A voz do futebol local
Por mais que enfrentem desafios como a falta de visibilidade, as torcidas organizadas carregam a alma do futebol capixaba, trazendo com elas: tradições, construindo identidades e mantendo viva a paixão pelos clubes

Camila Muller
Os gritos e canções emitidos pelas arquibancadas estão longe de serem considerados um eco qualquer, pois são a alma do futebol capixaba, seja nas canções ensaiadas, pinturas de rosto, bandeiras ou histórias que conectam gerações. As torcidas organizadas carregam tradições, constroem identidades e vibram a paixão pelo clube do coração não apenas nos estádios, mas na cultura e na vida de quem faz do time a sua rotina.

A Grenamor, torcida organizada da Desportiva Ferroviária, é considerada a organizada mais antiga do Espírito Santo, fundada em 1976. O ex-presidente e eterno membro, Alex Amaral, afirma que as torcidas organizadas são importantíssimas para que se tenha identidade com o clube. Ele ainda ressalta que a torcida grená pode ser considerada um patrimônio do futebol capixaba. “Não tem como existir Desportiva sem Grenamor, e Grenamor sem Desportiva”, diz Alex.
O arquirrival Rio Branco também não fica para trás, a Brancachaça se destaca entre as principais torcidas organizadas capixabas, com a ideologia do “Chopp”: tomar uma cerveja, torcer sempre sem violência e cantar durante os 90 minutos. O diretor e um dos fundadores Rodrigo “Pezão” Castelan relembra que, em 2018, mesmo com o Rio Branco vivendo uma grave crise financeira, a torcida lotou sua parte da arquibancada na estreia da Série B do Capixabão. “Foi ali que vimos que o clube vai se recuperar em qualquer situação, porque a torcida é apaixonada”, afirmou.

“Figurinha” confirmada nos jogos do Rio Branco, o Mister M é um exemplo de amor herdado através de gerações. Ele contou que veio de berço capa-preta, com o avô e o pai como dirigentes do clube, e decidiu seguir esse legado. “É uma sensação de satisfação em estar alegrando o público e fortalecendo o futebol capixaba”, descreveu. De acordo com dados publicados no site Torcida ES, a média de público pagantes nos jogos do Capixabão 2025 entre os dois respectivos times foi de 8.611 mil, liderando a competição.
No olhar do jornalista esportivo de A Gazeta Filipe Souza, as torcidas organizadas são embaixadoras dos clubes, capazes de transformar qualquer jogo em um espetáculo e encantar quem pisa em um estádio pela primeira vez. O Ranking Nacional de Federações de 2025 destaca que o Espírito Santo possui o 7º futebol mais fraco. “Torcer para um time que pode não ter nem divisão é um ato de resistência. Sinal de paixão genuína. E isso tem que ser valorizado”, relata Filipe.
A socióloga Claudiméia Almeida reforçou a ideia de resistência e pertencimento que as torcidas organizadas proporcionam. A profissional diz que esse sentimento de pertencimento cria uma resistência às dificuldades que o futebol capixaba enfrenta, especificamente a respeito da falta de visibilidade e investimentos. Claudiméia relata ainda que essas torcidas desempenham um papel essencial ao manter a cultura do futebol capixaba viva e ativa.

O CEO do Porto Vitória, Léo Casula, deu ênfase no poder da paixão na relação entre clube e torcida. Para ele, esse amor é o que mais move essa interação, especialmente em um clube recente como o Porto Vitória. Léo relembra momentos que, mesmo com um início recente e torcida pequena, viu a energia dos torcedores transformarem partidas e influenciar diretamente o desempenho dos jogadores.
Diante disso, as torcidas organizadas desempenham um papel essencial na identidade e cultura dos clubes. Os pequenos momentos já têm grande significado para as torcidas e mesmo com a falta de visibilidade, elas exercem forte influência cultural e social. Os cantos das arquibancadas continuam a ser o combustível para os clubes e isso mostra que, mesmo em um cenário de pouca exposição, a paixão pelo futebol capixaba é um símbolo de resistência.