Cultura ballroom: performances, competições e acolhimento
As chamadas “houses” funcionam como redes de apoio formadas, principalmente, por pessoas LGBTQIAPN+

Lara Elis
Mais do que grupos de performance, as “houses” são espaços de acolhimento, organização e resistência, que se expandiram por diferentes partes do mundo. Além do papel social e cultural, elas também se inserem no campo da economia criativa ao transformar arte e vivência em possibilidades de trabalho e geração de renda.
A partir de performances, produção de eventos, moda, maquiagem e outras expressões artísticas, integrantes da cena ballroom encontram caminhos para monetizar suas habilidades e ampliar sua atuação profissional.
No Espírito Santo, a House of Lacraia Kunty se destaca como um desses espaços. Ela fortacele a comunidade LGBTQIAPN+, por meio da arte, do pertencimento e da expressão. À frente da casa está Jadson Titânio, conhecida na cena como Mother Lynce Negra.
Na cultura ballroom, o papel de “mãe” vai além da liderança artística: envolve cuidado, orientação e suporte aos integrantes da house, funcionando como uma figura central na construção de vínculos e na manutenção da comunidade.
O papel de cuidado nas houses ballroom
Para Mother Lynce Negra, ser mãe na cultura ballroom está diretamente ligado à responsabilidade e ao cuidado com quem faz parte da house. Segundo ela, esse papel não se resume a uma ideia tradicional de maternidade, mas envolve orientar, impulsionar e abrir caminhos para outras pessoas.
Ela explica que ser “mother” significa incentivar os integrantes da casa a ocuparem espaços de protagonismo e acesso a direitos, como educação e saúde, além de ampliar seus horizontes dentro e fora da cena ballroom. Mais do que um título, trata-se de uma função de liderança e exemplo, baseada no fortalecimento coletivo e no desenvolvimento individual de cada membro.
Segundo ela, essa posição também passa por reconhecer vulnerabilidades e manter uma relação próxima com aqueles que considera como filhos e filhas dentro da casa, fortalecendo vínculos de cuidado e confiança. Esse acompanhamento, além de afetivo, contribui para o desenvolvimento das potencialidades de cada integrante, incentivando a profissionalização e a inserção em atividades da economia criativa, como performances, produção cultural e outras formas de expressão que podem gerar renda e ampliar oportunidades.

Quando existir é possível
Nataly, Princess da House of Lacraia Kunty, conta que o que a atraiu para a cultura ballroom foi a possibilidade de estar entre pessoas com vivências semelhantes às suas. Segundo ela, encontrar outros corpos e pessoas trans, com o desejo de se expressar e se colocar no mundo, especialmente após o período da pandemia, foi um fator decisivo para sua aproximação com a house.
Ela destaca que a experiência vai além da performance: trata-se de viver, trocar e, principalmente, ter um espaço onde pode ser ela mesma. Para Nataly, a house representa um ambiente de liberdade e identificação, onde é possível construir vínculos e fortalecer a própria identidade e até mesmo criar sua própria renda.
O senso de comunidade, segundo ela, também ultrapassa os limites das festas e dos bailes, estendendo-se para o cotidiano e para as relações construídas dentro e fora da cena ballroom.