Empreender para Recomeçar: o empreendedorismo como caminho no pós-cárcere

Lara Trindade
Quando os portões de ferro se fecham pela última vez atrás de alguém, a liberdade que surge do lado de fora nem sempre significa um recomeço imediato. Há olhares desconfiados, portas que permanecem trancadas e oportunidades que desaparecem antes mesmo da primeira tentativa. No pós-cárcere, reconstruir a própria vida exige mais do que cumprir uma pena: exige encontrar um espaço possível em uma sociedade que raramente oferece segundas chances. É nesse cenário, marcado por estigmas, silêncio e resistência, que o empreendedorismo surge não apenas como fonte de renda, mas como instrumento de reconstrução da identidade, autonomia e dignidade.
Não existem estudos recentes sobre quantos ex-presidiários conseguiram empregos formais após conquista de liberdade, porém, em 2018, um estudo realizado pelo Tribunal de Contas de São Paulo estimou que menos de 1% da população de ex-detentos conseguiu emprego formal após receberem liberdade judicial. Dessa maneira, o empreendedorismo surge e encontra os ex-egressos do sistema carcerário, trazendo renda, possibilidade de ressocialização e principalmente: esperança. Para a psicóloga e gerente de assistência e Avaliação da Secretária de Justiça do Espírito Santo, Regiane Kieper, a falta de oportunidades no mercado de trabalho afeta diretamente a saúde mental da pessoa privada da liberdade, isso porque o trabalho está diretamente ligado à dignidade, autonomia e pertencimento social.

dentro dos presídios a mais de 10 anos. (Foto: Divulgação Sejus-ES)
“Os principais impactos psicológicos envolvem ansiedade, medo da rejeição, insegurança, baixa autoestima e dificuldade de adaptação social. Muitos egressos enfrentam sofrimento emocional relacionado ao preconceito, à dificuldade de conseguir emprego e à ruptura de vínculos familiares e comunitários. Também é comum o desenvolvimento de sentimentos de isolamento, frustração e desesperança diante das dificuldades de recomeçar a vida após o cárcere”, diz Regiane Kieper, psicóloga e gerente de assistência e Avaliação da Secretária de Justiça do Espírito Santo.
Por mais que a pessoa já tenha cumprido a sua pena, o preconceito na sociedade continua. Lucia Passos sabe exatamente o que é isso, após ficar presa por 6 anos no regime fechado, ela precisou recomeçar fora do sistema. Ainda no período de semiaberto, que durou 3 anos com o uso de tornozeleira eletrônica, com medo do preconceito, Lucia nem chegou a buscar um emprego formal no regime CLT, optou por abrir seu próprio negócio. “Eu não tentei um emprego formal porquê seria muito difícil, já sentia o preconceito das pessoas, ainda mais, pelo meu tempo de cadeia que era muito alto”, contou a empreendedora.

Mesmo após conquistar clientes e construir o próprio negócio, a empreendedora afirma que o medo do julgamento continuava presente. Durante o período em que utilizou tornozeleira eletrônica, evitava roupas justas para esconder o equipamento e tentava impedir que os clientes descobrissem seu passado no sistema prisional. Marcelo Gouvea, subsecretário de ressocialização do Estado do Espírito Santo, acredita que o preconceito com aqueles que já passaram pelo sistema prisional, acaba falando mais alto que a qualificação técnica daquela pessoa, e é nesse momento que o empreendedorismo entra como chave.
“Diante dessa resistência do mercado convencional, o empreendedorismo deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ser uma ferramenta de emancipação”, relata Marcelo Gouvea, subsecretário de ressocialização do Estado do Espírito Santo.
Do sistema à autonomia: iniciativas que incentivam o recomeço
Mais do que ensinar uma profissão ou incentivar a geração de renda, essas ações buscam fortalecer a autonomia de quem precisará enfrentar, do lado de fora, os desafios da reinserção social. A psicóloga Regiane Kieper explica que muitos egressos deixam o sistema prisional em situação de vulnerabilidade social, sem recursos financeiros, acesso a crédito ou rede de apoio para iniciar um negócio. Por isso, políticas públicas e programas de capacitação são fundamentais para que essas pessoas tenham condições reais de empreender e reconstruir suas trajetórias de vida de forma digna e sustentável.
O secretário de ressocialização do Espirito Santo explica que a Secretaria de Justiça do Espírito Santo mantém parcerias com órgãos como a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional e programas de desenvolvimento profissional como o Qualificar ES, além dos serviços de aprendizagem comercial; aprendizagem industrial e aprendizagem rural. Palestras realizadas em parceria com o Sebrae e outros profissionais do empreendedorismo também são ofertadas com o objetivo de ampliar a qualificação e facilitar o processo de reintegração social.
Ao oferecer ferramentas para reconstruir trajetórias interrompidas, o empreendedorismo passa a ocupar um papel importante no processo de ressocialização e na redução das barreiras enfrentadas pelos ex-detentos após o cumprimento da pena. A trajetória de Lúcia com o trabalho autônomo começou antes mesmo da passagem pelo sistema prisional, mas acabou sendo interrompida quando ela entrou para a criminalidade. Anos depois, ainda no regime fechado, quando ficou presa no presidio feminino Madre Pelletier, em Porto Alegre, o empreendedorismo voltou a fazer parte de sua trajetória.

Eu precisava sustentar os meus filhos mesmo presa, e foi aí que eu comecei a vender roupas, lá dentro tínhamos contato com oficinas de costura e confecção de roupas. Depois, meu marido começou a pegar as peças, vender e entregar aqui fora, enquanto eu ainda estava presa.
A reconstrução social e psicológica pós-cárcere
Deixar o sistema prisional vai muito além de atravessar os portões da liberdade. Para muitos, o pós-cárcere representa o início de uma batalha silenciosa contra o medo, a exclusão social e as marcas emocionais deixadas pelo encarceramento.
“Meu contato com o empreendedorismo foi a minha necessidade de ser alguma coisa”, diz Lucia Passos.
A dificuldade em ser aceito novamente pela sociedade, somada à insegurança sobre o futuro, afeta diretamente a autoestima, a saúde mental e a capacidade de reconstruir a própria identidade. Em muitos casos, diante da ausência de oportunidades e acolhimento, o indivíduo acaba encontrando aceitação justamente nos grupos em que ele já possuía vínculos anteriores, que muitas vezes, são os que contribuíram para sua inserção na prática ilícita. Segundo Regiane Kieper, isso acontece porque todo ser humano busca pertencimento, reconhecimento e identidade social. Quando ela encontra dificuldade para acessar trabalho, reconstruir vínculos familiares ou ser aceita socialmente, pode surgir uma sensação profunda de não pertencimento.
Nesse contexto, o empreendedorismo surge não apenas como uma alternativa financeira, mas também como uma ferramenta de reconstrução da autonomia e da autoestima. Fora das grades, o desafio deixa de ser apenas reconstruir a vida financeira e passa a envolver também a reconstrução emocional e psicológica. Isso acontece porque o cárcere não afeta apenas a liberdade física, mas também a percepção que o indivíduo constrói sobre si mesmo.
“A pessoa passa a viver em um contexto em que sua identidade frequentemente fica reduzida ao papel de “preso”, perdendo referências de pertencimento social, independência e reconhecimento das suas capacidades”, relata Regiane Kieper, psicóloga e gerente de assistência e Avaliação da Secretária de Justiça do Espírito Santo.
Empreender para existir novamente
Em meio às dificuldades de reinserção social, ao preconceito e às marcas deixadas pelo cárcere, o empreendedorismo passou a representar para muitos egressos mais do que independência financeira. Tornou-se uma possibilidade concreta de reconstruir a própria identidade, recuperar a autoestima e voltar a ocupar espaços dentro da sociedade sem carregar apenas o peso do passado. Para Lucia Passos, depois de anos sendo definida pelo cárcere, empreender significou voltar a existir fora dele. Entre preconceitos, dificuldades e tentativas de reconstrução, ela resume o próprio recomeço em uma frase simples:
Empreender pra mim é liberdade

Mais do que uma alternativa de geração de renda, o empreendedorismo tem se mostrado uma importante ferramenta de reconstrução social para pessoas egressas do sistema prisional. Ao desenvolver o próprio negócio, muitos ex-detentos passam a ocupar novamente espaços de convivência e reconhecimento dentro da sociedade. A possibilidade de trabalhar, conquistar autonomia financeira e reconstruir vínculos sociais contribui diretamente para o fortalecimento da autoestima e para a criação de novas perspectivas de futuro. Nesse contexto, empreender deixa de representar apenas sobrevivência econômica e passa a simbolizar também dignidade, independência e a oportunidade concreta de recomeçar longe da criminalidade.