Elas no Agro: Mulheres que Estão Redesenhando o Campo

Como mulheres capixabas estão transformando pequenos negócios rurais em exemplos de sustentabilidade, inovação e liderança no campo

Imagem gerada com ajuda de IA

Esther Laurentino, Guilherme Junqueira e Isabelle Vasconcelos

O zumbido das abelhas rompe o silêncio da manhã em Aracruz. Com movimentos cuidadosos, Luana Medeiros acompanha o comportamento das colônias instaladas entre a vegetação. Há mais de uma década, a rotina ao lado dos insetos polinizadores faz parte da vida dela e da família.

A centenas de quilômetros dali, em Gabriel da Palha, Evani Cassaro percorre outro caminho. Entre lavouras de café e reuniões voltadas à qualificação rural, a ex-professora ajuda a incentivar a participação feminina em um setor que, por muito tempo, foi associado quase exclusivamente aos homens.

As histórias das duas são diferentes. Mas, se encontram em um mesmo ponto: o protagonismo feminino em um agro que se transforma.

Durante décadas, o campo foi visto como um espaço onde as principais decisões estavam concentradas nas mãos dos homens. Enquanto eles administravam propriedades, negociavam produções e comandavam negócios, as mulheres frequentemente permaneciam nos bastidores, desempenhando funções essenciais, mas pouco reconhecidas.

No Espírito Santo, esse cenário começa a mudar. Entre lavouras de café, empreendimentos familiares, cooperativas e iniciativas voltadas à sustentabilidade, mulheres vêm assumindo posições de liderança e transformando pequenos negócios rurais em fontes de renda, inovação e impacto social. Mais do que participar do agro, elas ajudam a redesenhá-lo.

Imagem gerada com ajuda de IA para ilustrar o cenário da Agropecuária no Espírito Santo

A PROFESSORA QUE VOLTOU ÀS ORIGENS

Nascida em Gabriel da Palha, no Norte do Espírito Santo, Evani Cassaro cresceu cercada pela zona rural. A terra sempre esteve presente na história da família. Algumas propriedades, conta ela, chegaram no tempo do rei.  Apesar da proximidade com o campo, os caminhos pareciam definidos desde cedo.

“Homem que estudava, e se mulher quisesse estudar tinha que ser professora”, relembra.

Foi assim que ela e as irmãs seguiram carreira na educação. Durante quatro décadas, Evani dedicou-se à sala de aula. A profissão trouxe independência financeira e abriu portas que, para gerações anteriores de mulheres da família, pareciam inalcançáveis.

Mas, o campo nunca deixou de fazer parte da sua história. Depois da morte do pai, recebeu uma parcela das terras da família.

Evani Faes (Foto: Reprodução/Instagram Senar)

A gente fala que não é herança. É uma parte da gente.

O contato mais próximo com a propriedade despertou uma nova perspectiva. Aos poucos, passou a acompanhar a produção de café e a compreender o potencial econômico e social do agro. O que começou como uma reaproximação das origens tornou-se uma nova fase de vida.

Hoje, além da atividade rural, Evani participa do Núcleo Feminino da Coogabriel, integra a diretoria do Sindicato Patronal de São Gabriel da Palha e atua em iniciativas ligadas à formação de produtores rurais.

A educadora encontrou no agro uma nova sala de aula. O foco de Evani continua sendo o mesmo: incentivar pessoas a enxergarem oportunidades por meio do conhecimento.

AS ABELHAS REPRESENTAM VIDA

Luana trabalhando com uma colméia (Foto: Reprodução/Instagram)

Em Aracruz, a trajetória de Luana Medeiros seguiu por outro caminho. Tudo começou em 2012, quando passou a ajudar o marido nos cuidados com colônias de abelhas nativas sem ferrão. No início, era apenas um hobby voltado à conservação ambiental.

Ele precisava de ajuda no manejo, na coleta do mel, em observar se as colônias estavam bem… e eu fui gostando da atividade.

O interesse cresceu. Vieram os estudos, os cursos, a participação em associações e a vontade de entender cada vez mais aquele universo.

Transformar a atividade em negócio, porém, exigiu investimento, planejamento e persistência. 

Equipamentos, insumos, caixas para multiplicação das colônias e estrutura adequada demandavam recursos financeiros. Ao mesmo tempo, Luana precisava equilibrar diferentes jornadas. Mãe, estudante, profissional e empreendedora, enfrentou desafios comuns a muitas mulheres que tentam construir um negócio sem abrir mão da família.

Em alguns momentos pensei em desistir.

A frase resume uma realidade compartilhada por muitas empreendedoras rurais. Ainda assim, ela continuou!

Com o passar dos anos, o que começou como uma atividade complementar ganhou estrutura. Parte das colônias permanece na residência da família. Outra parte fica em um sítio onde são realizados os manejos e a produção.

Hoje, a rotina envolve coleta de mel, atendimento a clientes, estudos, produção artesanal e ações de educação ambiental.

Mas, foi justamente a conscientização que deu um novo significado ao negócio.

Ao perceber que muitos consumidores sequer sabiam da existência das abelhas nativas sem ferrão, Luana entendeu que estava oferecendo algo maior do que produtos. Estava compartilhando conhecimento.

As abelhas representam vida

A frase resume a forma como ela passou a enxergar o trabalho. Nos últimos anos, Luana e o marido passaram a desenvolver ações de educação ambiental em escolas, aproximando crianças do universo das abelhas e da importância dos polinizadores para o equilíbrio ecológico.

Os três filhos também cresceram acompanhando a atividade.

Sinto-me privilegiada em vê-los em contato com a natureza.

A preocupação com o futuro, porém, permanece. O uso indiscriminado de agrotóxicos, pesticidas e fumacês figura entre as principais ameaças às colônias.

Não são apenas as abelhas que morrem diariamente, mas também borboletas, mariposas e diversos outros insetos fundamentais para a natureza.

EMPREENDEDORISMO FEMININO E TRANSFORMAÇÃO NO CAMPO

O protagonismo feminino no agro capixaba acompanha uma transformação observada em diferentes regiões do país. Segundo Patrícia Ferraz, mestre em Extensão Rural, gerente de Programas e Projetos Sustentáveis da Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) e coordenadora de projetos voltados às mulheres rurais e da pesca, as mulheres têm assumido um papel cada vez mais ativo na produção, gestão e inovação no campo, contribuindo para a geração de renda e fortalecimento das comunidades.

Apesar do avanço, a especialista aponta desafios como o acesso ao crédito, assistência técnica e capacitação, além da sobrecarga enfrentada por muitas mulheres, que conciliam o trabalho produtivo com responsabilidades familiares. Ao mesmo tempo, iniciativas ligadas à sustentabilidade e bioeconomia vêm ampliando oportunidades para empreendedoras rurais, especialmente em áreas como agroindústria familiar, produtos artesanais e turismo rural.

Para Patrícia, a tendência é de crescimento da participação feminina no agronegócio capixaba, impulsionada pelo acesso à informação, tecnologia e políticas de incentivo. “O agronegócio está em transformação e há cada vez mais espaço para a atuação feminina”, afirma.

O FUTURO TAMBÉM TEM VOZ FEMININA


Fonte: Fecomércio-ES / Observatório do Comércio (2026)

As histórias de Evani e Luana revelam uma transformação silenciosa que avança pelo interior do Espírito Santo.

Em trajetórias diferentes, elas encontraram no agro mais do que uma atividade econômica. Encontraram autonomia, propósito e a oportunidade de influenciar outras pessoas.

Enquanto uma utiliza a experiência de décadas na educação para incentivar novos produtores rurais, a outra transforma a preservação ambiental em ferramenta de conscientização e geração de renda.

Entre lavouras de café e colônias de abelhas, ambas ajudam a construir um agro mais diverso, sustentável e preparado para o futuro.

Se antes a presença feminina aparecia principalmente nos bastidores, hoje ela ocupa espaços de liderança, gestão e empreendedorismo. E, no campo capixaba, essa mudança já pode ser vista florescendo.