, nasceu desse compromisso com as causas sociais. “Nós, enquanto Sicredi, acreditamos muito em projetos que trabalham com inclusão, diversidade e empreendedorismo. Por isso, entramos com uma proposta de investimento financeiro, como apoiadores desse projeto”.

O Sicredi Serrana não apenas apoia financeiramente a Associação Cariacica Down, mas também faz um trabalho de consultoria. A especialista conta que, antes mesmo de qualquer financiamento, representantes do Sicredi fazem uma visita para conhecer o contexto e a realidade da comunidade e, assim, ajudar na elaboração do projeto. Com a ‘Fábrica de Inclusão’, não foi diferente.  

As pessoas com Síndrome de Down querem ter autonomia e conquistar as próprias coisas. Esse projeto nasce do sonho da Associação Cariacica Down e da vontade de mostrar às pessoas que alguém com Síndrome de Down pode conquistar o mundo. Só que, muitas vezes, as pessoas os olham e acham que essa pessoa não tem o direito de sonhar 

Mayony Dias

O cooperativismo entra nessa história como ferramenta para garantir mais inclusão na sociedade. Mayoni acredita que o cooperativismo, em si, é a essência do Sicredi. Para ela, não tem como dizer que o Sicredi é uma cooperativa sem o compromisso genuíno pelas comunidades, não para obter lucros, mas sim pelo princípio de melhorar a vida social.

A alegria e incentivo são culturas na Cariacica Down (Vídeo: Guilherme Trindade)

Direito de sonhar  

O direito de sonhar com um emprego é reservado a poucas pessoas com Síndrome de Down. No Brasil, apenas 5,3% dessas pessoas estão no mercado de trabalho, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022. Já o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF Codeplan) apresentou uma pesquisa, em 2022, que listou os motivos para a baixa inserção desse grupo no mercado de trabalho, de acordo com organizações:

A falta de autonomia da pessoa com a síndrome para trabalhar (36,43%); insegurança dos familiares e responsáveis em permitir que elas trabalhem (22,86%); falta de formação ou capacitação necessária (14,29%); falta de oferta de vagas para essas pessoas (10,71%); e os empregadores que não oferecem apoio/treinamento (5%) ou preferem não contratar (5%).

Quando uma pessoa com Síndrome de Down consegue uma oportunidade no mercado de trabalho, ela ainda passa por fortes preconceitos. O pós-doutor em educação e especialista em Educação Especial e Inclusiva Israel Dias analisa que a sociedade ainda tem muitas questões e barreiras que impedem essas pessoas de realmente exercerem a cidadania como pessoas capazes.

O especialista ressalta que a inclusão é muito defasada na maioria das empresas, mesmo obrigatória por lei. A Lei de Cotas obriga as empresas com mais de 100 funcionários a ter uma porcentagem de trabalhadores com deficiência. Israel, porém, afirma que, em geral, as empresas só cumprem a lei, mas sem realmente incluir essas pessoas, continuando com o preconceito de achar que ela não é capaz.

A empresa precisa realmente investir para receber essas pessoas, oferecendo cursos para que saibam o que vão fazer e capacitando também os outros funcionários para acolher e receber as pessoas com deficiência. É obrigatório cumprir a cota de pessoas com deficiência, mas o que mais percebemos é que a pessoa com deficiência precisa se adaptar à empresa. E deveria ser o contrário: a empresa tem que se adaptar à pessoa com deficiência

Israel Dias

A conscientização da sociedade é, para o especialista, o fator primordial para que essas pessoas possam realmente ter acesso aos bens culturais a que têm direito enquanto pessoas. Ele cita, inclusive, a importância da Cariacica Down e da ‘Fábrica de Inclusão e Loja Social’ para conscientizar as pessoas em relação a isso: saber que as pessoas com deficiência têm capacidade para atuar profissionalmente. 

Em concordância com ele, a psicóloga e coordenadora da equipe de saúde da Apae de Viana, Ingrid Teixeira, orienta que as empresas devem conhecer bem a Lei Brasileira de Inclusão e compreender o perfil do candidato contratado, conhecendo suas particularidades. Ingrid adverte que, antes de entender a deficiência, é preciso compreender que esses profissionais são indivíduos com potencialidades e capacidade de executar seu trabalho.

A psicóloga explica também que o trabalho ajuda a desenvolver a autonomia e a independência financeira da pessoa com Síndrome de Down. Ingrid conclui que as pessoas com deficiência têm direito, perante a lei, a um emprego digno, em ambiente acessível e inclusivo, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas.

A autonomia e o fortalecimento de vínculos são direitos. Estar no mercado de trabalho também é um direito das pessoas com deficiência, porque elas são capazes. Antes da deficiência, vem um ser humano que precisa ser compreendido. Não é um quebra-cabeça que precisa ser montado, mas um ser humano que precisa ser compreendido em suas especificidades

Ingrid Teixeira

Cariacica Down

Foi buscando autonomia, inclusão e compreensão que Paula Maria Schaydegger criou a Associação Cariacica Down, em 2017. Mãe de uma menina com Síndrome de Down, atualmente com 21 anos, Paula criou a instituição motivada em ter algo que atenda as especificidades da filha, proporcionando a ela a oportunidade de ter amigos e autonomia.

A instituição nasceu por meio do voluntariado. Paula conseguiu reunir fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais, professores, educadores alfabetizadores e professores de educação física. Em dezembro de 2017, 48 famílias foram atendidas de forma voluntária. No início de 2019, o Cariacica Down conseguiu o primeiro recurso financeiro e começou a pagar os profissionais. “Nossa principal dificuldade sempre foi conseguir recursos. Então, começamos a nos profissionalizar para enfrentar esse desafio”, relata Paula.

Com essa profissionalização, a associação foi crescendo espontaneamente junto do objetivo inicial: observar as especificidades de cada assistido. Observando os preconceitos sofridos no mercado de trabalho pelas pessoas com deficiência, a Cariacica Down decidiu agir e criar a “Loja Social” no Shopping Moxuara. Na dificuldade de conseguir recursos financeiros, entrou o poder do cooperativismo com o Sicredi Serrana.

Não se trata de uma iniciativa em que uma empresa simplesmente chega, cria uma fábrica e vai embora. É algo que tem valor e continuidade na comunidade. A “Loja Social” ajuda a prepará-los para o mercado de trabalho e dar visibilidade às suas capacidades. Elas desenvolvem habilidades e experiências que podem compor seus currículos, enquanto as empresas passam a conhecer melhor o potencial desses profissionais

Paula Maria

Durante seis meses, a “Loja Social” funcionou no Shopping Moxuara, até que a idealização foi além: com apoio do Sicredi, foi idealizada também a “Fábrica de Ideias”, inaugurada em agosto deste ano. O objetivo da Fábrica é desenvolver os assistidos na produção dos produtos, além das habilidades como atendimento ao público e vendas.

Uma outra forma de ajuda na inclusão na cidadania das pessoas com Síndrome de Down é na abertura de contas bancárias para os assistidos. Paula acredita que essa ação contribui para que essas pessoas tenham mais independência e acesso a direitos e instrumentos de cidadania. Para ela, o cooperativismo entrou nessa história, por meio do Sicredi, não só como aporte financeiro, mas, também, como oportunidade de promover autonomia e inclusão.

Opinião dos autores:
Conhecer a história da “Fábrica de Inclusão e Loja Social” foi muito gratificante, principalmente por estar no local e conhecer as pessoas envolvidas. Logo que chegamos, fomos recebidos em uma grande mesa, junto das mães dos assistidos, e pudemos conversar e trocar experiências com elas, que são apaixonadas na Cariacica Down. Os assistidos são sensacionais, eles querem abraçar, contar da vida, mostrar os produtos, tudo isso sem tirar o sorriso do rosto. São histórias muito bonitas que estão sendo impactadas pela beleza do cooperativismo, por meio do Sicredi, que genuinamente se importa com as comunidades locais. Agradecemos imensamente o apoio de Débora, que fez um tour pela Associação, Paula, que nos recebeu, Mayoni, que falou em nome do Sicredi com muita paixão pelo projeto e, claro, os assistidos, pelos abraços e risadas.

Diagramação: Redação Lacos

Edição Final: Guilherme Trindade

Imagem do Destaque: Maria Eduarda Ávila

Data da postagem/veiculação: 09/10/2026