Ditadura Militar: Caetano Veloso e o conservadorismo entre os jovens
Qual a relação entre o discurso do cantor no Festival Internacional da Canção e a crescente onda conservadora no Brasil?

Ana Carolina Lemos
No último dia 31 de março, o Golpe Militar fez 62 anos. Esse foi um dos períodos mais conturbados da história brasileira, com vários momentos impactantes e de muita opressão. Nessa época, diversos artistas brasileiros não escondiam suas revoltas a respeito do que estava acontecendo no país naquele momento.
O cantor baiano Caetano Veloso, um dos principais nomes da música brasileira, deixava explícito a opinião sobre esse período. Ele foi um dos pioneiros do Movimento Tropicalista, junto com os outros nomes famosos: Os Mutantes, Chico Buarque, Gal Costa, Tom Zé e Nara Leão.
No ano de 1968, durante uma apresentação para o Festival Internacional da Canção, Caetano Veloso fez um discurso à juventude da plateia, comparando-os com as pessoas que agrediram atores da peça Roda Viva, uma história de protesto escrita por Chico Buarque.
Foi um discurso forte e atemporal que pode ser relacionado aos jovens nos dias atuais, principalmente pelo fato de ter surgido mais conservadores entre a juventude atual brasileira.
Mas antes de ler sobre esse discurso é importante entender o que foi o Movimento Tropicalista naquela época.
O que foi o Movimento Tropicalista?
O Movimento Tropicália ou Tropicalismo, foi um movimento cultural, explorado principalmente pela música brasileira, que tinha uma característica de reinvenção, rompendo com o que era antes e com a maneira elitista de fazer música.
Naquela época, muitas canções eram politizadas, mostrando suas opiniões e criticando o governo de uma forma sutil e disfarçada, para que não acabassem sendo presos ou até mesmo mortos. Músicas como “Cálice” de Chico Buarque, “Alegria alegria” e “É proibido proibir” de Caetano Veloso, entre diversas outras, foram feitas como forma de protesto contra a Ditadura Militar.
O movimento ocorreu durante o período de maior censura no país. Começou em 1967 e terminou em 68, quando os principais cantores participantes deste movimento foram presos ou exilados pelo governo, como ocorreu com Caetano Veloso e o Gilberto Gil. Porém, mesmo acabado, o Tropicalismo deixou sua marca na história da música brasileira e influenciou outras áreas da arte.
Uma marca do movimento foi o lançamento do disco manifesto, com Caetano Veloso, os Mutantes e Tom Zé, chamado “Tropicália ou Panis et Circenses”, no ano de 1968.

Esse disco, foi uma grande resposta à tudo que estava acontecendo naquele momento, foi um protesto contra o Governo Militar.
O nome, “Panis et Circenses”, traduzido para “Pão e circo”, tinha como significado a política pão e circo que acontecia na época, em que o pão era o que o governo dava de “alimento” para a população, representado pelo famoso “milagre econômico” e a falsa ideia de segurança que tentavam passar para a população. Já o circo, era representado pelo entretenimento, sendo o rádio um grande aliado.
Festival Internacional da Canção de 1968
Em 1968, no Rio de Janeiro, aconteceu a terceira edição do Festival Internacional da Canção, onde Caetano Veloso apresentou pela primeira vez a música polêmica “É proibido proibir”.
Sua sonoridade não agradou os estudantes que estavam na plateia. Por esse motivo, ele foi muito vaiado durante a apresentação, foi quando Caetano aproveitou para fazer um dos discursos mais marcantes da época, criticando a juventude por estar sendo conservadora e não aceitando o que era novo.
“Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada.
Hoje não tem Fernando Pessoa. Eu hoje vim dizer aqui, que quem teve coragem de assumir a estrutura de festival, não com o medo que o senhor Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir essa estrutura e fazê‑la explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Não foi ninguém, foi Gilberto Gil e fui eu! Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender.
Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada… E vocês? Se vocês forem… se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos!”
— Caetano Veloso durante o Festival Internacional da canção em 1968.
Caetano quis criticar aqueles estudantes que estavam ligando só para estética e a performance, comparando-os com as pessoas que espancaram os atores da Roda Viva, dizendo então, que não havia diferença entre eles, pois aqueles mesmos jovens que pregavam o fim da opressão da Ditadura, eram os jovens que estavam vaiando uma música tão importante que criticava a mesma.
Caetano queria que aqueles jovens entendessem a mensagem que a música transmitia, que era “proibido proibir”, ou seja, era proibido censurar e oprimir, mas ao invés disso, estavam presos a antiga estética da música brasileira, mais tradicional e conservadora. Para ele, isso era extremamente contraditório, pelo fato de serem jovens. Eles deveriam ser “revolucionários” e aceitar o novo, e não “andar para trás”.
O conservadorismo atual da juventude brasileira
Atualmente, no Brasil, um levantamento da AtlasIntel revelou que 52% dos jovens de 16 a 24 anos são conservadores. Os jovens, que sempre foram vistos com quem quer mudanças, que deveriam romper com o conservadorismo do passado, agora reforçam preconceitos que não deveriam existir.
São jovens presos ao passado, que acabam sendo influenciados por pessoas em redes sociais que possuem discursos antigos: opiniões sobre identidade de gênero, estilos musicais, família, entre outras temáticas que acreditam que deveria voltar a ser como antes.
É um discurso que acaba reforçando preconceitos, como racismo, homofobia e transfobia, disfarçado de ser apenas uma opinião ou um estilo de vida diferente.
A seguir, três jovens responderam a seguinte pergunta:
“O que você acha sobre a onda de jovens conservadores que está tendo no Brasil?”

Eloah Neves Ferreira, 18, estudante
Na minha visão, é difícil entender como alguém jovem pode adotar uma postura conservadora, já que a nossa geração tem tanto acesso à informação e à educação. Por isso, quando vejo ideias que reforçam preconceitos, desvalorizam causas sociais ou espalham desinformação, isso me preocupa bastante. Parece um passo para trás. Justamente por isso, acredito que é essencial incentivar cada vez mais o acesso à informação e ao pensamento crítico entre os jovens. O preconceito e a disseminação do ódio aumentam quando vêm acompanhados de discursos conservadores. Essas ideias costumam impor um padrão do que seria “correto”, excluindo quem não se encaixa nele. Muitas pessoas passam a ser vistas de forma injusta, como se estivessem erradas, o que gera discriminação e até mesmo violência.

Monallyza Nascimento dos Santos, 17, estudante
Na minha opinião, o aumento de jovens com ideias mais conservadoras tem muito a ver com a influência das redes sociais, muitos acham que estão pensando por conta própria e até se veem como mais conscientes, mas acabam repetindo o que veem com frequência. Esses conteúdos costumam mostrar assuntos difíceis e reforçar opiniões mais duras, sem incentivar uma reflexão maior. Não é falta de inteligência, e sim a forma como a internet vai moldando o jeito de pensar, muitas vezes sem a pessoa perceber.

Beatriz Silva Santana, 17, estudante
Na minha opinião sobre a onda de jovens conservadores no Brasil está vindo a tona pelos conteúdos coach misóginos, ou que ensinam “como ficar rico em 2 dias” e demais conteúdos que prometem te transformar em uma pessoa “boa” ou “bonita” em um período de tempo incabível. Esses conteúdos lavam a cabeça do jovem de um jeito indescritível, os fazendo tentar se encaixar em um padrão que não existe e foi criado por dinheiro. O padrão de beleza também se encaixa no conservadorismo, os jovens veem pessoas alternativas (estilo diferente do padrão de beleza) como algo estranho de que não deveria existir, trazendo o bullying juntamente com o conservadorismo, jovens não devem estar nesse âmbito, convivendo a base de conservadorismo, o conservadorismo só existe porque foi ensinado a eles.
Caetano continua atual
As três jovens entrevistadas possuem opiniões coincidentes, criticando como o conservadorismo da juventude atual pode causar um grande problema na sociedade, envolvendo intolerância e preconceitos antigos.
Assim, o discurso de Caetano Veloso durante sua apresentação de “É proibido proibir” pode ser uma crítica não só para aqueles estudantes da PUC que estavam na plateia naquele dia. Esse discurso pode ser relacionado com a juventude dos dias atuais, pois ainda querem “continuar para trás”, não aceitando o novo.
Os mesmos jovens que querem ser respeitados, não respeitam o “diferente”, trazendo uma grande hipocrisia. Além disso, continuam preferindo a estética, a performance.
Como Caetano disse: “se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos!”
Ou para ser mais claro: estamos muito mal!