Desigualdade social e alimentação: os desafios da nutrição no Brasil
O aumento do consumo de alimentos industrializados mostra como renda e acesso influenciam a qualidade da alimentação da população.

Geovana da Rocha Freitas
O acesso à alimentação adequada vai além da quantidade de comida disponível e reflete as condições de vida da população. O aumento do consumo de alimentos industrializados demonstra como renda, tempo e acesso a produtos frescos influenciam as escolhas alimentares, trazendo debates sobre saúde e qualidade da alimentação.
Desigualdade alimentar
Os alimentos ultraprocessados costumam ser mais baratos do que produtos como frutas, verduras e legumes. Por causa, do preço baixo, da praticidade no consumo e do maior tempo de conservação, famílias em situação de vulnerabilidade social recorrem com mais frequência aos industrializados. A rotina acelerada, aliada à falta de tempo para preparar refeições caseiras, também contribui para a preferência por alimentos prontos ou semiprontos.
A nutricionista clínica Natália Shiramata, 41 anos, considera que a ausência de reeducação alimentar e de informações acessíveis sobre escolhas mais nutritivas influencia diretamente o padrão alimentar da população. Para a nutricionista, muitos brasileiros acabam priorizando opções consideradas mais práticas e econômicas, como o fast food. Isso reforça desigualdades alimentares e pode trazer prejuízos à saúde.
É possível manter uma alimentação saudável mesmo com orçamento limitado. Estratégias simples podem ajudar famílias de baixa renda a melhorar a qualidade da alimentação, como priorizar alimentos in natura, aproveitar o final do horário das feiras livres — quando frutas, verduras e legumes costumam estar mais baratos — e optar por alimentos da estação, que geralmente têm menor custo
(Natália Shiramata).
A nutricionista também aconselha a organização da rotina alimentar, preparando refeições caseiras e congelando porções para a semana. Essas pequenas práticas, de acordo com a especialista, reduzem gastos e evitam a necessidade de recorrer aos alimentos ultraprocessados.
O aumento da alimentação fora de casa reflete mudanças no estilo de vida da população, marcadas pela rotina acelerada e pela praticidade.
De acordo com o IBGE, a alimentação fora de casa cresceu, trazendo preocupação pelo baixo teor nutricional. Esse cenário também levanta alertas sobre a qualidade nutricional das refeições consumidas, muitas vezes ricas em ultraprocessados, gorduras, açúcares e sódio.

Surge o questionamento: os ultraprocessados realmente ajudam a combater a fome?
A especialista explica que esses produtos oferecem apenas uma sensação temporária de saciedade.
“Infelizmente, eles não fornecem nutrientes essenciais e apresentam excesso de gorduras, açúcares e sódio. O consumo frequente pode favorecer o aumento de peso e contribuir para o desenvolvimento de doenças como diabetes, alterações da pressão arterial e elevação do colesterol e dos triglicerídeos”, afirma.
Segundo ela, a cultura da praticidade e do imediatismo também influencia diretamente os hábitos alimentares da população.
A nutricionista destaca também que o marketing nas redes sociais exerce forte influência sobre essas escolhas, muitas vezes impulsionadas pela grande repercussão das propagandas de alimentos industrializados.
“Precisamos mudar essa realidade. O acompanhamento nutricional faz diferença na construção de hábitos mais saudáveis e sustentáveis.
Muitas pessoas sabem quais alimentos contribuem para uma vida mais saudável, mas enfrentam desafios práticos no dia a dia que dificultam a adoção desses costumes, reforçando a importância da educação nutricional e do incentivo a práticas alimentares mais equilibradas.”
Obesidade e pobreza
Existe uma relação importante entre pobreza, alimentação e obesidade no Brasil, e hoje os estudos mostram algo que parece contraditório: a obesidade cresce justamente entre as populações mais vulneráveis, embora o aumento dos casos de sobrepeso seja observado em toda a população, independentemente da renda.
Ainda assim, fatores como rotina acelerada, falta de tempo para preparar refeições e a dificuldade em cozinhar acabam influenciando diretamente os hábitos alimentares.
De acordo com CNN BRASIL, o número de adultos brasileiros com obesidade cresceu 118% entre 2006 e 2024, segundo a pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico).

Qualidade de vida
A nutrição vai além de consumir alimentos considerados saudáveis; envolve acompanhamento adequado e uma alimentação que atenda às necessidades individuais. Ela não está necessariamente relacionada ao peso, pois uma pessoa pode ingerir muitas calorias e ainda apresentar desnutrição devido à baixa qualidade nutricional dos alimentos. Existe também a chamada fome oculta, quando a pessoa se alimenta, mas não consome nutrientes suficientes para manter uma boa qualidade de vida, podendo desenvolver doenças.
A qualidade da alimentação influencia o humor, a disposição e a saúde mental das pessoas. A forma que nos alimentamos influencia diretamente no nosso bem estar: deficiências nutricionais podem afetar o humor, a energia e até desenvolver risco de ansiedade e depressão. Uma boa alimentação ajuda na disposição e na mente.
A estudante de nutrição Thalya Carneiro Reis Leão, 21, fala sobre como a alimentação pode afetar também o lado emocional.
A insegurança alimentar pode gerar impactos emocionais e psicológicos duradouros e acarretar ansiedade, depressão e medo constante de faltar comida. A longo prazo, tende a piorar.

Ela ainda conclui que “a indústria alimentícia investe fortemente em publicidade, principalmente de alimentos ultraprocessados. As propagandas associam esses produtos ao prazer, felicidade e praticidade, utilizando cores, imagens e estratégias sensoriais que estimulam o consumo… “
Considerando a grande produção agrícola do país, a fome no Brasil está mais relacionada às desigualdades sociais e econômicas do que à falta de alimentos. O país produz comida suficiente para abastecer sua população, porém essa produção não chega de forma igualitária a todos, já que parte significativa é destinada à exportação.
Dessa forma, o problema central envolve acesso, renda e a forma como ocorre a distribuição dos alimentos.
Nesse contexto, surge o questionamento: por que tantas marcas investem na produção e divulgação de alimentos com baixo valor nutricional, enquanto produtos frescos e naturais recebem menor incentivo? A forte presença do marketing da indústria alimentícia contribui para ampliar o consumo de ultraprocessados, que contam com grande visibilidade em propagandas e redes sociais.
Ao mesmo tempo, iniciativas de incentivo à alimentação saudável, como campanhas educativas na televisão e a realização de feiras locais que aproximem produtores e consumidores, ainda são pouco frequentes, o que limita o acesso da população a alternativas mais nutritivas e acessíveis.
Caminhos para o futuro
Diante desse cenário, a desigualdade alimentar se revela como um desafio que vai além da falta de alimentos, envolvendo questões sociais, econômicas e culturais que influenciam diretamente as escolhas alimentares da população.
A discussão sobre fome e alimentação revela não apenas hábitos individuais, mas também questões sociais, econômicas e de saúde pública.
Promover uma alimentação saudável depende do acesso à informação, à comida de qualidade e de políticas que reduzam as desigualdades sociais. Combater a fome no Brasil exige ações conjuntas entre poder público, profissionais da saúde e sociedade, garantindo não apenas alimentação, mas nutrição digna para toda a população.