Quando o dado vira decisão, a administração chega à sala de aula 

Plataformas de indicadores ajudam a transformar informações sobre a cidade em planejamento, orçamento e políticas públicas; em Vitória, dados da educação mostram como esse processo pode chegar à rotina das escolas 

(Foto: Bruno Caetano)

Bruno Caetano

A tela do computador exibe dezenas de tabelas, gráficos de dispersão e camadas cartográficas divididas por bairros. Em gabinetes da administração pública, linhas estatísticas e porcentagens medem índices de evasão escolar, taxas de vulnerabilidade social e cobertura de serviços básicos. Mas quando esses números atravessam as avenidas de Vitória e sobem as ladeiras do Território do Bem, cada dado ganha rosto, endereço e urgência.

E quem sobe os escadões de comunidades como São Benedito, Itararé, Bairro da Penha e Bonfim no dia a dia, sabe que a presença do poder público não pode ser fruto do acaso. A alocação de um professor de apoio, a expansão de uma turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) ou a abertura de vagas em tempo integral são decisões administrativas que definem se uma trajetória será interrompida ou se ganhará um novo horizonte.

É nessa conexão que atua o ObservaVIX, ecossistema de inteligência de dados da Prefeitura de Vitória. Regulamentada pelo Decreto nº 17.289/2018, a ferramenta monitora em tempo real mais de 780 indicadores de desempenho municipais, integrando o planejamento estratégico, o Plano de Metas e o Plano Plurianual (PPA). A iniciativa ajudou a capital capixaba a alcançar o primeiro lugar no Ranking Capixaba de Transparência e Governança Pública em 2026, com nota máxima de 100 pontos. Mas, como transformar essa montanha de dados brutos em decisões que efetivamente mudem a realidade de quem mais precisa?

A cidade na tela 

Para o vice-presidente do Conselho Regional de Administração do Espírito Santo (CRA-ES), Adm. Erthelvio Nunes, a resposta está no papel fundamental do administrador público e no uso de informações concretas para orientar as decisões nas cidades. 

Em um cenário onde as demandas sociais são urgentes e o orçamento é finito, governar sem indicadores precisos custa caro à sociedade. “Quando observamos a gestão pública voltada para o território, é possível direcionar as ações a partir de um diagnóstico real do município. Ao conhecer dados como escolaridade e renda per capita, o administrador público consegue definir prioridades, planejar políticas, elaborar o orçamento e decidir onde aplicar cada recurso”, explica Erthelvio.

Vice-presidente do CRA-ES defende o uso de indicadores para definir prioridades e direcionar recursos (Foto: Divulgação/CRA-ES)

Segundo o especialista, a tomada de decisão no setor público possui uma dinâmica própria, sujeita a ritos legais, licitações e prazos que demandam planejamento de longo prazo. “As ações na gestão pública nem sempre são imediatas; dependem de processos que muitas vezes são lentos e burocráticos. Portanto, quanto mais informação qualificada você tiver, melhor será a sua tomada de decisão. Essa é uma das maiores ferramentas da administração pública”, pontua.

Erthelvio ressalta que a presença de ferramentas como o ObservaVIX impede a fragmentação e o desperdício do dinheiro público. “O cidadão na ponta precisa saber que o que está sendo executado na sua região não foi fruto de um aspecto aleatório, casual ou de interesses de determinados grupos. Uma plataforma como essa permite que os serviços certos sejam colocados no lugar exato para atender a demanda correta”, complementa o vice-presidente do CRA-ES. 

Um ecossistema de inteligência para mapear as desigualdades

Dados territorializados ajudam a identificar diferenças entre regiões e bairros (Foto: Reprodução do site PMV)

Em Vitória, a gestão dessas informações está sob responsabilidade da Secretaria de Gestão e Planejamento (Seges). Segundo o subsecretário de Planejamento e Gestão Estratégica, Marcus Gregório Serrano, os indicadores do ObservaVIX são usados para acompanhar a execução de ações previstas nos planos municipais e identificar pontos que precisam ser revistos ao longo do processo.

Segundo a Gerência do Observatório de Indicadores (OBV/Seges/PMV), o ObservaVIX reúne dados produzidos por diferentes áreas da administração municipal e informações de outras fontes públicas e privadas. São mais de 780 indicadores relacionados a áreas como Saúde, Educação, Segurança, Habitação, Assistência Social, Mobilidade, Finanças e Meio Ambiente.

No planejamento, esses dados podem ser usados para acompanhar metas, identificar gargalos e subsidiar projetos, ações e instrumentos como o Plano de Metas e o Plano Plurianual (PPA). “O acompanhamento dos indicadores permite que a administração avalie a evolução das ações previstas nos planos municipais e faça os ajustes necessários ao longo de sua execução”, explica Marcus.

Os números também podem ser analisados a partir das nove Regiões Administrativas de Vitória e dos bairros que fazem parte delas. Com isso, informações sobre vulnerabilidade socioeconômica, segurança, saneamento, educação e oferta de serviços podem ser observadas de acordo com o território. A ferramenta, no entanto, depende da qualidade e da forma como essas bases são produzidas. Nem todos os dados possuem regionalização ou geolocalização, o que ainda dificulta análises mais detalhadas em escala de bairro.

Esse é um dos desafios apontados pela própria gestão: manter as bases atualizadas, padronizar as formas de coleta e preparar as equipes para trabalhar com essas informações. O ObservaVIX também reúne indicadores relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e mantém diálogo com o repositório histórico Vitória em Dados, que concentra outras informações sobre o município.

Na prática, a questão é fazer com que números produzidos por diferentes áreas possam ser lidos em conjunto antes de uma decisão sobre onde aplicar recursos ou ampliar determinado serviço. É nesse ponto que o dado deixa de ser apenas registro e passa a integrar o processo de planejamento.  “Você não vai construir uma nova escola ou creche onde já existe oferta com vagas sobrando, assim como não vai concentrar policiamento onde os índices mostram menor ocorrência. O ObservaVIX coloca a cidade na mão do gestor, dando previsibilidade para saber quais resultados precisam ser entregues à sociedade”, diz Erthelvio Nunes 

Os dados que chegam às escolas do Território do Bem

(Fotos: Bruno Caetano)

Se nas planilhas os indicadores apontam vulnerabilidades e taxas de escolaridade na Região Administrativa de Jucutuquara, na vida prática do Território do Bem, que reúne nove comunidades e concentra mais de 31 mil moradores, cerca de 10% da população da capital, esses dados se transformam no desafio cotidiano de mais de 2.700 estudantes atendidos na rede municipal.

É nesse cenário que a gestão educacional precisa ser ágil e humanizada. Um dos exemplos mais nítidos do impacto do direcionamento correto de políticas é o EJA. Quem retorna aos bancos escolares na idade adulta carrega jornadas exaustivas de trabalho, responsabilidades domésticas e a superação de estigmas históricos de exclusão.

Cris Pontiá vivenciou de perto a interrupção desse direito. Mãe jovem, precisou adiar os estudos formais para garantir o sustento da família. Anos depois, ao perceber como a falta de escolaridade limitava sua voz no dia a dia, decidiu enfrentar o retorno à sala de aula.

Cris retomou os estudos na vida adulta e chegou ao ensino superior. (Foto: Bruno Caetano)

“Tudo que é novo e transformador nos causa medo, mas no estudo a gente é como uma criança: primeiro dá o passinho, engatinha, anda… e depois está correndo, porque o conhecimento é libertador e te coloca em lugares que você nunca pensou em chegar”, relata Cris.

Após concluir a etapa fundamental e técnica, ela ingressou no ensino superior em Direito. A história de Cris traduz o objetivo final da boa governança: transformar indicadores de baixa escolaridade em oportunidades reais de emancipação.

Gestão escolar e pertencimento comunitário

(Fotos: Bruno Caetano)

Para que a política desenhada no gabinete municipal se concretize, o planejamento pedagógico nas unidades de ensino também adota o território como matéria-prima. Na EMEF Prezideu Amorim, a diretora Rúbia Xibili compreende que a eficiência da gestão escolar depende do vínculo afetivo e da escuta qualificada dos estudantes.

“Eu subo esse escadão, chamo eles para a aula… Eles começaram a perceber um acolhimento: ‘eu sou visto, eu importo’. O território onde eu moro é difícil, mas quem está dentro da escola compreende”, afirma a diretora. 

Sob essa ótica, a estrutura física da escola, considerada uma das mais completas da região, mantém seus portões abertos aos fins de semana para práticas de capoeira, jiu-jitsu e futebol, consolidando o espaço escolar como polo comunitário.

A metodologia territorializada também orienta o trabalho na sala de aula. Por meio de projetos como o “Cria Bonfim”, coordenado pela professora Lorraine Garcia, os alunos pesquisam a história oral do bairro com moradores antigos e debatem identidade e cidadania.

Alunos pesquisam a história do bairro por meio da memória de moradores. (Fotos: Bruno Caetano)

Na EMEF Paulo Roberto Vieira Gomes, o professor Vinícius Ferreira utiliza a tradição das escolas de samba locais para introduzir a musicalização como ferramenta de combate à violência e ao preconceito.

O atendimento especializado e a alfabetização completam o ciclo de prioridades monitoradas pela rede. Em Vitória, que alcançou a 2ª posição no ranking nacional de alfabetização de crianças até 7 anos, com 73,2%, o investimento em duplas docências, inclusão digital e acolhimento de alunos neurodivergentes exige alocação de orçamento público para garantir que nenhuma criança fique para trás.

Transparência como direito

(Fotos: Bruno Caetano)

Para que a administração continue funcionando a serviço da população, a transparência pública precisa ir além do cumprimento protocolar de exigências legais. Erthelvio Nunes adverte que painéis de dados só cumprem sua missão se forem inteligíveis para quem paga os impostos.

“A transparência pela transparência, ou o indicador pelo indicador, não é útil se continuar segregando ou elitizando a informação”, argumenta o vice-presidente do CRA-ES. 

Segundo ele o dado precisa ser desdobrado de tal forma que o morador entenda por que determinado investimento foi feito em seu bairro ou em outra região. “Muitas vezes a percepção da comunidade foca em segurança, mas os indicadores mostram que a prioridade orçamentária emergencial precisava ser a educação”, afirma.

Como sintetiza o defensor público Renzo Gama, que acompanha de perto as demandas por vagas e serviços na região, a educação orientada por diretrizes claras é o pilar estrutural para romper ciclos de pobreza. “A educação é o principal instrumento para a superação de vulnerabilidades e a redução das desigualdades. Quanto maior o nível de escolaridade, maior o leque de oportunidades para que o cidadão construa sua autonomia”, diz.