A imagem midiática dos políciais
Esteriótipos e clichês alteram a percepção sobre a polícia no Brasil

Hiago Coelho
Ao longo das últimas décadas, a mídia oscilou entre retratar policiais como heróis incorruptíveis ou como agentes violentos, corruptos e desumanizados. Essas representações midiáticas exercem grande influência sobre como diferentes grupos sociais constroem suas identidades, e com os policiais não é diferente.
A maneira em que filmes, séries, músicas e notícias retratam a figura do policial não só molda a percepção do público, mas também interfere na forma como os próprios agentes compreendem seu papel, suas atitudes e até suas emoções. Identidade, nesse caso, não nasce apenas da instituição, ela é também resultado do olhar que a sociedade devolve.
Há exemplos positivos de representação em séries e filmes que mostram o policial como um ser humano complexo, alguém que enfrenta pressões, riscos, dilemas morais e fragilidades. Um deles é o personagem Marlon, na novela Dona de Mim, da Rede Globo. Essa perspectiva contribui para uma representação mais equilibrada. Quando obras expõem o desgaste emocional da profissão, o peso da rotina, mas também momentos de empatia e humanidade, elas aproximam a sociedade dos agentes e ajudam os policiais a se reconhecerem para além do uniforme. Esse tipo de representação reduz estigmas e promove compreensão mútua.
Por outro lado, exemplos negativos de representação são as produções que valorizam a violência ou apresentam policias apenas como figuras agressivas, autoritárias ou movidas pelo brutalismo. Isso reforça estereótipos prejudiciais, um deles é o delegado Sérgio, na série Os Outros, também da Rede Globo, que tem um comportamento não convencional.
Quando a mídia retrata a polícia como um grupo cuja função central é impor medo ou agir sem limites, ela afeta tanto a percepção pública quanto a autoimagem do agente. Em alguns casos, essa representação cria um ciclo problemático, o público passa a temer a polícia, e alguns policiais internalizam o papel de “força dura” como se fosse o único possível.
Esses efeitos são potencializados pelo contexto social em que vivemos. Na sociedade do espetáculo, tudo ganha proporções amplificadas, e a imagem do policial, seja heroica, seja violenta, é constantemente transformada em narrativa. O que importa é a cena impactante, e não a realidade cotidiana da segurança pública. Isso comprime a identidade policial entre dois extremos: o salvador e o vilão.
Na modernidade líquida, onde tudo muda rápido, a imagem da polícia também se torna instável. A cada nova crise, caso ou viralização, a identidade do policial é revisada pelas redes, ora recebendo apoio, ora sendo criticada sem distinção. Essa fluidez gera inseguranças e pressões que afetam o modo como os agentes interpretam seu papel social.
As relações digitais aceleram ainda mais esse processo. Vídeos de abordagens, trechos de operações e cenas desconexas circulam rapidamente e formam opiniões instantâneas. Muitas vezes, o recorte viralizado não representa o todo, mas passa a definir a identidade coletiva dos policiais. Ao mesmo tempo, registros positivos, quando viralizam, ajudam a humanizar esses agentes e a aproximá-los da comunidade.
Com a Inteligência Artificial, surge um novo impacto. A IA pode reproduzir estereótipos já presentes no imaginário, associando policiais a violência, excesso de força, masculinidade rígida, ou, de forma positiva, ajudar a construir imagens mais equilibradas e realistas. O desafio está no fato de que a IA aprende com os dados disponíveis; se esses dados refletem estereótipos distorcidos, esses mesmos estereótipos podem ser replicados em larga escala.
Este é o primeiro material da série sobre esteriótipos na socidade produzido pelos alunos de Publicidade e Propaganda na disciplina de Mídia e Sociedade da FAESA Centro Universitário em 2025/2.