A meritocracia do amor

Por que tantas pessoas sentem que precisam merecer para serem amadas?

A busca por aceitação pode fazer com que muitas pessoas confundam amor com validação. (Foto: Como eu era antes de você. Divulgação/Warner Bros. Pictures)

Tamires Pereira Barbosa

Atualmente, muitas pessoas são atingidas pelo sentimento de que, para serem amadas, precisam merecer esse amor. Essa percepção dá origem à chamada “meritocracia do amor”, a crença de que alguém só será correspondido romanticamente se estiver dentro de determinados padrões emocionais e físicos, frequentemente reforçados pela pressão social e pelas redes sociais.

Nessa lógica, é necessário ser perfeito. O cuidado, o afeto e os vínculos passam a ser vistos como algo que a ser conquistado por meio de esforço, adaptação e, muitas vezes, do adiamento de si mesmo. Essa crença contribui para a criação da ilusão de que qualquer imperfeição pode resultar em rejeição, fazendo com que muitas pessoas sintam que nunca serão verdadeiramente aceitas.

Além de afetar a autoestima, essa forma de enxergar os relacionamentos também pode favorecer a dependência emocional. Uma pesquisa realizada com mulheres atendidas pelo Centro Especializado de Atendimento à Mulher (CEAM) de Queimados , da Secretaria Estadual da Mulher, apontou que 18% das entrevistadas relacionam a permanência em relações abusivas à falta de amor-próprio, enquanto 24% apontam a dependência do parceiro como um dos principais fatores.

De onde surge a necessidade de merecer o amor?

Cena do filme “As vantagens de ser Invisível” (Foto: Divulgação/Summit Entertainment)

Na infância, o ser humano desenvolve inúmeras habilidades, como andar, falar e correr. Além dessas capacidades, é também nesse período que vivencia primeiras experiências afetivas, que ajudam a moldar a forma como enxerga o amor e os relacionamentos ao longo da vida.

Quando uma criança percebe que recebe mais elogios, atenção ou afeto ao apresentar comportamentos considerados adequados, pode associar amor e aceitação ao desempenho. Da mesma forma, experiências como críticas constantes, bullying, abandono ou ambientes familiares conturbados podem reforçar a sensação de inadequação, levando-a a acreditar que existe algo em si que precisa ser mudado para que seja aceita e valorizada.

Essas experiências podem influenciar o desenvolvimento emocional e psicológico do indivíduo, refletindo em diferentes áreas da vida, como os estudos, o trabalho e os relacionamentos. Na vida adulta, essa percepção pode se manifestar na crença de que, para ser amado, é preciso ser mais bonito, interessante, compreensivo ou bem-sucedido. Dessa forma, a busca por aceitação se torna constante, alimentando inseguranças e frustrações relacionadas aos vínculos afetivos e ausência deles.

A Cultura da Performance

(Foto: Black Mirror: Nosedive. Divulgação/Netflix)

Mas por que a meritocracia do amor parece mais presente atualmente do que em décadas passadas?

Um dos principais fatores que contribuem para o fortalecimento da ideia de que é preciso merecer para ser amado é a cultura da performance, amplamente presente nas redes sociais. A constante exposição a conteúdos digitais influencia diretamente a forma como as pessoas enxergam a si mesmas, seus corpos, suas conquistas e seus relacionamentos.

A presença das redes sociais no cotidiano da população brasileira tornou-se parte da rotina. O alcance dessas plataformas é significativo. Segundo dados compilados por empresas como GWI, Statista e Similarweb, 97,3% dos usuários brasileiros de internet assistem a algum tipo de vídeo online semanalmente.

Diante desse consumo massivo, padrões de beleza, estilos de vida e modelos de relacionamento são constantemente reproduzidos e observados. Nas plataformas digitais, grande parte do conteúdo compartilhado corresponde a recortes cuidadosamente selecionados da realidade. Frequentemente, são exibidas versões idealizadas da vida, destacando momentos felizes, conquistas e relacionamentos aparentemente perfeitos, enquanto conflitos, inseguranças e dificuldades costumam permanecer fora das telas.

Essa exposição constante favorece a comparação e pode reforçar a crença de que, para ser amado, é necessário alcançar determinados padrões de aparência, comportamento ou sucesso. Dessa forma, a busca por aceitação e validação passa a ocupar um espaço cada vez maior na construção da autoestima e das relações afetivas.

O amor precisa ser merecido?

(Foto: Before Sunrise. Divulgação/Warner Bros. Pictures)

Ao longo da vida, a ideia de que o valor pessoal está ligado ao desempenho acaba se tornando cada vez mais presente. No entanto, o afeto não segue necessariamente a lógica da meritocracia.

Como afirma o filósofo Alan de Botton: “A gente não precisa encontrar a pessoa perfeita, a gente precisa encontrar alguém que possa negociar a imperfeição”. A reflexão sugere que amar não está relacionado à busca por uma versão idealizada de si mesmo ou do outro, mas à capacidade de reconhecer limitações e construir vínculos apesar delas.

Talvez o amor não seja algo a ser merecido, mas vivido. Afinal, se o amor só existe quando somos perfeitos, estamos buscando amor ou apenas validação?