Congo em Roda d’água
Cultura e Resistência em um carnaval bem diferente

Ana Carolina Lemos
Todos os anos, no feriado de Nossa Senhora da Penha, acontece uma festa cheia de histórias em Cariacica. É o Carnaval de Congo de máscaras de Roda d’água, evento único no Brasil e motivo de grande orgulho para a comunidade capixaba, principalmente para os cariaciquenses.
No encerramento da Festa da Penha, segunda-feira, dia 13 de abril, aconteceu mais uma edição dessa manifestação cultural. As bandas de congo capixabas se concentraram na Casa Congo de Mestre Tagibe, e foram até o Campo do América, em homenagem à padroeira do estado.
Comemorando a ancestralidade
A região de Roda d’água é quilombola, por isso, essa festa também é uma forma de celebrar a ancestralidade originária da África. Aquele povo, que resistiu a toda opressão, merece ser lembrado.
A estudante de jornalismo, Nayana Yara, participou do evento e revela como a festa é importante para a comunidade:

…manter essa tradição, além de ser uma celebração da cultura, também é uma forma de garantir que a tradição continue viva e passada de geração em geração, no ritmo do congo, casacas e tambores. Eu acredito que além de fortalecer a cultura, também é uma forma de valorizar os mestres e mestras da cultura popular. Além disso, fortalecer a região com o comércio local.
A aluna de ciências Sociais, Midiã Pereira, também destacou a importância do Carnaval de Congo:

O carnaval de Congo é extremamente relevante e importante na cultura do nosso povo negro e indígena. Mostra a grande resistência das pessoas que antigamente no sistema escravocrata vivenciaram muitas coisas ruins pelo homem branco, e mesmo assim nossa cultura ainda é viva atualmente, e é luz que ilumina a ancestralidade e resistência.
O congo, protagonista dessa comemoração, é a manifestação religiosa e cultural de matriz africana que ressalta a resistência da cultura afro-brasileira, muito presente no Espírito Santo.
Além do congo, outras manifestações, como a capoeira e a culinária, marcam presença durante os festejos em Roda d’água.
Figura do João Bananeira
Durante as comemorações, surge uma figura muito típica da cultura capixaba: o João Bananeira. Muitas pessoas se fantasiam como o personagem, que revela uma história muito importante.
Para garantir a comemoração da festa de Nossa Senhora da Penha, no passado, os escravizados vestiam-se com folhas de bananeiras e usavam máscaras para não serem reconhecidos o que permitia a presença no meio dos brancos.
Com o tempo, surgiu o nome “João Bananeira”, tornando-se um personagem do folclore de Cariacica.
O artista plástico e ex-diretor de cultura do município de Cariacica, Sancler Rosetti, produz as máscaras do João Bananeira. Ele contou como são feitas:

As máscaras são feitas de papietagem, que é a técnica que fazem a moldura no barro, e em cima botam um plástico, e depois botam camada de papel e cola feita de goma de trigo, e depois pinta.
O personagem é tão importante que virou patrimônio imaterial de Cariacica em 2020. Além disso, existe uma lei capixaba de incentivo financeiro à cultura chamada “João Bananeira” desde 2005.