A violência contra mulher na sociedade contemporânea

O respeito deu lugar ao medo em uma sociedade marcada pela violência de gênero e pelo ódio nas redes sociais.

O medo faz parte da rotina de muitas mulheres (Foto: Google)

Tamires Pereira Barbosa

Em meados da década de 1840, no Reino de Daomé, localizado na África Ocidental (atual Benin), existia um dos mais impressionantes exércitos femininos da história: as Agojie, também conhecidas como as “Amazonas de Daomé”. Inicialmente formadas por mulheres caçadoras de elefantes, elas passaram a integrar a guarda real e, com o tempo, tornaram-se parte essencial do exército do reino.

Diante das grandes perdas masculinas nas guerras da época, essas mulheres assumiram posições de combate e conquistaram reconhecimento por sua bravura, disciplina e habilidade militar, muitas vezes consideradas superiores às dos soldados homens. Respeitadas por aliados e temidas pelos inimigos, as Agojie também eram protegidas por leis rígidas: qualquer homem que cometesse violência física ou tentasse violência sexual contra uma delas poderia ser condenado à morte por ordem do rei.

A presença dessas guerreiras revela um momento histórico em que mulheres ocuparam posições de poder, respeito e autoridade dentro de uma sociedade africana.

O combate contra o exército francês, na metade do século XIX, acabou provocando o fim dessas guerreiras. Como a sua existência perturbou a compreensão dos papéis de gênero, aos poucos ocorreu o apagamento da sua história.

A história das Agojie destoa da realidade vivenciada pelas mulheres em diferentes épocas e civilizações. Ainda hoje, apesar dos avanços sociais, culturais, políticos e econômicas, as mulheres convivem diariamente com preconceitos e desrespeito.

No Brasil, principalmente, as mulheres convivem com o medo e o risco constante de se tornarem mais um número nas estatísticas de violência contra a mulher e feminicídio. Em 2024, foram registrados 1.492 feminicídios e 87.545 casos de estupro.

Do respeito ao medo

O medo da violência torna atividades simples do cotidiano feminino, como caminhar pela rua, voltar do trabalho ou utilizar o transporte público, ser acompanhadas por um sentimento constante de alerta. O medo de sofrer algum tipo de agressão, assédio ou violência tornou-se parte da rotina feminina em diversos contextos sociais. Em vez de serem admiradas ou respeitadas, muitas mulheres ainda precisam lidar diariamente com a possibilidade de se tornarem vítimas de crimes motivados apenas por seu gênero.

Grande parte das mulheres ainda tem dúvidas sobre o que, de fato, pode ser considerado um tipo de abuso. Por conta disso, muitas acabam sendo submetidas a situações que afetam sua autoestima, geram insegurança e distorcem a percepção sobre si mesmas. Quando menos percebem, já estão inseridas em um relacionamento abusivo.

A violência, muitas vezes, tem início em comportamentos considerados “normais” ou até naturalizados socialmente. Frases como “você não vai sair com essa roupa” ou atitudes de controle sobre escolhas pessoais são frequentemente ignoradas ou não reconhecidas como formas de violência psicológica, permitindo que essas práticas se intensifiquem e evoluam para casos mais graves.

A médica legista Ediane Morati afirma que muitas vezes a violência contra a mulher começam justamente com esse tipo de agressão. “Em alguns casos, a violência se inicia de forma sutil, com críticas constantes, tentativas de controle ou comentários que diminuem a autoestima da mulher”, explica. Segundo ela, esses comportamentos tendem a se intensificar em relações marcadas por insegurança, necessidade de controle e pressão por padrões estéticos impostos socialmente.

Ediane Morati (Foto: Arquivo Pessoal)

O ódio nas redes sociais e o movimento Red Pill

Para piorar, a violência física se soma à violência praticada pelo avanço da tecnologia, especialmente das redes sociais. O que deveria ser um espaço de troca, informação e conexão passou, em muitos casos, a funcionar como um ambiente onde discursos de ódio e ideologias misóginas são disseminados, normalizados e amplificados, com um alcance muito maior e com maior dificuldade de proteção.

Nas plataformas digitais, o movimento Red Pill Movement ganha destaque entre o público masculino que o acompanha. Mas afinal, o que seria essa ideologia?

O termo tem origem no filme The Matrix (1999), no qual o protagonista, interpretado por Keanu Reeves, precisa escolher entre duas pílulas: a azul, que representa a permanência em uma realidade ilusória, e a vermelha, que simboliza o despertar para a “verdade”.

A partir dessa ideia, o movimento passou a ser associado a discursos que defendem uma suposta “consciência” sobre as relações sociais, mas que, na prática, frequentemente reforçam visões distorcidas e negativas sobre as mulheres. Em muitos casos, esses conteúdos contribuem para a disseminação de discursos de ódio em ambientes digitais, que podem ultrapassar as telas e se refletir em comportamentos agressivos no cotidiano, incluindo casos de violência e feminicídio.

Para o policial civil Ian de Paula, esse tipo de discurso tem impactos diretos sobre os homens, principalmente entre os mais jovens. “As redes sociais acabam normalizando a misoginia, principalmente entre os jovens, e isso influencia comportamentos cada vez mais agressivos”, afirma. Segundo ele, nos atendimentos, a violência psicológica aparece com maior frequência do que a física nos casos de violência doméstica.

Ian De Paula (foto: Arquivo pessoal)

Como combater essa violência?

No contexto em que discursos de ódio ganham espaço e se tornam cada vez mais comuns, o desafio não está apenas em combater a violência visível, mas também em desconstruir ideias e comportamentos que a alimentam.

Garantir segurança e dignidade às mulheres não deve ser visto como um “grande” avanço, mas como o mínimo necessário em qualquer sociedade.

Nesse cenário, a atuação de movimentos que defendem os direitos e a segurança das mulheres, como o feminismo, torna-se essencial no enfrentamento à violência de gênero e à disseminação de discursos misóginos. Além disso, o incentivo à sororidade fortalece redes de apoio entre mulheres, contribuindo para que possam enfrentar juntas uma realidade ainda marcada por desigualdade e violência.