A Jornada Dupla das Empreendedoras

Cada vez mais mulheres estão à frente dos próprios negócios, transformando ideias em fonte de renda. Apesar dos avanços, a rotina das empreendedoras ainda é marcada pela sobrecarga e pela difícil tarefa de equilibrar trabalho, família e vida pessoal

Segundo a pesquisa “Empreendedorismo Feminino no Brasil”, realizada em 2024 pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, cerca de 10,35 milhões de brasileiras estão à frente de seus próprios empreendimentos no país (Foto: Arquivo Pessoal/Solana Marianelli)

No Brasil, empreendedorismo feminino cresceu nos últimos anos, ampliando a autonomia financeira e as oportunidades para esse público. Apesar dos avanços, as mulheres ainda enfrentam dificuldades para conciliar a gestão dos negócios com a vida pessoal e as responsabilidades familiares. Dessa forma, as empreendedoras encaram diariamente os desafios de administrar empresas em meio a jornadas intensas, cobranças e à busca pelo equilíbrio, tudo isso sem abrir mão da própria qualidade de vida.

Nesse contexto, a economista Ana Maria Zen, 58, afirma que a conciliação entre o empreendimento e a vida pessoal é um dos principais desafios enfrentados por empreendedoras e pode impactar o desenvolvimento dos negócios. Zen explica que, quando a mulher precisa dividir o tempo entre a empresa, família e tarefas domésticas, a sobrecarga reduz o tempo disponível para planejamento estratégico. A especialista declara que esse cenário pode limitar o crescimento do empreendimento.

Na prática, essa realidade se traduz na trajetória da empresária Solana Marianelli de 35 anos. Arquiteta de formação, ela é sócia do Studio Si, empresa de arquitetura, design e interiores. Marianelli afirma que, desde cedo desejava ter o próprio negócio e que um dos maiores desafios foi aprender a administrar a empresa, lidar com pessoas e gerir processos ao mesmo tempo em que exerce a profissão de arquiteta. A empresária relata que, no início da carreira trabalhava intensamente e muitas vezes virava madrugadas desenvolvendo projetos.

O Studio Si fica localizado na Enseada do Suá, em Vitória, e funciona de segunda à sexta das 10h às 18h (Foto: Ana Clara da Cruz/ LACOS)

Solana explica que, no passado, a sede de reconhecimento e o desejo de provar para si mesma que era capaz fizeram com que ela se dedicasse muito ao trabalho. Durante anos, a família cobrou a presença dela devido à rotina intensa. Hoje, a arquiteta afirma que desligar do trabalho é quase impossível, sobretudo por atuar com criação, já que as ideias surgem o tempo todo. Apesar disso, Solana valoriza mais os momentos livres e afirma que passou a se permitir desacelerar e aproveitar a vida com mais leveza.

A rotina intensa de trabalho também foi percebida por pessoas próximas. A irmã da empreendedora, Raphaela Marianelli Brotas Glória, 39, conta que, no início da carreira, Solana chegou a enfrentar momentos de sobrecarga emocional devido ao acúmulo de demandas. Raphaela narra que a empresária conciliava diferentes trabalhos na área e lidava com prazos apertados, o que a levava a virar madrugadas trabalhando.

Raphaela diz ainda que a separação entre o tempo de trabalho e de descanso sempre foi um desafio na rotina da empresária. O acúmulo de tarefas, aliado a questões pessoais, levou Solana a um quadro de esgotamento. Após atingir o limite e passar por uma pausa forçada, ela conseguiu reorganizar parcialmente a rotina e estabelecer um equilíbrio mais saudável entre trabalho e vida pessoal.

Atualmente, a arquiteta reorganizou a rotina. O escritório funciona das 10h às 18h, o que permite que ela utilize as manhãs para atividades pessoais e para acompanhar a rotina da filha. Mãe há dois anos e meio, ela conta que a maternidade, especialmente após enfrentar dificuldades para engravidar, trouxe uma mudança de perspectiva. Solana enxerga a família como prioridade e define esse momento como uma grande virada de chave. Marianelli revela que os desafios enfrentados ao longo da trajetória contribuíram para o crescimento pessoal.

“Percebi que minha verdadeira prioridade não era o trabalho, e sim a minha família. Foi uma grande virada de chave”, revela Solana. (Foto: Arquivo Pessoal/Solana Marianelli)

A história de Solana e a análise da Ana Maria mostram que o crescimento do empreendedorismo feminino representa uma conquista de autonomia financeira e novos desafios relacionados à conciliação entre trabalho e vida pessoal. Mesmo diante das dificuldades, muitas mulheres continuam investindo nos próprios negócios e redefinindo prioridades ao longo da trajetória. Empreender não é apenas abrir um negócio, mas aprender todos os dias a equilibrar sonhos, empresa, família e a própria vida.