Matrícula não é inclusão
O número de crianças atípicas matriculadas em escolas regulares cresce, mas a presença não garante participação efetiva nem aprendizado pleno. Sem estrutura, apoio especializado e adaptações pedagógicas, muitas permanecem à margem do processo educativo

Júlia Sousa
A educação inclusiva tem avançado nas políticas educacionais e no acesso à escola, com isso, o número de crianças atípicas matriculadas na rede regular cresce ano após ano. A proposta é garantir que todos tenham direito à socialização e ao aprendizado em ambientes diversos desde a infância. No entanto, quando falta preparo, estrutura e apoio especializado, o espaço escolar pode se transformar em um ambiente de exclusão silenciosa, comprometendo o desenvolvimento da criança.
A Declaração de Salamanca de 1994, assinada por 92 governos e 25 organizações, também reforça o princípio da inclusão. A recomendação é que a escola proporcione condições para que todos aprendam juntos, adaptando-se aos diferentes ritmos e estilos de aprendizagem e garantindo um ensino de qualidade, com boa organização, recursos adequados e envolvimento da comunidade escolar.
A pedagoga e psicopedagoga Aline Gonzaga declara que a convivência entre crianças típicas e atípicas estimula empatia, respeito à diversidade, habilidades sociais e cooperação. Aline Gonzaga afirma que essa convivência para as crianças atípicas é um espaço de interação e aprendizagem e para as crianças típicas é a oportunidade de crescerem com mais consciência social e respeito.
A professora Fernanda Arruda compartilha da mesma visão e declara que a melhor opção para o desenvolvimento de todos é um ambiente misto, onde crianças típicas e atípicas convivam juntas. Ela conta que dessa forma a criança típica descobre que existem diferentes formas de aprender, brincar e se comunicar, enquanto a criança atípica se sente incluída ao observar e participar das interações do grupo.
A adaptação da sala de aula é, portanto, essencial para garantir oportunidades iguais. Sobretudo, é preciso um ambiente acolhedor, estratégias pedagógicas que envolvam todos e uma rotina bem estruturada, que possa ajudar a reduzir crises e ansiedade. Em suma, é importante que a instituição compreenda as necessidades individuais de cada aluno e trabalhe em parceria.
A professora Fernanda Arruda destaca que o verdadeiro desafio está em transformar o discurso inclusivo em ações cotidianas, como adaptar atividades, flexibilizar o planejamento, investir em formação continuada e garantir estrutura física e humana para atender cada criança. Fernanda Arruda conta que a falta de recursos, tempo e preparo das equipes limita o trabalho e, consequentemente, o desenvolvimento das crianças atípicas.
A psicóloga Stefhanie Barbosa declara que quando a inclusão de verdade não acontece, a criança corre vários riscos para o desenvolvimento. Assim, a criança pode se sentir isolada, frustrada ou desmotivada, podendo apresentar atrasos, dificuldade de socialização e problemas emocionais. Ela afirma também que sem adaptação, acolhimento e apoio, a escola deixa de ser um espaço de desenvolvimento e se torna um lugar de exclusão.
Realidade
O número de crianças atípicas matriculadas em escolas comuns cresceu de forma significativa nos últimos anos, incentivado por políticas de inclusão e pelo reconhecimento da importância do convívio social para um desenvolvimento pleno desde a primeira infância. Embora o cenário seja de maior acesso, é preciso olhar para o todo e compreender se esse aumento representa, de fato, uma inclusão verdadeira ou apenas o cumprimento burocrático de matrículas.
O Censo Escolar de 2024 não fornece um percentual único para todas as crianças atípicas, mas indica que o percentual de alunos incluídos em classes comuns no Brasil cresceu de forma gradual e passou para 95,7% em 2024. O avanço é positivo, mas muitas dessas crianças ainda não recebem acompanhamento especializado, recursos pedagógicos adaptados ou espaços preparados para acolhê-las.
Vanessa Oliveira, tia de Vinícius e Gabriel, ambos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 3, relata constantes dificuldades na escola. Vanessa conta que os meninos já ficaram cerca de um mês sem poder ir para a escola por conta da ausência de cuidadores disponíveis para os dois. Ela diz que a falta de cuidadores impede a permanência dos meninos na sala de aula e atrasa o desenvolvimento. Vanessa relata também a ausência de propostas pedagógicas adaptadas. “Eles não estão preparados para lidar com crianças atípicas”, afirma Vanessa.

A advogada Jovana Medeiros, mãe de Ruth, diagnosticada com TDAH associado à dislexia, disortografia e discalculia, também enfrentou barreiras para garantir o direito da filha. “Precisei apresentar a lei para pedir suporte, porque, apesar da legislação de 2021 qualificar o TDAH como transtorno de suporte, a instituição não considerava como algo que precisasse de apoio”, relata.
Jovana Medeiros afirma a importância da busca por aprendizagem e interesse por parte da instituição. Ela diz que, assim como as famílias atípicas tiveram que se adaptar e aprender sobre as necessidades de uma criança atípica, a escola também deveria compreender a singularidade de cada criança que possui uma necessidade. A advogada declara ainda que os números estão crescendo, mas o preparo ainda não é sólido e expressa também a falta de uma política pública adequada.