“Ser forte”: o estereótipo que aprisiona mulheres negras

Pressão exaustiva de (ter que) ser sempre forte é perpetuado pela sociedade 

Elogio ou preconceito? Mulheres negras questionam as representações da mídia (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil).

Tamires Pereira Barbosa

Desde sempre, mulheres negras são consideradas fortes, dotadas de uma força infinita, quase sobre-humana, mas o que poderia ser positivo, acaba sendo pejorativo. O rótulo da ‘força’ abre espaço para a desumanização e a invisibilidade dos sentimentos que mulheres afrodescendentes possuem.

Mesmo com o passar dos anos, o estereótipo da ‘mulher negra forte’ permanece enraizado na sociedade. Filmes, séries e músicas apresentam constantemente a figura da mulher guerreira, poderosa e imbatível, impactando todos que consomem essas narrativas.

Assim como uma moeda, essa perspectiva possui duas faces. Por um lado, essa narrativa contribui para a construção e o fortalecimento da autoestima da mulher negra, ao evidenciar suas capacidades; por outro, reforça a ideia de que a fragilidade não lhes é permitida, como se fosse necessário ser forte o tempo todo.

Como surgiu nos cinemas 

No início do cinema, mulheres negras eram constantemente retratadas de formas racistas. Um exemplo disso é a personagem ‘Mammie’, sempre com um sorriso no rosto, feliz e leal à família branca para a qual trabalhava, mesmo sendo explorada, interpretada por Hattie McDaniel em E o Vento Levou. Ela foi, inclusive, a primeira mulher negra a vencer o Oscar, mas por um papel que reforçava o estereótipo de que mulheres negras existem apenas para servir.

Personagem ‘Mammie’ interpretado por Hattie McDaniel em “E o vento levou” (Foto: Divulgação/E o vento levou).

Essa imagem de felicidade em servir funcionava como um mecanismo de alívio moral, sustentando uma ilusão confortável que mascarava a violência e a exploração.

Além do estereótipo ‘Mammie’, há também outros dois: ‘Jezebel’ e ‘Sapphire’.

‘Jezebel’, personagem bíblica, acabou virando representante o estereótipo da mulher negra hipersexualizada, reduzida a objeto de desejo e de satisfação sexual, ao mesmo tempo em que é construída como uma ameaça aos homens brancos. “A ela são atribuídas uma suposta promiscuidade ‘natural’, frequentemente usada para justificar os abusos e as violências sexuais que sofriam.

Já a ‘Sapphire’, surgida em um programa de rádio, é representada como a ‘mulher negra brava’, constantemente retratada como raivosa, agressiva e sempre pronta para iniciar uma discussão. Trata-se de um reflexo dos medos e estereótipos projetados pela sociedade, sendo uma das expressões mais recorrentes do racismo, que também reforça a ideia de que mulheres negras são excessivamente agressivas, invalidando suas emoções e reivindicações.

Essas três figuras constituíram a base de estereótipos que, ao longo do tempo, se transformou e passou a ser retratado, no cinema contemporâneo, como a chamada ‘resiliência feminina negra’.

Físico e mental

Esse rótulo afeta não só a autoestima de mulheres negras, mas também sua saúde mental e física. Dados apontados pelo estudo de base populacional Nascer no Brasil mostram que mulheres negras enfrentam piores condições no pré-natal e no parto, com 62% mais chances de atendimento inadequado, além de índices elevados de falta de vinculação à maternidade (23%), ausência de acompanhante no parto (67%) e peregrinação anteparto (33%).

Desigualdades raciais e de gênero também impactam o acesso à saúde de mulheres negras. (Foto: Freepik)

Dados do Ministério da Saúde também indicam que a mortalidade materna entre mulheres negras é 65% maior do que entre mulheres brancas.

Além disso, diversos estudos reforçam esse cenário, evidenciando como queixas médicas de mulheres negras são frequentemente ignoradas e suas dores, minimizadas.

Um exemplo disso é a tenista americana Serena Williams, que, em 2018, enfrentou graves complicações no pós-parto que quase levaram à sua morte, após ter suas queixas de dor inicialmente ignoradas, uma realidade vivida por muitas outras mulheres afrodescendentes.

Na área da saúde mental, o cenário não é muito diferente. Devido à forte pressão pela constante demonstração de força que lhes é imposta, essas mulheres são mais afetadas por quadros de depressão e ansiedade, mas, ainda assim, têm menos acesso a serviços de saúde mental.

A resiliência emocional exaustiva

O que, para outras pessoas, e deveria ser também para mulheres negras, é apenas um elogio, torna-se uma imposição marcada por raça e gênero, associando a elas a capacidade de suportar a dor e reforçando a ideia de que o sofrimento as torna mais fortes.

O sistema social acaba exigindo que essas mulheres sejam discriminadas e colocadas em um lugar de submissão, na base da pirâmide social, ou, em contrapartida, que sejam vistas como aquelas que sabem de tudo: guerreiras, cuidadoras, sempre auxiliando na vida de outras pessoas enquanto negligenciam a própria.

A estudante de jornalismo Vitoria Rodrigues, 18, fala um pouco sobre como a expectativa frequente da força, pode afetar sua vida e causar um grande cansaço emocional.

Como mulher negra, eu já me senti sim , pressionada por ser sempre forte. Eu comecei a me sentir assim quando eu me mudei para uma escola de elite com uma bolsa de estudos, em que naquele ambiente, a maioria dos alunos eram brancos. E como antes eu era de uma escola que não tinha uma educação tão boa, eu tinha que me esforçar o dobro  para ter boas notas nesse novo colégio. Eu ficava sempre depois da aula estudando pra conseguir passar nas provas e também no vestibular, me dedicando ao máximo para ter as melhores médias. E isso acabava me frustrando, porque todos ali já tinham uma educação melhor, tinham professores particulares, e eu estudava por conta própria, com a minha força. Então, eu não poderia me sentir fraca e cansada, eu tive  que persistir e lutar para ser uma boa aluna.

Vitória Rodrigues (Foto: Arquivo Pessoal).

Nos relacionamentos amorosos

Nos relacionamentos amorosos, a situação não é muito diferente. Mulheres negras, repetidamente, enfrentam a chamada ‘solidão da mulher negra’, um fenômeno estrutural que também é resultado de séculos de racismo, desumanização e hipersexualização de seus corpos.

A mulher negra continua sendo vista como aquela que é escolhida quando não há ninguém por perto para ver, frequentemente mantida em segredo. Escolhida por impulso, não por afeto genuíno; lembrada quando se trata de desejo e benefício próprio, mas não quando a questão envolve cuidado, vínculo ou um afeto gentil e sincero, livre de segundas intenções.

A estudante de história Ana Caroliny Machado, 19, relata sobre sua vivência como mulher afrodescendente no contexto social e de como isso afeta sua vida.

Existe, sim — pelo menos pra mim — uma solidão muito grande em relação a ser uma mulher negra, principalmente quando se trata dos padrões de beleza e da vida amorosa. Você cresce sem se ver na TV, nos filmes ou nos desenhos. E, quando aparece, nunca é a namorada do protagonista — é sempre a empregada ou a melhor amiga da menina branca. Então você cresce acreditando que não é bonita, que não merece estar naquele lugar, porque nunca viu aquilo como uma possibilidade. Hoje tenho 19 anos e entendo um pouco dessas questões raciais, mas ainda é algo que me afeta. Eu, particularmente, ainda carrego a ideia de que um homem branco nunca vai olhar pra mim e me achar bonita. Eu sei de onde isso vem, mas, mesmo assim, ainda me atinge.

Ana Caroliny Machado (foto: Arquivo pessoal).

A hipersexualização é algo que fere profundamente muitas mulheres afrodescendentes, criando um ciclo de objetificação, insegurança e desvalorização, que dificulta a construção de relações baseadas em respeito, afeto e reconhecimento genuíno. Nesse cenário, o amor deixa de ser um espaço de acolhimento e passa a ser mais um lugar de exclusão.

Mesmo quando não vivenciada diretamente, essa realidade é percebida de forma recorrente. A estudante Vitória Rodrigues afirma que comentários de conotação sexual sobre corpos negros são frequentemente naturalizados e, quando questionados, minimizados, evidenciando a falta de consciência social sobre o problema.

“Em diversos momentos, homens só quiseram se relacionar comigo por conta do meu corpo, e isso me frustrava demais, me sentia muito usada. Nós só queremos uma pessoa que vá nos amar verdadeiramente e não um cara que só quer segundas intenções”, pontua a estudante.

Na cultura pop, essa experiência também aparece na música. Em Normal Girl e Drew Barrymore, a cantora SZA traduz sentimentos de não pertencimento, insegurança e solidão afetiva, comuns a muitas mulheres negras.

As músicas Normal Girl e Drew Barrymore de SZA, refletem sentimentos de inadequação e solidão afetiva vividos por muitas mulheres negras. (Foto: Divulgação/TDE Records).

Ainda no âmbito da cultura pop, em seriados e filmes, a mulher negra frequentemente é retratada como um apoio ou trampolim emocional. Não importa o quão inteligente, bonita e capaz a personagem seja: na maioria das vezes, ela ocupa o papel de passatempo ou de etapa antes do ‘verdadeiro’ romance, que, não por coincidência, costuma ser com uma mulher branca.

Um exemplo disso é a personagem Charlie, da série Friends. Professora universitária, bem-sucedida e com diversos pontos em comum com Ross, ela ainda assim é colocada em segundo plano em relação a Rachel. No fim, sua presença serve apenas como um momento passageiro na narrativa, contribuindo para que o personagem principal perceba que seu ‘verdadeiro amor’ era Rachel.

A personagem Charlie, de Friends, exemplifica como mulheres negras são frequentemente retratadas como passageiras nas narrativas românticas (Foto: Divulgação/Waner Bros. Television).

Nos relacionamentos e na maternidade, também há a presença da solidão da mulher negra. Essas mulheres lidam com as preocupações do dia a dia e ainda são colocadas no papel de pilar emocional nos relacionamentos, sendo sobrecarregadas e pressionadas a assumir a liderança, enquanto abandonam suas próprias necessidades, realidade que também se repete na maternidade.

Dados do IBGE e da FGV confirmam que a maioria das mães solo no Brasil são negras, representando 61% dos casos, número que segue em crescimento.

A quebra desse Paradigma

O entretenimento é uma das maiores fontes de consumo da população. Portanto, tudo o que é propagado em suas diversas formas influencia a vida cotidiana, ao mesmo tempo em que pode reforçar rótulos já enraizados na sociedade.

Quando personagens negras demonstram vulnerabilidade, isso causa um grande impacto, desafiando percepções e forçando o público a enxergar mulheres negras como humanas.

Ser forte não deveria significar abrir mão do direito de ser humana.(Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Personagens influenciam a forma como pessoas reais são vistas, ao mesmo tempo em que carregam uma grande responsabilidade, contribuindo para a construção de uma memória coletiva e do senso comum. Mulheres negras, frequentemente, são submetidas a esse processo, sendo pressionadas a simbolizar uma capacidade de suportar constante, o que as leva a suprimir suas próprias emoções.

A escritora e professora americana Melissa Harris-Perry descreve a “mulher negra forte” como uma máscara que sufoca. Nesse sentido, a filósofa Djamila Ribeiro afirma que naturalizar uma pretensa força da mulher negra é negar as violências sistemáticas às quais elas são historicamente submetidas. Essa ideia evidencia como o reconhecimento da força feminina negra, muitas vezes, só é celebrado quando está a serviço dos outros. Trata-se de uma expectativa estrutural, que afeta diretamente a forma como essas mulheres são tratadas: vistas como líderes e protetoras no trabalho, mas raramente promovidas e frequentemente julgadas com mais severidade por suas falhas.

Portanto, produções que rompem com esse padrão contribuem para a desconstrução desse racismo estrutural. Séries como Insecure e Chewing Gum apresentam mulheres negras complexas, inseguras, engraçadas e humanas, vivendo experiências reais sem que sua vulnerabilidade lhes seja negada.

Da mesma forma, o filme Black Panther (Pantera negra), destaca mulheres negras em posições de poder e protagonismo, rompendo com estereótipos historicamente reforçados na ficção.

Além disso, é responsabilidade coletiva questionar e romper com pensamentos que reforçam essa sobrecarga emocional imposta às mulheres negras. Afinal, uma das maiores forças do ser humano também está na capacidade de demonstrar vulnerabilidade. Ser frágil não significa fracasso, mas humanidade, e ser humana é um direito de todos, especialmente daquelas que carregam séculos de traumas e negação de sua identidade, como as mulheres negras.

Enquanto a força for tratada como obrigação, mulheres negras continuarão sendo privadas de algo essencial: o direito de simplesmente serem humanas.