Mulheres no cooperativismo: a importância da presença feminina na liderança

A trajetória de Renata Eller mostra como mulheres vêm conquistando espaço em setores historicamente ocupados por homens

Elas ocupam espaços, transformam histórias e constroem novas possibilidades no cooperativismo (Foto:Arquivo pessoal) 

Gabriella Guerra

A participação das mulheres em espaços de liderança tem ganhado espaço no cooperativismo capixaba, mas elas ainda são minoria em algumas das principais instâncias de decisão. Entre os exemplos dessa presença está Renata Eller, que há duas décadas atua na Cooperativa de Transporte da Região Sudoeste Serrana (Cooptac), em Afonso Cláudio, onde passou por diferentes funções até chegar à presidência.

A história de Renata começou antes mesmo de sua entrada na cooperativa. Ainda jovem, ela acompanhava o trabalho da família com o transporte escolar e as dificuldades enfrentadas para manter a atividade. Em uma época em que o serviço era realizado por meio de cartas-convite e veículos abertos, a família disponibilizava os próprios veículos e a mão de obra, mas enfrentava atrasos nos pagamentos e dificuldades para manter as despesas.

“Eu lembro que minha mãe sempre ficava triste, questionava, que iriam largar, que não dava”, conta Renata. Ela vivenciou vários momentos em que precisava escolher quais contas conseguiria pagar enquanto aguardava o recebimento pelos serviços prestados.

Renata ao lado da família, que faz parte da trajetória que realiza no cooperativismo (Foto: Arquivo Pessoal)

Por causa das dificuldades da família, durante muito tempo, Renata não queria trabalhar com transporte. A mudança aconteceu em 2006, quando sua mãe, uma liderança conhecida em Afonso Cláudio, sofreu um grave acidente e permaneceu 45 dias hospitalizada em Vitória. Enquanto ela se recuperava, Renata precisou assumir o transporte escolar da família.

Naquele momento, ela foi até uma reunião relacionada ao serviço e comunicou que passaria a ser responsável pelo transporte escolar naquela localidade. Pouco depois, diante de mudanças na legislação que passaram a exigir veículos fechados, comprou uma Kombi para continuar trabalhando.

A necessidade de assumir o negócio da família acabou se tornando o início de uma história que se estenderia por duas décadas, e a levaria a participar da Cooptac.

Da participação à liderança

Do Conselho Fiscal à presidência: Renata percorreu diferentes etapas dentro da Cooptac (Foto: Arquivo pessoal)

A Cooperativa de Transporte da Região Sudoeste Serrana foi constituída em 26 de abril de 2003, em Afonso Cláudio, por um grupo de 45 pessoas. Na época, Renata ainda não tinha a idade necessária para integrar formalmente a cooperativa, mas acompanhava o movimento e observava a organização dos trabalhadores.

Foi nesse período que ela passou a enxergar o cooperativismo de outra maneira. O modelo, que inicialmente não despertava seu interesse, passou a representar uma forma de reunir pessoas em torno de objetivos comuns.

Depois de completar a idade necessária para se tornar cooperada, Renata ingressou na organização. Em 2006, passou a integrar o Conselho Fiscal, onde permaneceu por cerca de dois anos. Depois, ocupou uma posição no Conselho Administrativo, tempo depois tornou-se diretora-secretária, vice-presidente e em 2026 tornou-se presidente da cooperativa. 

A trajetória de Renata também é acompanhada de perto por outras mulheres que trabalham na Cooptac. Jéssika Giestas Paiva Araujo, analista administrativa da cooperativa, está na organização desde 2019. Ela atua no suporte às demandas internas da cooperativa e na organização das atividades que fazem parte da rotina. Aos 29 anos, ela também concilia a vida profissional com a maternidade: é mãe de uma menina de dois anos. A experiência de trabalhar em uma cooperativa, segundo ela, também contribuiu para ampliar sua visão sobre a importância da participação das mulheres no ambiente profissional e nos espaços de decisão.

Jéssika Giestas Paiva Araujo exerce um papel importante na organização das atividades administrativas da Cooptac (Foto: Arquivo Pessoal)

Jéssika afirma que quando entrou na cooperativa foi quando passou a conhecer melhor a atuação de Renata e o próprio cooperativismo. “Ela sempre trabalhou de uma forma muito responsável, sempre buscando a união, participação e aquela construção coletiva”, afirma Jéssika. Para ela, a chegada de Renata à presidência representa uma mudança importante dentro da cooperativa, que tem 23 anos de existência e, pela primeira vez, passou a ser comandada por uma mulher.

Jéssika também destaca a forma como Renata conduz situações de dificuldade. Segundo ela, uma das características que mais chamam atenção é a capacidade de buscar soluções sem transformar os problemas em conflitos. “Ela não se apega ao problema, ela tem essa capacidade de se apegar à forma de resolver o problema”, afirma.

A presença de Renata na presidência também é percebida por quem acompanha de perto sua atuação na cooperativa. Para Jéssika, ter uma mulher à frente da organização representa uma mudança importante e mostra que outras mulheres também podem ocupar espaços de liderança.

A convivência fez com que Jéssika enxergasse na trajetória de Renata uma referência para outras mulheres. “Quando eu for grande, eu quero ser igual a você”, conta, ao explicar uma brincadeira que costuma fazer com a presidente.

Mulheres ainda são minoria nos espaços de decisão

A presença de Renata na liderança ocorre em um cenário no qual as mulheres ainda ocupam uma parcela menor de determinados espaços de decisão das cooperativas capixabas.

Dados do Anuário do Cooperativismo Capixaba 2025, referentes a 2024, apontam que as mulheres ocupavam 14,7% das posições nos Conselhos de Administração e 21,9% das posições nos Conselhos Fiscais das cooperativas do Espírito Santo. Nas funções de direção e gestão, a participação feminina chega a 33,7%.

Para Carlos André Santos de Oliveira, diretor-executivo do Sistema da Organização das Cooperativas Brasileiras no Espírito Santo (OCB/ES), a presença das mulheres na gestão é importante para ampliar a diversidade de perspectivas nas decisões e tornar as organizações mais representativas. Segundo ele, experiências, habilidades e visões estratégicas diferentes contribuem para a governança, a gestão e a inovação das cooperativas.

Carlos André Santos de Oliveira aponta os desafios para ampliar a presença das mulheres nos espaços de decisão do cooperativismo capixaba. (Foto: Arquivo Pessoal)

Carlos André também fala sobre as dificuldades para ampliar essa participação. Entre eles estão barreiras culturais, a conciliação entre trabalho e responsabilidades familiares e a baixa representação feminina em espaços de decisão. Segundo ele, as dificuldades podem ser mais perceptíveis em setores historicamente ocupados por homens, como transporte e agropecuária.

Na Cooptac, Renata percebe mudanças na presença feminina ao longo dos anos. Ela conta que, no início, eram poucas mulheres trabalhando diretamente no transporte. Hoje, estima-se que mais de 20 mulheres estejam ao volante dentro da cooperativa, diante de aproximadamente 100 homens.

A comparação mostra que, apesar de ainda não haver equilíbrio entre homens e mulheres, a participação feminina aumentou ao longo dos anos. Renata lembra que, no início de sua trajetória, ela e outra mulher estavam entre as poucas profissionais no transporte.

Confiança gera confiança, trabalho gera trabalho

A cooperativa ampliou sua atuação desde a criação e, segundo informações institucionais, atende municípios da Região Sudoeste Serrana e outras localidades do Espírito Santo. Registrada na OCB/ES desde julho de 2003, a Cooptac afirma trabalhar com uma gestão participativa e baseada nos princípios do cooperativismo.

Para Renata, a estrutura construída pela cooperativa é resultado do esforço conjunto dos cooperados. Ela cita como exemplo os serviços e recursos disponibilizados aos integrantes, como estrutura para abastecimento e veículos de apoio quando um automóvel apresenta problemas.

Não é porque um só estruturou, foi o coletivo, todo mundo junto

Na Cooptac, o trabalho coletivo reúne cooperados em torno de objetivos comuns (Foto: Arquivo Pessoal)

O trabalho que também envolve cuidado

A atuação feminina no cooperativismo não se limita aos cargos administrativos. No caso de Renata, a própria atividade desenvolvida pela Cooptac envolve o transporte escolar e, consequentemente, o cuidado diário com crianças.

Para ela, transportar estudantes representa uma responsabilidade que precisa ser tratada com atenção.

Nós estamos transportando o futuro de amanhã, que são as crianças

Renata defende que os profissionais tratem os estudantes com o mesmo cuidado dedicado aos próprios filhos. Segundo ela, a atenção precisa ser redobrada porque o trabalho acontece nas estradas e envolve diferentes situações.

Ao mesmo tempo, ela considera gratificante acompanhar a relação construída entre os profissionais e os alunos. O contato cotidiano, segundo Renata, cria vínculos e permite que os trabalhadores percebam quando as crianças se sentem bem cuidadas.

A experiência também influencia a relação de Renata com os próprios filhos. Ela conta que percebe na filha características de liderança e observa que a menina costuma assumir posições de destaque na escola, participar de reuniões e se envolver nas atividades.

Para Renata, o exemplo dentro de casa também pode influenciar as novas gerações.

Cooperativismo e autonomia

Além de ocupar espaços de gestão, a participação no cooperativismo pode representar uma forma de autonomia econômica para as mulheres. Segundo Carlos André, o modelo permite geração de renda, empreendedorismo, acesso a mercados, capacitação e participação nos resultados coletivos.

Para ele, a participação feminina também pode fortalecer a confiança, o protagonismo e a inclusão social e econômica.

Renata relaciona essa construção à própria experiência. Ao longo da trajetória, participou de cursos e capacitações e passou a defender a formação contínua como parte fundamental do desenvolvimento pessoal e profissional.

A educação também está ligada ao legado que pretende deixar para os jovens. Inspirada pela mãe, que considera sua principal referência, Renata defende que as pessoas continuem estudando e acumulando conhecimento.

“Minha inspiração é minha mãe, que sempre ficou ali na liderança, a vida inteira”, afirma Renata. Ela também esteve presente na construção da relação da família com a comunidade de Afonso Cláudio. Segundo ela, a disposição para ajudar outras pessoas é um valor aprendido desde cedo.

Para Renata, ocupar espaços de liderança exige respeito, mas também disposição para seguir em frente e buscar novas oportunidades.

A gente pode o que a gente quiser, do jeito que a gente quiser, do nosso jeito.

A trajetória de Renata, iniciada em meio às dificuldades do transporte escolar da família e construída dentro de uma cooperativa formada por 45 pessoas, acompanha uma transformação maior: a presença de mulheres em atividades e espaços de liderança antes ocupados majoritariamente por homens.

No cooperativismo capixaba, os números ainda mostram uma participação feminina menor em conselhos e instâncias de decisão. Ao mesmo tempo, histórias como a de Renata revelam mulheres ocupando diferentes funções, construindo autonomia, participando da gestão e ampliando, gradualmente, seu espaço dentro das cooperativas.

Para ela, o princípio que sustenta essa caminhada continua sendo coletivo: cooperativismo é, acima de tudo, feito de pessoas.

Relato da experiência da autora

Como mulher, escrever sobre a trajetória de Renata me fez olhar para essa história de uma forma ainda mais pessoal. Ver uma mulher ocupar a presidência de uma cooperativa, especialmente em uma área como o transporte escolar, representa mais do que a conquista de um cargo de liderança. Representa a abertura de um caminho para outras mulheres.

Quando uma mulher ocupa um espaço que antes parecia distante, ela também mostra que outras podem chegar lá. É um incentivo para que mais mulheres participem das decisões, assumam responsabilidades e acreditem na própria capacidade.

A história de Renata também mostra que essa conquista não acontece de uma hora para outra. Ela passou por diferentes funções, aprendeu, participou e conquistou seu espaço ao longo dos anos. Hoje, além de liderar uma cooperativa, tornou-se referência para outras mulheres que convivem com ela.

Como mulher, fico feliz em ver esse movimento acontecer. Acredito que quando uma mulher chega ao topo, ela não chega sozinha: leva consigo a possibilidade de que outras também possam chegar.