Leitura cria novos projetos de vida no sistema prisional do ES
Projeto de leitura desenvolvido em unidades prisionais do Espírito Santo estimula a educação, a escrita e a construção de novos projetos de vida entre pessoas privadas de liberdade.

Bruno Caetano e Roberta Costa
O livro que Rosa Cândida de Freitas segura nas mãos poderia estar em qualquer biblioteca. Tem capa, páginas, personagens e uma história esperando por alguém disposto a atravessá-la. Dentro do Centro Prisional Feminino de Cariacica, no Espírito Santo, porém, cada leitura ganha outro significado.
Para quem está privado de liberdade, uma pilha de livros ao lado do beliche representa mais do que um passatempo. Para muitas mulheres, a leitura também significa o primeiro contato com uma atividade que não fazia parte da rotina antes da prisão.
É assim que funciona o Remição pela Leitura, projeto presente atualmente em 21 unidades prisionais do Espírito Santo. Em 2026, cerca de 700 homens e mulheres participam da iniciativa, que permite reduzir parte do tempo de cumprimento da pena por meio da leitura e da produção de uma redação sobre a obra.
Rosa está no sistema prisional desde 2019. Ela não trouxe de fora o hábito de ler. Foi dentro da unidade, entre a rotina rígida do presídio e o tempo prolongado das celas, que descobriu a biblioteca. No início, era apenas mais um espaço por onde passava. Aos poucos, tornou-se o lugar para onde mais queria voltar.
O acesso ao projeto, no entanto, dependia de critérios de participação. Quando começou a se interessar pelos livros que via nas mãos de outras internas, Rosa ainda não tinha o histórico de conduta necessário. “Comecei a me esforçar para ter conduta e conseguir ler os livros”, conta.

Hoje, Rosa estima ter ultrapassado a marca de mil livros lidos durante o tempo em que está presa, um número que impressiona, mas que talvez diga menos sobre ela do que aquilo que encontrou em cada página.
“A leitura mudou minha fala, meu jeito de ser, mudou tudo na minha vida”, afirma.
O esforço deu resultado, e o que começou como uma tentativa de simplesmente alcançar um livro terminou mudando a forma como ela enxergava a própria rotina dentro do presídio. A leitura passou a organizar seus dias, dar sentido às semanas e, aos poucos, se tornar quase uma obsessão saudável.
Para ela, o livro funciona como uma espécie de passagem para fora daquele ambiente. Não porque a retire fisicamente da prisão, mas porque permite viver outras histórias, visitar lugares que nunca conheceu e imaginar versões de si mesma que a rotina do cárcere insiste em apagar.

A leitura também levou Rosa à escrita. Ela participou de oficinas de crônica ao lado de outras vinte mulheres da penitenciária, reunidas depois no livro “Um Lugar de (E Que) Fala”. Em um dos textos que escreveu, Rosa fala da rotina dentro da unidade e da esperança que a leitura ajuda a sustentar.
Hoje eu acordei com uma grande esperança, pois este livro tem mudado meus dias aqui dentro. A cada dia, um novo recomeço. Quero ser melhor do que nunca fui. Agradeço por cada oportunidade de poder escrever sobre mim. Meu nome é Rosa Cândida, tenho 32 anos e estou privada da minha liberdade há quatro anos. Sinto falta da minha família o tempo todo. Tenho duas princesas em casa, Anna Vitória e Anna Júlia, minhas sobrinhas, que amo tanto. Apesar dos obstáculos da vida, não desisti de viver, nem de ter sonhos e objetivos. Que eu seja, todos os dias, como um girassol: de costas para o escuro e de frente para a luz. Aqui se inicia uma nova jornada da minha vida, pois a literatura é irmã gêmea da liberdade.
Ler para reduzir a pena

A experiência de Rosa faz parte de uma política que passou a integrar oficialmente as estratégias de educação e remição de pena no sistema prisional capixaba. Pela modalidade, a pessoa privada de liberdade pode reduzir parte do tempo de cumprimento da pena após concluir a leitura de uma obra e produzir uma redação que passa por avaliação.
Pelas regras adotadas no projeto, cada livro pode representar quatro dias de remição, respeitado o limite de 12 obras por ano. No máximo, portanto, são 48 dias de redução de pena a cada 12 meses.
A iniciativa segue as diretrizes da Resolução nº 391 do Conselho Nacional de Justiça, que regulamenta a remição pela leitura no sistema prisional brasileiro.

Para a subgerente de Educação nas Prisões da Secretaria da Justiça (Sejus), Silvia Moreira Franco Garcia, o projeto surgiu da necessidade de implantar a remição pela leitura nas unidades do Espírito Santo em parceria com a Secretaria de Estado da Educação.
“O projeto Leitura para a Vida nasce da necessidade de implantação da remição pela leitura nos espaços de prisão do Estado do Espírito Santo, em parceria com a Secretaria de Educação”, explica.
Segundo Silvia, os efeitos da leitura ultrapassam a redução do tempo de pena. “A leitura abre muitas portas e faz a gente repensar a vida. Ela possibilita várias leituras e amplia a visão de mundo”, diz.
Setecentos leitores em 21 presídios

O número de participantes do Remição pela Leitura vem crescendo nos últimos anos. Em 2024, cerca de 500 pessoas privadas de liberdade participavam da iniciativa. Em 2025, eram aproximadamente 600. Neste ano, o número chegou a 700.
O crescimento, porém, ainda alcança uma parcela pequena do sistema prisional capixaba. Segundo os dados apresentados pela Sejus, o Espírito Santo tem aproximadamente 26.450 pessoas presas. O número atual de participantes do projeto corresponde a cerca de 2,6% desse total.
A própria Sejus reconhece que existe uma diferença entre o número de interessados e a capacidade de atendimento. “Temos uma demanda muito maior do que a oferta. Temos muito mais pessoas querendo ler do que os espaços nos permitem hoje, nesse formato”, afirma Silvia.
A meta declarada pela equipe da secretaria é ampliar o atendimento até alcançar metade da população carcerária do estado com atividades efetivas de leitura.
Enquanto a expansão não acontece, o projeto concentra esforços nas unidades que já participam da iniciativa. Um dos principais obstáculos é a estrutura necessária para os encontros semanais, que dependem de espaços físicos e profissionais para acompanhar os grupos.
O papel da sala de aula

Nas unidades onde existe parceria com a Secretaria de Estado da Educação, atualmente 19 das 21 participantes do projeto, professores acompanham os grupos. Os encontros semanais têm três horas de duração e reúnem de 15 a 20 pessoas.
A professora Barbara Sena Pera dá aulas no projeto desde o segundo semestre de 2023. Para ela, a iniciativa representa uma oportunidade para pessoas que, muitas vezes, não tiveram contato com os livros antes de chegar ao sistema prisional.
“Eu enxergo como uma oportunidade que eles muitas vezes não puderam ter fora da cadeia ou que, mesmo tendo, não aproveitaram”, afirma.

Segundo Barbara, a própria dificuldade de acesso transforma a maneira como os participantes enxergam o livro. “A partir do momento em que o livro se torna um produto raro, aquilo pelo qual você é selecionado para participar de um grupo, ele ganha outro significado”, diz.
Barbara trabalha no sistema prisional desde 2011. Ao longo dos anos, acompanhou diferentes turmas e viu alunos que chegaram sem o hábito da leitura desenvolverem novas relações com os livros.
Da cela para as páginas de Carolina de Jesus

Um dos casos que mais a marcou foi o de um aluno que nunca havia lido uma obra inteira. Ele entrou no projeto inicialmente pela possibilidade de sair da cela por algumas horas durante a semana. O primeiro livro que leu foi “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus.
Segundo Barbara, a identificação foi imediata. “Ele falou que via a própria história naquele livro. Ele viu na Carolina Maria de Jesus a própria mãe, que cuidava dos filhos e enfrentava todas aquelas dificuldades”, relata.
Depois daquela leitura, o aluno passou a se interessar pelos livros. Para a professora, a experiência mostra como a literatura pode criar identificação e ampliar a capacidade de compreender outras histórias.
“Ele se reconheceu na personagem porque enxergou nela a própria mãe. Quando uma história toca algo que nos é íntimo, ela abre espaço para olhar o outro com mais humanidade. É assim que a empatia pode ser construída”, explica.

Barbara também observa mudanças na escrita dos participantes. Segundo ela, os alunos costumam ler entre quatro e cinco livros por semestre, e os textos produzidos ao longo do período apresentam evolução.
“Eu percebo que, do primeiro texto que eles escrevem sobre um livro até o último, a escrita melhora, assim como a percepção e a visão de mundo. A maneira como eles criticam a vida e as coisas ao redor muda bastante”, diz.
Para a professora, o principal resultado não está apenas na melhora da escrita. “Acho que o mais importante para a pessoa encarcerada é desenvolver o senso crítico, saber o seu lugar no mundo e ampliar a visão sobre a realidade”, resume.
Um projeto depois da prisão

A leitura também aparece nos planos de futuro de Ingrid Vasconcellos dos Santos. Antes de ser presa, ela não tinha contato frequente com livros. A aproximação aconteceu quando retomou os estudos dentro da unidade prisional.
“Eu achei uma grande riqueza. O livro e a leitura são cultura, onde nós absorvemos coisas que nem sabíamos que existiam”, diz.
Assim como Rosa, Ingrid soma centenas de livros lidos durante o período em que está presa. A experiência também mudou a maneira como ela pensa o futuro. “Continuar lendo. Continuar com a literatura na minha vida lá fora. Fazer minha faculdade, porque a leitura me incentivou muito”, planeja.
O curso que pretende fazer é Direito. A escolha está ligada à própria experiência no sistema prisional e ao desejo de construir uma nova trajetória depois da soltura.

“Meu sonho é me tornar advogada e fazer de mim uma pessoa melhor. Também quero proporcionar aos meus netos aquilo que eu não fiz pelos meus filhos”, afirma.
Ingrid também fala sobre a mãe, de 86 anos, que nunca aprendeu a ler nem a escrever. Para ela, essa história familiar reforça o significado que os livros passaram a ter. “Muitas pessoas ainda não tiveram esse privilégio. Para mim, a leitura abrange muitas coisas da vida e também da vida de outras pessoas”, diz.
Sete em cada dez sem o ensino médio

O projeto está inserido em um cenário maior de desafios educacionais no sistema prisional capixaba. De acordo com dados do Ministério da Justiça sete em cada dez pessoas presas no Espírito Santo não concluíram o ensino médio.
Ao mesmo tempo, cerca de 20% da população carcerária participa de alguma atividade de estudo ou trabalho. Esse grupo corresponde a mais de 5 mil pessoas distribuídas por 37 unidades.
Nesse contexto, iniciativas de leitura representam uma das possibilidades de acesso à educação dentro das prisões, ainda que não alcancem toda a população carcerária. Para Barbara, o contato com os livros pode produzir mudanças que vão além do período de participação no projeto. “Eles passam a enxergar isso como uma possibilidade de transformação”, afirma.
Além da parceria entre Sejus e Secretaria de Estado da Educação, outras instituições também participam de ações ligadas à leitura dentro das unidades prisionais.

A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), por meio do Núcleo de Libras, mantém uma turma na Penitenciária Estadual de Vila Velha I. A iniciativa amplia as atividades para incluir a língua de sinais.
O Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) também desenvolve uma turma no Centro Prisional Feminino de Colatina, com ações relacionadas à leitura e à inclusão digital.
As bibliotecas das unidades reúnem romances, contos, crônicas e poemas. Entre os autores disponíveis estão Ariano Suassuna, John Grisham, Dan Brown, Sidney Sheldon, Zíbia Gasparetto e Mônica de Castro.
Em algumas unidades, os próprios participantes do projeto ajudam a organizar, catalogar e distribuir os livros entre os colegas. Também existe a circulação de exemplares para pessoas que não participam formalmente da modalidade de remição. Dessa forma, o acesso aos livros não fica restrito aos grupos que conseguem uma vaga no programa.
Demanda maior que a oferta

O principal desafio apontado pela Sejus é ampliar o número de pessoas atendidas sem depender exclusivamente dos espaços físicos disponíveis nas unidades.
A Resolução nº 391 prevê outros formatos de participação, que podem reduzir a necessidade de encontros presenciais fixos. A secretaria estuda essas alternativas como forma de ampliar o alcance da iniciativa.
“Temos outros formatos possíveis de acordo com a resolução. Nesses formatos, temos outras parcerias, por meio da entrega do livro e da produção da redação. Isso reduz a necessidade de espaços físicos”, explica Silvia.
Ainda assim, a ampliação enfrenta outra questão: nem todas as pessoas que leem dentro das prisões conseguem atualmente obter a remição. Na unidade feminina de Cariacica, por exemplo, existem livros lidos por internas que não têm a redução da pena garantida por meio do programa.

“O que desejamos é que todas as pessoas que leem nas prisões tenham também a possibilidade da remição”, afirma Silvia.
Enquanto a estrutura do projeto busca acompanhar a demanda, os livros continuam circulando pelas unidades. Para Rosa, a biblioteca deixou de ser apenas um lugar para pegar exemplares. Para Ingrid, tornou-se parte dos planos para o futuro. Para os professores, é uma ferramenta capaz de estimular escrita, reflexão e senso crítico.
A leitura, dentro da prisão, tem uma função prática: pode reduzir até 48 dias de pena por ano para quem cumpre os critérios do programa. Mas entre uma página e outra, existe também a tentativa de construir uma vida depois das grades.
NOTA DOS AUTORES
Visitar o Centro Prisional Feminino de Cariacica, no Espírito Santo, no dia 10 de agosto, foi uma experiência que nos fez lembrar por que escolhemos o jornalismo e quem queremos ser como profissionais.
A escrita nos permite transformar em palavras sentimentos que surgem quando acompanhamos de perto histórias que, muitas vezes, são reduzidas aos estereótipos sobre quem passa pelo sistema prisional. Encontrar aquelas mulheres e perceber que são, antes de tudo, brasileiras com sonhos, medos e projetos nos fez repensar muitas das ideias que carregamos.
Para nós, esse tema teve um significado ainda mais profundo. Viemos de uma realidade periférica e a leitura transformou a nossa vida. Por isso, poder contar histórias de mulheres que tiveram o acesso à educação interrompido, mas que ainda sonham em estudar, exercer uma profissão, seguir a advocacia ou simplesmente construir uma nova trajetória, foi uma experiência muito importante.
Ao longo da produção, percebemos que muitas delas desejam ser mais do que os rótulos que a sociedade coloca sobre suas histórias. São mulheres que querem sair dali, reconstruir suas vidas e mostrar que o passado não precisa determinar o futuro.
Também somos gratos pela acolhida da equipe que nos acompanhou durante a visita. A gentileza e a disponibilidade das profissionais da educação, da gestão e da direção foram fundamentais para que pudéssemos ouvir essas histórias com respeito, responsabilidade e sensibilidade.
Professor Orientador: Paulo Soldatelli