Ninho vazio: o impacto emocional da saída dos filhos

Fenômeno psicológico afeta entre 25% e 62% das mães

(Foto: Foto de Bence Halmosi/Unsplash)

Maria Fernanda Savignon Bernabé e Tamires Pereira Barbosa

Conseguir um emprego ou passar no vestibular e entrar em uma faculdade é um momento esperado por muitos jovens. Mas, quando o curso escolhido ou o emprego ficam em outra cidade, a comemoração logo divide espaço com as malas e a despedida. O início das aulas ou do novo emprego marca o começo de uma nova vida para os estudantes. Por outro lado, a mãe que fica em casa precisa se acostumar com a ausência diária do filho.

Esse período é conhecido pelos psicólogos como o fenômeno do “ninho vazio”. Não se trata apenas de uma tristeza passageira, mas de uma mudança radical na rotina da mãe. Estudos psicológicos publicados na plataforma SciELO apontam que entre 25% e 62% das mães sentem impactos negativos ou adoecimento emocional com a partida dos filhos. Essa intensidade varia de acordo com a rotina, mulheres que se dedicaram exclusivamente aos cuidados do lar chegam a ter até 62% de risco de desenvolver sentimentos graves de solidão e perda de identidade, enquanto as que trabalham fora ou tem projetos pessoais passam por essa fase com mais facilidade.

A perspectiva de quem fica

Foto: (Arquivo Pessoal/Alessandra Barbosa)

Para Alessandra Pereira Barbosa, de 49 anos, ver a filha arrumar as malas para ingressar no ensino superior mudou completamente sua rotina.

A adaptação no início foi muito dolorosa”, relata Alessandra. “O momento mais difícil era chegar do trabalho e não encontrar mais ela em casa. Ver o quarto vazio e as coisas dela organizadas daquele jeito me dava um aperto muito grande no coração”.

Apesar do impacto inicial na rotina e do sentimento de solidão, ela destaca que o processo exigiu um amadurecimento. O desafio passou a transformar a saudade em uma rede de apoio para a filha seguir em frente.

“Com o tempo, a gente vai entendendo que os filhos não são nossos, são do mundo. O sentimento de vazio continua, mas o orgulho de ver ela realizando um sonho e crescendo como pessoa supera qualquer dor”, afirma. “Hoje meu papel é dar forças para ela continuar vencer.

A realidade de quem vai

Foto: (Arquivo Pessoal/Fernanda Sant’Anna)

Se para quem fica em casa o desafio é lidar com a saudade, para que vai embora a realidade exige um amadurecimento rápido. Vindo do interior para estudar na capital, Fernanda Sant’Anna vivenciou essa transição em 2019, enfrentando o duplo impacto de ingressar no ensino superior e passar a morar sozinha. Por ser filha única, ela relata que a empolgação inicial deu lugar a um forte choque de realidade após a primeira semana sozinha na cidade nova.

“Percebi que precisava me virar completamente sozinha e lidar com todas as responsabilidades do dia a dia”, conta a entrevistada. “Na primeira vez, meus pais me deixaram na cidade, fiquei tranquila e animada. Mas, depois de passar uma semana sozinha, tudo mudou. Quando eles foram embora novamente, chorei muito”.

Para Fernanda, gerenciar o próprio cotidiano sem a presença dos pais foi o ponto de partida para a sua independência. Ela explica que a distância mudou forma de encarar os problemas e, principalmente, aumentou o valor que dá à família.

“Antes, qualquer dificuldade parecia mais simples porque eu podia contar com os meus pais imediatamente. Morando longe, percebi que precisava encontrar minhas próprias soluções”, afirma. “A maior lição foi valorizar mais minha família. A distância me fez enxergar o quanto o esforço e o carinho deles no dia a dia eram importantes.

Matando saudades

Hoje em dia, as telas dos celulares se tornaram a principal ferramenta para poder matar a saudade da família. O uso de aplicativos de mensagens modificou a forma como as famílias lidam com a separação, as mensagens de áudio logo cedo, e as chamadas de vídeos nas noites de domingo que ajudam a acalmar o coração de quem ficou.

Essa presença virtual diária funciona como um suporte emocional em tempo real, permitindo que a mãe continue participando de pequenas conquistas e oferecendo conselhos, mesmo estando a quilômetros de distância.

Embora as chamadas de vídeo não substituam o abraço físico, elas criam uma rotina de convivência, tornando a transição menos dolorosa. A distância dificultou o contato, mas não diminuiu o carinho e o suporte mútuo entre mães e filhas.