Opinião: Inteligência Artificial e o emburrecimento humano
As IAs trazem avanços tecnológicos cada vez maiores, mas também terceirizam parte do raciocínio humano

Guilherme Trindade
Com um comando bem escrito, professores pelo mundo utilizam Inteligência Artificial (IA) para criar uma prova. Já os alunos usam a mesma tecnologia para responder. O professor então transfere as respostas feitas pela IA para outra IA corrigir. Nesse processo, que virou rotina, o ser humano começou a terceirizar parte do pensamento e passou a ser coadjuvante em um mundo artificial.
O princípio da inteligência artificial é fazer com que máquinas e sistemas computacionais imitem o raciocínio, a aprendizagem e a tomada de decisões humanas a partir de dados. A questão é que, se essa ferramenta executa tarefas cognitivas cada vez mais complexas, qual será o espaço do esforço intelectual humano?
A utilização da IA parece incentivar a terceirização constante do esforço intelectual. O raciocínio só é empregado ao escrever o comando; o resto é terceirizado para a máquina, já que ela faz mais rápido e, muitas vezes, “melhor”. Uma atividade educacional, um pôster, uma legenda de Instagram, um roteiro e qualquer outra atividade online podem ser feitos sem que o ser humano por trás se esforce intelectualmente para isso.
Além disso, há o movimento de pessoas que tentam aprender a ser humanas com o ChatGPT. Vejo muitos “Chat, escreve um e-mail pra mim?”, “Chat, o que eu respondo aqui?” ou “Chat, o que eu devo fazer neste fim de semana?”, ignorando totalmente a subjetividade humana. Para piorar, há aqueles que utilizam a IA como psicólogo. Dados da Talk Inc. estimam que 12 milhões de pessoas no Brasil usam IA como terapeuta.
Tal qual o protagonista do filme Her, a humanidade parece apaixonada pela inteligência artificial. Além das tarefas profissionais, muitas pessoas utilizam a ferramenta como amigo, designer, estagiário e até psicólogo. A sociedade, que consome tudo cada vez mais rápido, tem agora uma IA capaz de realizar qualquer atividade instantaneamente.
Essa tecnologia já faz parte da rotina de uma parcela significativa da sociedade. Uma pesquisa conduzida pelo Google Workspace revela que 74% dos profissionais brasileiros já utilizam assistentes de IA em suas atividades. A OpenAI, criadora do ChatGPT, informou que possuiu 900 milhões de usuários ativos semanais em 2026.
A questão que fica é: as pessoas estão ficando burras com o excesso de IA? Afinal, o cérebro precisa de estímulos constantes para criar novas conexões neurais e evitar o declínio cognitivo. A inteligência artificial tem se tornado quase um órgão externo humano, responsável pela racionalização de atividades antes penosas. E, se esse órgão externo é constantemente estimulado, o interno não.
Segundo um estudo do MIT Media Lab, em 2025, o uso crescente desta tecnologia pode comprometer a criatividade e o pensamento crítico de seus usuários. O instituto utilizou eletroencefalogramas para medir a atividade neural de 54 participantes durante tarefas de escrita, divididos entre um grupo que utilizava IA e outro sem auxílio da ferramenta. Os resultados revelaram que os usuários do ChatGPT apresentaram desempenho inferior em memória, linguagem e atividade neural
Toda a maximização do trabalho das IAs tem transformado o ser humano em um mero gerenciador de tarefas. Uma ferramenta criada para facilitar processos corre o risco de se tornar a própria cadeia produtiva. Em um mundo ideal, a IA deveria ser uma ferramenta de apoio ao ser humano, e não um processo completo.
Isso não significa negar os avanços tecnológicos proporcionados pela IA, que possui aplicações importantes na medicina, acessibilidade e pesquisa científica. O problema surge quando a automatização deixa de auxiliar o pensamento humano e passa a substituí-lo. A rapidez das respostas produzidas pela IA reduz o espaço para dúvida, elaboração e reflexão.
Arte artificial?
Os grandes donos das empresas de Inteligência Artificial — como Sam Altman, da OpenAI— acreditam que a tecnologia irá superar o ser humano em tudo, inclusive na arte. Não é de se espantar que bilionários e donos de big techs enxerguem a arte como uma forma de lucrar, mas acreditar que algo tão subjetivo e humano pode ser substituído por um robô sem sentimentos e corpo é, no mínimo, preocupante.
Outro ponto importante é a origem das artes feitas por IA. Afinal, essas inteligências são alimentadas por dados gerados por seres humanos através da internet. No fim, essas produções roubam ideias intelectuais e criativas sem dar créditos.
Karl Marx diz em ‘A Ideologia Alemã’ que “as ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes”, e é isso o que vemos também na arte. Se os donos do capital não veem importância na expressão humana, grande parte da população também deixará de vê-la. E as máquinas já adentram todas as formas de arte, desde séries americanas escritas pelo ChatGPT até livros, fotografias “realistas” e desenhos feitos por máquinas.
As inteligências artificiais colocam em risco uma das maiores expressões da subjetividade humana: a capacidade de comunicar sentimentos através da arte. O filósofo Friedrich Nietzsche escreveu que “a arte existe para que a realidade não nos destrua”, e, sem acesso à própria criatividade, talvez a realidade realmente destrua o ser humano. Já o psicanalista Sigmund Freud disse que “a imaginação é a ponte entre a mente consciente e a inconsciente”, porém a IA não possui emoções nem inconsciente.
Sobre isso, lembro-me de uma cena do filme Gênio Indomável, em que o personagem de Robin Williams diz algo que poderia facilmente ser direcionado ao ChatGPT, caso ele tivesse um rosto:
“Então, se eu te perguntasse sobre arte, você provavelmente daria uma olhada em todos os livros de arte já escritos. Michelangelo, você sabe muito sobre ele. O trabalho da vida, as aspirações políticas, ele e o papa, as orientações sexuais, tudo isso. Mas aposto que você não pode me dizer como cheira a Capela Sistina. Você nunca realmente ficou lá e olhou para aquele lindo teto.”
Hiperprodutividade
No livro ‘A Sociedade do Cansaço’, de 2010, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve a modernidade como uma época em que passamos a viver sob a lógica do desempenho, acreditando que podemos e devemos fazer sempre mais. O resultado é a exaustão, o burnout e a sensação constante de insuficiência.
Nesse “excesso de positividade”, em que não há limites para capacidade e desempenho, Han diz que o indivíduo vira escravo de si mesmo, exigindo produtividade sem limites. Esse sentimento é imposto pelo neoliberalismo, já que a classe trabalhadora deve ser cada vez mais multitarefa e manter uma produção sobre-humana apenas para garantir um salário mínimo.
A inteligência artificial entra nesse contexto de hiperprodutividade como o empregado dos sonhos do capitalista. Em um sistema que exige produção sobre-humana, a IA se torna perfeita para os interesses do capital. No capitalismo, o lucro serve aos próprios interesses de acumulação, enquanto o indivíduo fica em segundo plano, correndo o risco de ter seu emprego substituído.
E o capitalismo já vem realizando movimentos de substituição de empregos. Um levantamento conjunto da Layoffs.fyi e da RationalFX identificou que 69 mil demissões ocorreram por conta da automação de processos com inteligência artificial apenas nos Estados Unidos, em 2025. E a promessa é de que mais mudanças venham por aí, visto que o investimento previsto para IAs em 2026 é de 650 bilhões de dólares, de acordo com estudo da Bridgewater Associates.
O perigo do emburrecimento causado pela IA é que a lógica econômica tem recompensado mais a agilidade de produção do que o esforço intelectual humano. Quanto mais a inteligência artificial é utilizada, mais ela é treinada para gerar melhores resultados, deixando o ser humano cada vez mais irrelevante no processo produtivo. A culpa deixa de ser do usuário e passa a ser da própria lógica econômica e tecnológica.
O dono da OpenAI, Sam Altman, em entrevista de março deste ano, deixou claro quais são os planos para o futuro das grandes empresas de IA. “Nós vemos um futuro em que a inteligência é uma utilidade, igual a eletricidade e a água, e as pessoas compram de nós”, disse Sam. Em outra entrevista, ele defendeu que as IAs não gastam tanta energia, pois “seres humanos também consomem muita energia”.
Os grandes donos do capital, assim como Sam Altman, podem ver o ser humano como um mero objeto de trabalho, mais custoso do que a Inteligência Artificial. Alguns intelectuais ainda defendem uma utopia em que as IAs trarão o fim do trabalho e a automação total dos processos, mas a história mostra que o capital frequentemente está acima dos indivíduos. Qual será a preferência do futuro capitalista: a inteligência artificial ou o ser humano?