Mulheres e mercado de trabalho

A psicóloga Marcela Dal Bem, a comandante Dayse Barbosa, a trabalhadora Cida, a mãe Francine e a jornalista Glacieri discutem desigualdade, racismo, maternidade e trajetória profissional

(Foto: Pexels)

Guilherme Trindade

Em um país onde as mulheres lutam pelo direito de sobreviver, o mercado ainda impõe barreiras que dificultam a trajetória profissional das mulheres. Principalmente em relação a cargos de chefia.

A psicóloga Marcela Dal Bem analisa que,  historicamente, o problema maior era acessar espaços de destaque em diferentes âmbitos da sociedade. Ela afirma que muitas mulheres que que assumem papeis  de liderança enfrentam desconfiança, maior cobrança e questionamentos sobre sua capacidade de liderar.

(Foto: Marcela Dal Bem/Foto Arquivo Pessoal)

No comando da segurança pública

Dayse Barbosa, de 37 anos, enfrentou diversos tipos de preconceitos em sua trajetória profissional. Formada em pedagogia, Dayse ingressou na carreira de segurança pública em 2012. Passados 12 anos, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de comandante da Guarda de Vitória

Apesar de sua competência, ela já ouviu diversos comentários machistas: “Só está nesse cargo porque fiquei com fulano”. É como se a mulher só pudesse chegar ali porque algum homem a colocou naquele lugar”, desabafa.

(Foto: Dayse Barbosa/Arquivo Pessoal)

De acordo com levantamento da Diversitera, de 2025, 35% dos cargos de alta liderança são ocupados por mulheres, mesmo representando 70% das funções operacionais. Dayse sente isso na pele, pois muitas vezes foi a única mulher em uma mesa de reuniões.

“No começo eu sentia mais resistência. Às vezes eu estava cobrando alguma coisa do trabalho e as pessoas diziam que eu estava daquele jeito porque estava de TPM ou porque tinha brigado com o namorado. Se fosse um homem fazendo a mesma cobrança, ninguém questionaria. Iriam dizer apenas que ele estava sendo o gestor”, observa.

Comentários ouvidos por Dayse são parte de uma série de micro agressões sofridas historicamente pelas mulheres. Uma pesquisa da Todas Group e da Nexus aponta que, entre 1.534 lideranças femininas entrevistadas, 56% dizem que uma das atitudes mais importantes que homens devem tomar é interromper falas machistas de outros colegas. Porém, apenas 35% das mulheres dizem já ter sido defendidas por um homem em situações de preconceito de gênero no trabalho.

Micro agressões são pequenos passos que levam ao aumento do números de feminicídio no Brasil. Em 2025, foram registradas 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio em 2025, segundo o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil. Foram 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, totalizando quase seis (5,89) mulheres mortas por dia. Dayse tem mudado essa realidade: em Vitória, não há registros de feminicídio há mais de 600 dias.

O mercado de trabalho

Mesmo representando uma parcela significativa da força de trabalho no Brasil, as mulheres ainda enfrentam obstáculos para tirar seu sustento. Salários menores, menos oportunidades, mais dificuldade e desigualdade, essa é a realidade da mulher no Brasil.

A participação no mercado de trabalho cresce, mas a igualdade salarial ainda avança em passos pequenos demais. Segundo o 4º Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, elas recebem, em média, 21,2% menos do que os homens em empresas com 100 ou mais funcionários. A remuneração média das mulheres é de R$3.908,76, enquanto a dos homens é de R$4.958,43.

No mesmo relatório, o Espírito Santo aparece como o quinto estado com maior diferença salarial média no país, com 26,9%, perdendo apenas para Paraná (28,5%) e Rio de Janeiro (28,5%), seguidos por Santa Catarina (27,9%) e Mato Grosso (27,9%). Os menores índices estão em Piauí (7,2%), Amapá (8,9%), Acre (9,1%), Distrito Federal (9,3%), Ceará (9,9%) e Pernambuco (10,4%).

Embora os salários sejam desiguais, a força de trabalho feminina têm crescido nos últimos anos. Em 2025, o número de mulheres ocupadas superou os 44,6 milhões, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da PNAD Contínua. Apesar do aumento, caso as mulheres ganhassem igual aos homens na mesma função, R$92,7 bilhões teriam entrado na economia brasileira em 2024.

Salários justos e iguais são essenciais para a independência feminina. A psicóloga Marcela Dal Bem acredita que isso permite que ela não dependa mais do seu cônjuge, dando a ela mais poder de escolha e, principalmente, da possibilidade de sair de relacionamentos que possam ser abusivos.

Mulheres negras

Na esfera dos problemas femininos no mercado de trabalho, é essencial não esquecer de uma  parcela da população ainda mais invisibilizada: as mulheres negras.  A psicóloga Marcela observa que, embora a inserção da mulher no mercado de trabalho seja considerada recente, mulheres negras sempre trabalharam, desde o período da escravização até o pós-abolição. Na maioria das vezes, elas precisaram trabalhar em subempregos, situação que ainda é atual.

Maria Aparecida de Souza, a ‘Cida’, de 47 anos, é uma mulher negra que vive na pele as lutas nas atividades profissionais desde muito cedo. Ela relata que seu primeiro emprego foi aos 13 anos, depois de sair de casa. Como doméstica, Cida teve que aprender a realizar todos os tipos de tarefas, o que a fez trabalhar na mesma casa por 15 anos.

(Foto: Maria Aparecida/Arquivo Pessoal)

Depois disso, ela passou por diversos outros empregos. Foi auxiliar de cozinha, cuidadora e garçonete. Hoje, Cida trabalha como auxiliar de limpeza em uma creche. Como mulher negra, as oportunidades que ela teve foram em trabalhos de cuidado.

À margem da sociedade, as mulheres negras têm seus empregos desvalorizados e isso se mostra, também, nas diferenças salariais entre elas e homens não negros. O Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, de 2024, mostra a diferença nos salários medianos de admissão, que chega a 33,5% (R$ 1.836,00 para mulheres negras e R$ 2.764,30 para homens não negros). Já o rendimento médio é de 53,3% (R$ 2.986,50 para mulheres negras e R$ 6.391,94 para homens não negros).

A vida profissional de Cida é uma amostra do sistema: entre os 24 milhões de empregos no setor de cuidados (limpeza, cuidado de idosos e crianças), cerca de 45% são ocupados por mulheres negras no Brasil, de acordo com a revista científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

“Não me lembro de ter sofrido algum tipo de preconceito por ser negra, mas sinto que tem sempre diferença entre mulheres negras e brancas”, relata Cida. Além da diferença de tratamento, a desigualdade salarial também mostra sua discrepância: em 2023, as mulheres negras recebiam em média R$ 2.199,04, enquanto as brancas R$ 3.729,69, segundo o Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra).

Maternidade e a jornada-tripla

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), mostra que dentre as mulheres desempregadas, o principal motivo da não procura por emprego é pelo trabalho doméstico e de cuidado não pago, resposta dada por 31% das mulheres. Apenas 3% dos homens responderam igualmente.

Já na pesquisa da Pluxee, 60% das mulheres entrevistadas afirmam já ter enfrentado dificuldades profissionais em razão dos filhos. É o caso de Francine Salazar, de 50 anos, que é servidora pública há 23 anos e mãe de uma criança com deficiência. Lucas, de 13 anos, recebe todo amor e carinho da mãe que teve de lutar pelo direito de cuidar dele.

(Foto: Francine Salazar/Arquivo Pessoal)

“Eu precisava levar o Lucas nas terapias que ele necessita, mas meus chefes não me deram horário especial, e só me deixavam sair mais cedo para levá-lo quando terminasse o serviço. E quando não terminava, tinha que trabalhar sábado e domingo. É um trabalho pesado, o que torna a maternidade muito mais cansativa. Um dos chefes começou a me perseguir, me demandava mais serviço para que eu não tivesse tempo de cuidar do meu filho”, conta a mãe.

A psicóloga Marcela Dal Bem diz que a maternidade pode sobrecarregar as mulheres, pois, além de trabalhar, elas geralmente têm que realizar tarefas domésticas. Isso se refere a dupla ou até tripla jornada de trabalho, é uma carga horária interminável de trabalho, que ainda recai sobre a mulher o papel de limpar, cozinhar e cuidar da casa e dos filhos.

O horário especial que Fracine deveria ter desde o nascimento do filho é um direito previsto na Legislação Brasileira, que foi negado a ela. A Lei nº 13.370/2016 prevê a possibilidade de redução da jornada de trabalho para servidores públicos que tenham filhos com deficiência, sem redução salarial e sem necessidade de compensação de horas.

Quando Lucas fez 4 anos, Francine não aguentava mais a escala de trabalho. Sofria de crises de ansiedade e pressão alta. Foi quando procurou o sindicato e decidiu levar a empresa estatal à justiça, o que gerou sua vitória e redução da carga horária prevista em lei. Porém, a servidora conta que ainda sofre perseguições de colegas por conta de seu horário especial.

Ser mãe é uma das várias pressões forçadas às mulheres pela sociedade. A psicóloga Marcela Dal Bem explica que essa idealização pode gerar sofrimento em mulheres que não conseguem dar conta de tudo que foi imposto. “Casar e ter filhos pode sim representar um projeto de vida para algumas mulheres, mas é sempre importante questionar os papéis de gênero e até abrir a possibilidade de não escolha desse projeto”, opina.

Esperança?

A jornalista Glacieri Carraretto, de 38 anos, é daquelas que se orgulham profundamente de ser mulher. Como assessora de imprensa da Guarda de Vitória, ela é mais uma das mulheres presentes na segurança pública da capital. Contagiante e batalhadora, Glacieri, que vem do interior do Espírito Santo, afirma que sempre teve de achar alguma forma de conseguir dinheiro, pois seus pais não tinham uma boa condição financeira.

(Foto: Glacieri Carraretto/Arquivo Pessoal)

Enquanto estudava, ela fazia pequenos bicos para ajudar em casa: faxina na casa de familiares, fazia bijuterias de miçanga para vender, pintava unhas. Quando chegou em Vitória para estudar na faculdade, ainda não tinha experiência e precisava conciliar estudo e trabalho. As primeiras oportunidades que apareceram foram fazendo faxina em apartamentos. “Mais uma vez eram trabalhos que a sociedade entende como femininos. Era o que eu conseguia naquele momento”, narra.

A vida na capital não teve início fácil. Em um de seus primeiros trabalhos, começou a lidar com situações de assédio. Ela entregava panfletos em sinais e saídas de supermercado, mas os homens a viam como um objeto. “Você não é vista como uma pessoa trabalhando, mas como ‘uma menina bonita entregando um papelzinho’. Muitos motoristas achavam que podiam fazer piadas ou brincar comigo”, conta Glacieri.

Quando começou a trabalhar como jornalista em segurança pública, sentiu o primeiro grande choque. A maioria esmagadora das fontes eram homens e ela percebia que suas perguntas eram tratadas como menos importantes. “Muitas vezes vinha uma piada ou uma gracinha junto com a resposta”, afirma. “Eu tive que conquistar a confiança das fontes com muita competência. Enquanto o meu colega homem fazia uma pergunta e recebia a resposta imediatamente, quando eu perguntava vinha sempre uma piada ou uma cantada junto. Eu tive que remar muito mais para provar que sabia do que estava falando”, relata a jornalista, que sente na pele como a mulher está sempre tendo que provar que é competente. Ela diz ainda que se uma mulher comete um erro, vira motivo de piada ou deboche. A cobrança é muito maior.

Prova viva da força feminina, Glacieri diz acreditar em um futuro no qual as mulheres não terão mais que lutar pelo direito de viver. “Eu sou otimista. Acho que a gente vem avançando, mesmo que em passos lentos. Hoje se fala mais sobre desigualdade, sobre direitos e sobre essas questões que antes nem eram discutidas”, conclui.