Outras histórias: encontro na Faesa aproxima estudantes de Jornalismo e jovens do IOB
O encontro reuniu universitários e participantes do Instituto Oportunidade Brasil em atividades de fotografia e reflexão sobre questões sociais. A Jornada terá como resultado uma grande reportagem construída a partir da troca de experiências e do olhar dos próprios jovens

André Oliveira
Cidadania e jornalismo
Câmeras nas mãos, experiências compartilhadas e diferentes olhares sobre uma mesma realidade marcaram, nesta sexta-feira (4), o primeiro encontro entre estudantes do 6º período de Jornalismo da Faesa Centro Universitário e jovens do Instituto Oportunidade Brasil (IOB). A atividade propõe unir jornalismo e cidadania e faz parte do Projeto Integrador da disciplina de Comunicação e Cidadania, ministrada pela professora Mirella Bravo.
O encontro deu início a uma jornada que pretende aproximar a formação acadêmica das experiências dos participantes do Instituto. Ao longo do projeto, universitários e jovens trabalharão juntos na construção de narrativas jornalísticas, em um processo que terá como resultado final uma grande reportagem.
Neste primeiro contato, a programação passou pelo estúdio fotográfico da instituição e seguiu com uma dinâmica que utilizou a criação de jogos de tabuleiro para estimular discussões sobre questões sociais. Mais do que cumprir etapas de uma atividade acadêmica, o dia serviu para que os integrantes das equipes começassem a se conhecer e estabelecer vínculos.

Para a pedagoga Krys Keyser Dantas, a reação dos participantes demonstrou a importância desse primeiro contato.
Os meninos do Instituto Oportunidade Brasil fizeram uma festa. Estão maravilhados com o ambiente acadêmico e com os alunos. A troca foi feita, falamos sobre o livro O perigo de uma história única e foi uma troca muito forte

O desafio de construir outras histórias
Um dos referenciais que orientam o projeto é o livro O perigo de uma história única, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. A obra propõe uma reflexão sobre os riscos de reduzir pessoas, grupos sociais, culturas e lugares a uma única narrativa, deixando de lado a diversidade e a complexidade de suas experiências.
A discussão vem sendo trabalhada pela professora Mirella Bravo com os estudantes de Jornalismo na disciplina de Comunicação e Cidadania e também passou a fazer parte das atividades desenvolvidas com os jovens do IOB.
A proposta é levar essa reflexão para a prática jornalística. Em vez de produzir histórias apenas sobre os jovens, o projeto busca construir narrativas com eles, incorporando suas experiências, percepções e formas de enxergar a própria realidade.
Krys resume o desafio que começa a partir desse primeiro encontro. “Foi um momento que a gente dificilmente vai ter outro, porque agora é construir outras histórias”, afirmou.

Entre os participantes, a discussão ganhou uma dimensão pessoal. Sophia Viana, de 16 anos, relacionou a leitura à possibilidade de falar sobre a própria trajetória.
“Eu gostei de dar meu depoimento sobre a minha história única, que é relacionado ao livro que estamos lendo. Foi uma coisa muito gostosa estar aqui hoje”, contou.

Pelas lentes da fotografia
A primeira experiência prática aconteceu no estúdio fotográfico da Faesa. Antes de colocar as câmeras nas mãos, os participantes acompanharam uma apresentação sobre conceitos de fotografia. Depois, estudantes e jovens experimentaram na prática o funcionamento do estúdio, seus equipamentos e as possibilidades de produção de imagens.
A professora Mirella Bravo explica que a atividade também foi pensada como parte do processo de aproximação das equipes que trabalharão juntas nas próximas etapas.
“Nesse primeiro encontro, tivemos a oficina de fotografia com a produção de fotos de estúdio dos jovens do IOB e das equipes formadas com eles e os estudantes de Jornalismo. Uma interação fundamental para iniciarmos a produção da grande reportagem, que será o resultado do projeto”, explicou.

Para alguns jovens, aquela era a primeira oportunidade de manusear equipamentos fotográficos e conhecer um estúdio profissional. Aline da Penha, participante do IOB, experimentou uma atividade que até então não fazia parte de sua rotina.
“Esse meu primeiro dia na Faesa foi bem divertido. Eu aprendi a mexer em câmeras fotográficas, coisa que eu não sabia”, contou.

Nicolas Lamas, de 18 anos, também se surpreendeu com o espaço.
Foi muito maneiro entrar na sala de fotografia e ver aquele estúdio, com a parede branca, os equipamentos e as câmeras profissionais. Foi uma experiência que eu nunca tinha vivido e, para mim, foi muito legal

Sophia encontrou uma maneira ainda mais espontânea de resumir a experiência. “Gostei muito de tirar fotos. Tirei muitas fotos, babado”, contou, entre risos.

Quando quem aprende também ensina
A troca proporcionada pela oficina não ficou restrita aos participantes do Instituto. Para os estudantes de Jornalismo, o encontro representou uma oportunidade de compartilhar fora da sala de aula conhecimentos adquiridos durante a graduação.
A estudante Isadora Altoé, de 24 anos, viu na experiência uma possibilidade de apresentar parte da própria formação e, ao mesmo tempo, exercitar uma forma mais acessível de transmitir conhecimentos sobre fotografia.
“Enquanto estudante de Jornalismo, vi a importância de mostrar a minha realidade, o meu trabalho e o que aprendo na faculdade. Falar de fotografia é algo muito prazeroso para mim, porque já tenho uma familiaridade, e passar isso de forma fácil para quem não entende de fotografia foi bem legal”, afirmou.

Mas foi a reação dos participantes que mais chamou sua atenção.
“O mais interessante foi ver a empolgação dos jovens com o ambiente, admirando o estúdio fotográfico e participando daquele momento único”, ressaltou Isadora.
A percepção da universitária encontra eco na experiência relatada pelos próprios jovens. Para além dos equipamentos e das fotografias, o encontro começou a estabelecer afinidades entre integrantes das equipes.
“Eu fiquei muito feliz com o meu grupo, pois estou com um pessoal que se encaixa um pouco comigo. Eles gostam de esportes, curtem alguns times de futebol e eu gostei muito de fazer parte do grupo deles”, contou Nicolas.
Questões sociais entram no jogo
Depois da experiência no estúdio, uma nova atividade levou os grupos a outro desafio. Estudantes e participantes do IOB foram provocados a refletir sobre questões sociais e, a partir das discussões, iniciar a construção de jogos de tabuleiro.
A dinâmica integra o roteiro do Projeto Integrador e busca estimular diferentes formas de abordar problemas presentes na sociedade. Entre as questões relacionadas ao campo de atuação do IOB estão desigualdade racial, acesso à educação e qualificação, inserção da juventude no mercado de trabalho, vulnerabilidade socioeconômica, acesso às áreas de tecnologia e inovação, representatividade, identidade racial, enfrentamento ao racismo, autonomia econômica e empreendedorismo.

Ao transformar parte dessas discussões em elementos de um jogo, os grupos tiveram de conversar, ouvir diferentes pontos de vista e construir propostas coletivamente. Para Nicolas, a experiência ganhou significado também por acontecer em um espaço diferente daqueles que costuma frequentar.
“Não é sempre que eu estou num ambiente desse. Participar da construção de um jogo com a proposta do debate, com pessoas da faculdade, é uma experiência a mais que eu estou tendo”, disse.
Oportunidades para a juventude
Sediado em Vitória, o Instituto Oportunidade Brasil é uma organização sem fins lucrativos que atua na ampliação de oportunidades para jovens negros. A instituição desenvolve ações relacionadas à educação, qualificação profissional, inclusão produtiva, empregabilidade, tecnologia e promoção da equidade racial.
Segundo dados divulgados pelo próprio IOB, desde 2020 mais de 100 jovens passaram por suas formações e mais de 2 mil pessoas foram impactadas direta ou indiretamente pelas ações. A organização também informa que 60% dos alunos foram inseridos no mercado de trabalho e que as iniciativas já envolveram mais de 100 voluntários, educadores e mentores, além de parcerias com mais de 30 empresas. Os números são indicadores institucionais divulgados pelo Instituto e não representam uma avaliação independente de impacto.
Sophia participa do IOB desde o ano passado. Para ela, a experiência contribuiu para fortalecer algo que já fazia parte de sua personalidade: a vontade de falar e ocupar espaços.
“Eu sempre gostei de falar bastante e o IOB só reforçou mais a minha fala. Para mim, o IOB abre cada vez mais portas para jovens negros, para mulheres, e eu gosto muito de estar lá”, afirmou.
Entre o presente e a possibilidade de um futuro na universidade
Para os participantes, conhecer a Faesa também significou entrar em contato com uma realidade que pode fazer parte de seus próprios projetos de futuro.
Sophia conta que, ao chegar à instituição, observou a movimentação dos universitários e começou a se imaginar vivendo aquela experiência.
“Eu cheguei e fiquei observando os alunos chegando. Eu quero muito, quando eu estiver na faculdade, estar feliz com o que eu realmente estou fazendo. Eu ainda não sei o que é, mas a gente vai descobrir”, disse.
A expectativa em relação às próximas etapas também aparece na fala de Aline. Para ela, a experiência pode ampliar conhecimentos para além das atividades desenvolvidas no projeto.
“A minha expectativa para esse projeto é que eu possa aprender mais coisas, ter mais repertório cultural, que eu gosto muito, e conhecer pessoas novas”, afirmou.
Nicolas também espera que a jornada represente mais do que a participação em uma atividade acadêmica.
“Eu espero evoluir nesse projeto, me desenvolver como pessoa, aumentar meu repertório de conhecimento e criar laços”, disse.
O encontro desta sexta-feira foi apenas a primeira etapa de um percurso que ainda terá novos momentos de convivência, aprendizado e produção jornalística. Antes de chegar à grande reportagem que encerrará o projeto, estudantes e participantes terão pela frente o exercício de ouvir, conhecer e compreender diferentes experiências.
Para Sophia, que aos 16 anos ainda observa o ambiente universitário enquanto pensa sobre o próprio futuro, algumas respostas ainda estão por vir. E talvez seja justamente esse um dos sentidos da jornada que começa agora: descobrir quais histórias podem surgir quando diferentes olhares encontram espaço para construí-las juntos.
Para a professora Mirella Bravo o projeto é uma oportunidade de conhecimento e novas possibilidades. “Esse projeto traz a possibilidade dos jornalistas experimentarem uma nova área de trabalho do Jornalismo, agora na mediação da produção, formando novos comunicadores populares e favorecendo o protagonismo cidadão.” disse.

Confira as fotografias do evento na íntegra: https://photos.app.goo.gl/VH9DcDX4uEtDEURe8